Memórias
"A maior violência era o isolamento"
Edelmiro Franco/AFP
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VIDA
DEPOIS DO HORROR
Clara com o filho, em maio do ano passado:
"Quando tentamos fugir, eles nos acorrentaram" |
É difícil
descrever os suplícios vividos por Clara Rojas. Sequestrada pelos narcoterroristas
das Farc, ela passou seis anos como prisioneira na selva amazônica, em condições
hediondas. Engravidou e deu à luz com a barriga aberta a faca. Pouco depois,
tiraram-lhe o filho. Séria e tranquila, a advogada colombiana, hoje com
45 anos, fala de tudo ou quase com perfeito autocontrole. Só
não conta quem é o pai de Emmanuel, o filho de 5 anos que reencontrou
depois de ser libertada, em janeiro de 2008. E desconversa quando o assunto é
Ingrid Betancourt, a mais famosa das ex-reféns, de quem era assessora e
com quem rompeu durante o cativeiro. Os tormentos narrados no livro Eu, Prisioneira
das Farc, recém-lançado no Brasil pela Ediouro, foram relembrados
nesta entrevista à editora assistente Bel Moherdaui.
Um ano e
nove meses depois de sair do cativeiro, o que continua a parecer o melhor da vida
em liberdade?
Acordar em um ambiente tranquilo. Desfruto de coisas simples
como tomar um suco de laranja, ouvir uma música, ler os jornais. Também
gosto muito de ir ao parque com meu filho.
O que ainda a faz
lembrar dos seis anos de sofrimento na selva amazônica?
Às
vezes o barulho de helicópteros me deixa alerta. Quando vou ao aeroporto,
sinto que o barulho dos aviões é muito familiar.
Como
seu filho superou o nascimento em condições terríveis e a
separação da mãe?
Ele se adaptou muito bem. Só
tem 5 anos e meio e era muito pequeno no cativeiro. É um menino maduro
para sua idade e capta as coisas rapidamente. É uma criança feliz,
vai ao colégio normalmente. Ficaram, na verdade, sequelas físicas,
porque tive um parto difícil e ele sofreu uma fratura de um osso do bracinho,
abaixo do ombro. Emmanuel passou por duas cirurgias importantes, sendo uma de
transplante de nervo. Hoje, faz sessões de fisioterapia para ganhar força
nos músculos, o que demora. Mas, como o problema foi na mão esquerda
e ele é destro, não atrapalha tanto.
A senhora
e os outros reféns viveram em condições indescritíveis,
mas no dia a dia havia questões banais. O que vestiam, por exemplo?
Vivíamos de farda e cada um tinha duas mudas. Muito raramente, substituíam
as camisas. Até por isso, uma das alegrias de estar solta é poder
trocar de roupa e escolher as cores que quero usar. Lá, era sempre camuflagem
militar. Calçávamos botas, e era comum o pé ser de um tamanho
e a bota de outro. Eu tomava muito cuidado para que elas durassem bastante tempo.
Meu último par, por exemplo, durou os dois últimos anos de cativeiro.
Como sobrevivia à variedade de insetos da selva?
O
grande segredo era tentar manter a higiene corporal. Só de tomar banho
todo dia, o que eu me esforçava para fazer, já ajudava muito. E
a roupa que usávamos era grossa, então aprendi a usá-la como
proteção. Vivia de mangas compridas. Sentia calor, mas preferia
isso às picadas, que eram doloridas e faziam estrago na pele.
Qual
a pior violência que a senhora sofreu no cativeiro?
A maior violência
é o isolamento, a solidão. Quando tentamos fugir, eles nos acorrentaram,
o que é uma forma de tortura muito violenta. No meu caso particular, sofri
isso durante um mês, mas ficava chocada com o fato de manterem os soldados
acorrentados o tempo todo. Era desumano. Sofríamos com as condições
climáticas, com tempestades violentas. E também por não sabermos
como os guerrilheiros iriam reagir a qualquer tensão. Era um terror constante.
No livro, a senhora diz: "Vivi uma experiência que
me deixou grávida". Seu filho já lhe perguntou quem é
o pai?
Meu filho não me perguntou nada, ainda é muito pequeno.
A senhora sofreu estupro?
Não falei desse tema
para não entrar em especulações e prefiro não fazer
nenhum comentário.
Aconteceu com outras sequestradas?
Não tenho informações sobre isso em particular.
Quais
foram os momentos mais difíceis?
Diria que foram três: quando
nos acorrentaram; o meu parto, que me deixou à beira da morte; e quando
me separaram de meu filho.
Percebe-se pelo seu livro que também
havia muita inimizade entre os reféns. Por quê?
Num ambiente
desses, sempre surgem tensões. Vivemos com a morte por perto o tempo todo.
Houve momentos muito duros; especialmente quando eu estava grávida, era
mais difícil gerenciar a tensão e o estado de ânimo de todos.
A
senhora e Ingrid Betancourt não voltaram a se encontrar. O que diria hoje
a ela?
Não tenho problema nenhum com ela. Assim como me encontrei
com outros ex-reféns, acredito que, no futuro, teremos um diálogo
cordial.
Como a senhora vê hoje a situação
das Farc?
Acho que estão mais enfraquecidas, mas não terminaram.
Também espero que mantenham a promessa de libertar mais gente, mas creio
que ainda falta um caminho a ser percorrido. Um caminho que passa pela libertação
das pessoas e, o mais importante, pela reconciliação e por um compromisso
de paz real e duradoura.
Por que tantas pessoas relutam em qualificar
seus sequestradores das Farc de terroristas?
Acredito que organizações
que cometem atos hostis como colocar bombas ou sequestrar civis por tanto tempo
passam muito perto do terrorismo.
Qual é seu maior desejo
para o futuro?
Que haja tranquilidade e entendimento entre os países
irmãos. E uma vida tranquila com meu filho. |