Saramago contra
Kenneth Starr

"Com seus livros e o Nobel de Literatura, o
iluminista português espanta as reverberações
da Inquisição e derrota fragorosamente
o procurador obscurantista"

Luiz Felipe de Alencastro

O ano de 1998 marcará os tempos futuros. Terremoto financeiro anunciando o novo gênero de crise econômica com que o capitalismo terá de haver-se daqui para a frente. Chorrilho de vulgaridades de Bill Clinton impingidas às televisões e aos povos do mundo inteiro conduzindo, talvez, à primeira destituição constitucional de um presidente dos Estados Unidos (Nixon se demitiu em 1974, antes do início do julgamento de impeachment). Enfim, noutra escala de referência, em outro plano moral e intelectual, mas igualmente decisivo no campo cultural de nós outros, lusófonos, 1998 será o ano em que Saramago recebeu o Nobel de Literatura.

No começo de 1998, mandatado pelo Ministério da Justiça para investigar o caso Whitewater, escândalo imobiliário envolvendo Hillary e Bill Clinton ainda nos tempos do Arkansas, o procurador Kenneth Starr estava entalado num impasse. Fizera alarde, gastara dinheiro dos contribuintes americanos, mas não conseguira provar nada de sério contra o casal Clinton. Surgiu então o processo Paula Jones, o testemunho de Linda Tripp, o nome de Monica Lewinsky. As circunstâncias, em parte obscuras, que levaram às gravações telefônicas, ao depoimento da ex-estagiária da Casa Branca e à incriminação de Clinton estão relatadas nos jornais The New York Times (de 4 de outubro de 1998) e Le Monde (9 de outubro de 1998). Cento e cinqüenta investigadores trabalhando em tempo integral e com recursos de monta dirigidos pelo procurador Starr para alinhar os detalhes sexuais supérfluos que permeiam seu relatório. Um grande júri reunido para interrogar o presidente, durante quatro horas, exclusivamente sobre sua vida sexual e suas relações com uma mulher adulta que havia consentido encontrá-lo. E toda essa baixaria mostrada mundo afora. Por trás da sanha investigatória de Starr vislumbra-se a obsessão da sexualidade e da transparência da intimidade que forjou os grandes inquisidores da Península Ibérica.

No começo de 1998, o escritor José Saramago iniciava em sua casa nas Ilhas Canárias a redação do quinto volume de seu diário Cadernos de Lanzarote, que será lançado nas próximas semanas. Saramago cresceu e passou a maior parte de sua vida no regime de Salazar. Ditador impiedoso, político tapado, ele pensava que seu povo não precisava de democracia e que as colônias portuguesas abririam mão, para sempre, de sua liberdade. Mas homem de grande rigor moral, avesso a ladroeiras, gestionário meticuloso de uma economia nacional sem inflação e, até, um homem casto. Sim, porque os boatos de que Salazar tivesse quebrado seu duro celibato, extra-oficialmente, nos braços de uma jornalista francesa nunca foram provados. Na Lisboa salazarista, sem vida noturna, sem liberdade, com muita polícia política e bastante carolice, Saramago leu o Padre Antônio Vieira, burilou seu estilo e os temas de seus romances, cultivou sua aversão ao obscurantismo. Na longa e meticulosa investigação sobre o gênero humano que empreendeu sozinho, Saramago esbarrou em muitas dúvidas, na insegurança, na incerteza dos seres que viravam seus personagens. Todas essas perplexidades e algumas poucas convicções vêm registradas nos seus romances. Mas, como notou um crítico português, Saramago não se esconde detrás de nenhum narrador, de nenhum personagem. Sua escrita lembra o tempo todo a presença do autor. O escritor José Saramago assume plenamente o espaço de seus livros. "Nos meus romances, há pelo menos um homem dentro: eu." É o combate solitário, artesanal, do ato de escrever um livro que foi agora premiado pelo Nobel. Com essa recompensa, o autor ibérico que deu vida eterna a muitas existências simples e esquecidas no passado espanta das televisões e dos jornais espanhóis, portugueses e brasileiros a baixaria americana, as reverberações da Inquisição. Com seus livros e o Nobel, o iluminista Saramago derrota fragorosamente o obscurantista Kenneth Starr.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador




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