Está sobrando baleia

Estudo no Nordeste brasileiro revela que
há superpopulação de algumas espécies

Alexandre Mansur

Foto: Kaanapali Reach Resort Association/Divulgação
Jubarte: projeto prevê a proibição definitiva da caça a
baleias no Atlântico

Os pesquisadores sempre souberam que as águas claras e mornas do litoral nordestino são o cenário ideal para as baleias acasalarem e terem filhotes nos meses de inverno. Só não imaginavam que eram tantas as baleias que usufruem esse endereço. A novidade surgiu há duas semanas, quando seis biólogos e oceanógrafos aportaram no Recife depois de passar treze dias esquadrinhando o alto-mar. A bordo de um navio da Marinha que percorreu 1.570 quilômetros, eles realizaram o primeiro levantamento de mamíferos marinhos da costa nordestina. Constataram a presença de quatro espécies de baleias e definiram as áreas preferidas de cada uma delas — um trabalho inédito. Acrescentando a esse estudo registros anteriores de aparições de outras cinco espécies, os cientistas concluíram que nove tipos de baleias habitam ou freqüentam o litoral nordestino (veja quadro). A principal, e boa, surpresa do cruzeiro científico foi verificar a quantidade de minkes que nadam por lá. No total, foram avistados 38 grupos dessa espécie.

Ninguém esperava encontrar tantas baleias, especialmente em uma área onde, até doze anos atrás, as minkes eram caçadas em escala comercial. O resultado das pesquisas confirmou a tese mais otimista — antes desacreditada —, segundo a qual a espécie não só se recuperou da matança como gerou até uma superpopulação. Por ironia, quase tudo que os pesquisadores conheciam sobre as espécies que freqüentavam o Nordeste era inferido a partir dos registros dos próprios baleeiros. Das 22.000 baleias mortas pelos caçadores entre 1963 e 1986, 15000 eram minkes. Isso indicava que a espécie era a mais comum. Mas as informações dos baleeiros eram limitadas.

Enrolado na rede — Como muitos dos animais mortos na época estavam sexualmente maduros, supunha-se que as baleias usassem a área para se reproduzir. A hipótese só não era confirmada porque os baleeiros nunca haviam declarado ter capturado fêmeas grávidas. "Eles escondiam dados que poderiam ser usados para proibir a caça", afirma um dos coordenadores do cruzeiro, o oceanógrafo Alexandre Zerbini, da Universidade de São Paulo. Com o cruzeiro de pesquisa encerrado, os biólogos confirmaram que a costa nordestina é um verdadeiro berçário para as minkes. Embora a espécie seja das mais arredias, quatro fêmeas foram vistas nadando com filhotes recém-nascidos.

"A descoberta de áreas de reprodução é importante porque justifica cientificamente a criação de um santuário no Atlântico Sul", explica Jesuina Maria da Rocha, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Ibama. Uma proposta nesse sentido será apresentada pela delegação brasileira na próxima reunião da Comissão Baleeira Internacional, em maio de 1999. Se for aprovada, a caça às baleias na região estará definitivamente proibida. O que existe hoje é uma moratória, que pode ser revogada a qualquer momento, cedendo às pressões de países caçadores dos cetáceos como a Noruega e o Japão. Enquanto a caça comercial está suspensa, a maior ameaça às baleias são as capturas acidentais em redes de pesca. Durante o cruzeiro, os pesquisadores flagraram várias redes de deriva que, apesar de proibidas em águas territoriais, constituem a maior causa de morte de golfinhos e baleias. Estima-se que, em todo o mundo, 1 milhão de cetáceos morram anualmente enrolados nessas redes.

O cruzeiro científico, organizado pelo Ibama e pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, CIRM, é uma iniciativa fundamental para o estudo dos grandes mamíferos marinhos em seu ambiente. A única espécie sobre a qual os cientistas já têm conhecimento maior é a jubarte, estudada há dez anos na região do Arquipélago de Abrolhos. Sem uma observação sistemática dos animais no mar, não há como saber a época de reprodução, as rotas de migração, os hábitos alimentares e outros aspectos de seu comportamento. "Antes, dependíamos dos encalhes para estudar as baleias, o que limitava as informações a questões morfológicas e fisiológicas", afirma o biólogo Salvatore Siciliano, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A observação de baleias exige olho treinado e equipamento. O barco da Marinha usado pelos pesquisadores tem um ponto de observação a 10 metros de altura, onde os seis pesquisadores se revezavam das 5 às 17 horas em busca de qualquer sinal dos animais. O esforço valeu para a definição das áreas mais freqüentadas pelas espécies estudadas e para uma primeira amostragem da quantidade delas. Com a boa notícia de que são muitas, os estudos devem continuar.

 



Ilustrações Newton Verlangieri/Super Interessante

 





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