Maílson da Nóbrega
Mitos e verdades sobre o FMI
"O G-20 não substituiu o FMI nem diminuiu
sua importância.
O Fundo foi a organização
mais citada no comunicado: 31 vezes"
As cenas se repetiram em mais uma reunião anual do Fundo
Monetário Internacional (FMI), realizada em Istambul, na Turquia. Durante
o evento, encerrado no último dia 7, hordas de jovens bem vestidos e
dizendo-se antiglobalização bloquearam ruas, promoveram arruaças
e depredaram caixas automáticos e lojas que nada tinham a ver. Estudantes
empunharam cartazes com os dizeres "FMI, fora de nossa cidade".
A dificuldade de entender para que serve o FMI não é
privilégio dessas turbas, que costumam se guiar por uma mistura de ignorância,
preconceitos anticapitalistas e vetustos ideais marxistas. Nos seus tempos de
oposição, o presidente Lula também entoava o "Fora
FMI" para desancar os acordos que o Brasil celebrava para enfrentar as
crises vindas do exterior ou produzidas por nossos próprios desequilíbrios.
Talvez movido pelas reminiscências daqueles tempos, Lula
comemorou de forma canhestra o resultado da reunião do G-20 em 25 de
setembro de 2009. Em vez de celebrar duas decisões históricas
a transformação do G-20 em principal fórum de cooperação
econômica mundial e a transferência de 5% de cotas do FMI dos países
ricos para os emergentes , o presidente preferiu dissertar sobre o vazio.
Disse que o G-20 não terá ingerência nos países:
"A política de constrangimento era antes, quando o FMI ficava mandando
os países fazer ajuste fiscal e acabava atrofiando a economia".
Para o ministro da Fazenda, o FMI ficou subordinado ao G-20. Quanta confusão!
O G-20 existe para discutir a cooperação e a coordenação
de políticas, em especial no campo financeiro. Seus comunicados orientam
decisões de instituições multilaterais. Representam apoio
político para mudanças institucionais nos respectivos países.
É um colegiado que não tem como se ingerir em assuntos internos
de seus membros.
O FMI, criado em 1944, tem por objetivo "fomentar a cooperação
global, assegurar a estabilidade financeira, facilitar o comércio internacional,
promover o emprego e o crescimento sustentáveis e reduzir a pobreza".
É um mandato para nenhum "desenvolvimentista" botar defeito.
O FMI exerce suas funções de três formas:
(1) monitoramento da situação econômica e financeira, visando
a prevenir crises; (2) auxílio a países em crise, mediante o fornecimento
temporário de recursos e o apoio a medidas para corrigir seus desequilíbrios;
(3) assistência técnica e treinamento em áreas de sua especialidade.
Regra geral, o FMI ajuda países a enfrentar dificuldades
de acesso a financiamento externo. Por isso, a entrega dos recursos depende
de medidas (as chamadas condicionalidades) para atacar as fontes dessas dificuldades,
o que reduz por um tempo a atividade econômica e o emprego. Daí
a ideia de que o Fundo prejudica o país.
Ocorre que não estabelecer tais condições
seria contrário aos interesses de longo prazo do próprio país.
Equivaleria a tratar uma doença grave sem prescrever remédios
às vezes amargos e não mudar condutas nocivas à saúde
do paciente. Feito de seres humanos, o FMI erra, mas é no mínimo
exagero rotular os seus acordos como interferência em um país,
mesmo porque se pode recusá-los. Foi o que fez Juscelino Kubitschek,
que preferiu evitar medidas impopulares contra a inflação ascendente.
As condicionalidades se aplicam a quaisquer países em dificuldades
que precisem do apoio financeiro do FMI para superá-las. Ricos, emergentes
ou pobres. Os primeiros, ainda nos anos 40, foram a França, a Holanda
e o Reino Unido. Esse último, resgatado de uma crise cambial na segunda
investidura de Harold Wilson como primeiro-ministro (1974-1976), teve de ajustar-se.
Na atual crise financeira mundial, o FMI criou uma linha flexível
para países de comprovada gestão macroeconômica responsável.
México e Colômbia a utilizaram. Se quisesse, o Brasil poderia ter
feito o mesmo. Os três conduzem políticas semelhantes às
prescritas pelo FMI em crises passadas.
Ao contrário do que se disse por aqui, o G-20 não
substituiu o FMI nem diminuiu sua importância. O Fundo foi a organização
mais citada no comunicado: 31 vezes. Acontece que muitos preferem os mitos.
Dá para entender. Fica bem falar mal do FMI ou tripudiar sobre seus supostos
infortúnios.
Maílson da Nóbrega é economista |