Roberto Pompeu de Toledo
A volúpia do fracasso
"Maradona era o deus dos estádios mas era assaltado
por
um sentimento de incompletude. Que lhe faltava?
Ora, o que lhe faltava
O sal da terra: o fracasso"
Foi uma pena a Argentina ter ganhado do Uruguai. Não pelo
futebol, que o leitor não entenda mal. Pelo futebol em si, ainda bem
que ela ganhou e assegurou o direito de participar da Copa do Mundo. Copas do
Mundo não podem prescindir da Argentina; a ausência de um de seus
maiores atores as condena a evento de segunda ordem. Foi uma pena porque dessa
forma a Argentina se viu privada de uma de suas mais caras aspirações
o fracasso. Nada mais argentino do que o fracasso. O sofrimento é
o alimento de que se faz a nacionalidade. "Os argentinos sofrem de modo
tão insuportável que cada um mereceria uma indenização
ao nascer", dizia o maior ator cômico do país, Tato Bores.
O argentino genuíno, o castiço, o de mais pura cepa, é
vidrado no fracasso. Impulsiona-o uma visão de mundo expressa de modo
brutal no famoso primeiro verso do tango Cambalacho: "Que el mundo
fué y será una porquería ya lo sé".
Está aí o caso deste assombroso Diego Armando Maradona
que não nos deixa mentir. Ele era o deus dos estádios mas
era assaltado por um sentimento de incompletude. Que lhe faltava? Ora, o que
lhe faltava
O sal da terra: o fracasso. Ele se entrega às drogas.
O corpo se deforma num balofo de levar ao júbilo o selecionador de elenco
de Federico Fellini. A vida vira uma corrida entre internações
e recidivas. Na verdade ele não é apenas o deus dos estádios.
É Deus mesmo, muito mais que Pelé, que é apenas rei. Na
Igreja Maradoniana, uma entidade fundada em Rosário, é identificado
pelo tetragrama D10s, combinando Seu número da camisa com a palavra dios. No entanto, é um deus que, enfastiado com os acenos de imortalidade,
flerta com a morte.
A certa altura ele se recupera. Deixa as drogas, emagrece, ressurge
para a vida. E o que resolve fazer? Pasmem: ser técnico da seleção!
Na Argentina como no Brasil, não há posto mais adequado a quem
aspira ao flagelo. Ainda se ele fosse um técnico profissional, que precisasse
do emprego, ou a quem valeria o risco para coroar a carreira
Mas não.
Ele é D10s. A Pelé, que não passa de rei, jamais ocorreria
tal desvario. Mas Maradona sentia de novo um vazio na alma. Faltava-lhe o conforto
do fracasso. Quase conseguiu. Dois gols milagrosos, no finalzinho das duas últimas
partidas, salvaram a Argentina da desclassificação.
No final da segunda delas, contra o Uruguai, na última
quarta-feira, o Pibe de Oro deu-se a uma comemoração orgiástica.
Era um possesso, a pular e gritar. Ora, direis, como pode flertar com o fracasso
alguém que se lança desse jeito à comemoração
de um sucesso? Pois no ato seguinte, ao comparecer à sala de imprensa,
eis que, para vingar-se dos que puseram seu trabalho em dúvida, recepciona
os jornalistas com uma torrente de palavrões. O prazer da vitória
dissolvia-se na raiva. Longe dele querer apresentar-se como olimpicamente vitorioso.
Xingando como nem nos lupanares do cais, ao vivo na TV, garantia que no futuro
não se esquecessem de desprezá-lo. A nostalgia do fracasso já
avançava sobre sua alma inquieta.
* * *
Nobreza, clero e terceiro estado eram as três classes sociais
no Antigo Regime francês. Em três classes também se divide
a população da embaixada brasileira em Honduras, segundo a descrição
do repórter Lourival SantAnna, do jornal O Estado de S. Paulo. Integram o time da nobreza o presidente deposto Manuel Zelaya, sua mulher e
os assessores. Clero não há lá dentro, mas digamos que
podem preencher essa lacuna aqueles que, numa versão benigna, são
sacerdotes da notícia os jornalistas. O terceiro estado é
representado por um povo de seguidores de Zelaya, entre os quais operários,
agricultores, professores e pequenos empresários.
O casal Zelaya e os assessores, segundo constatou o repórter,
ocupam quatro salas, servem-se de dois banheiros com chuveiro mais espaço
que o que sobra para todos os outros e dormem em colchões de ar
e sacos de dormir. Os demais se viram com três banheiros, só um
deles com chuveiro, e dormem em sofás ou no chão. A nobreza come
a comida que a empregada dos Zelaya lhe manda de fora. O clero, a comida de
restaurante que colegas lhe compram. O terceiro estado fica com sua versão
do sopão dos pobres marmitas que lhe são enviadas por um
Comitê de Direitos Humanos. O discurso de Zelaya é em favor da
igualdade, mas ele não nega a raça. Latino-americanos são
vidrados numa desigualdade.
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