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Home  »  Revistas  »  Edição 2135 / 21 de outubro de 2009


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Cinema

Leve e vibrante

Assim é a sátira do inglês Noël Coward, muito bem adaptada em Bons Costumes


Isabela Boscov

Divulgação
DOIS PARA DANÇAR UM TANGO
Firth, como o patriarca indiferente, e Jessica, como a nora exótica: o esnobismo inglês contra a modernidade americana


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Para sua diversão, ao fim da II Guerra o inglês Noël Coward (1899-1973) descobriu que seu nome constava do "Livro Negro" dos nazistas - a lista das pessoas que eles planejavam eliminar sem demora, como o filósofo Bertrand Russell, o primeiro-ministro Winston Churchill e os escritores Aldous Huxley e Virginia Woolf. "Imagine morrer nesse tipo de companhia", brincaram ele e a crítica Rebecca West, também incluída no rol. No caso de Coward, os nazistas, que não tinham humor e odiavam quem o tivesse, estariam matando vários inimigos de uma só vez: escritor, dramaturgo, compositor, ator, diretor e cantor, Coward expressava sua verve em quantas formas pudesse dominar, e nunca encontrou um tema que não julgasse merecedor de mordacidade. Mas suas observações, embora ácidas, não eram corrosivas; eram antes de tudo bem-humoradas, com uma queda alegre para o nonsense e mesmo compreensivas para com os pequenos e grandes ridículos da natureza humana. Todas essas qualidades estão bem preservadas pelo diretor australiano Stephan Elliott em Bons Costumes (Easy Virtue, Inglaterra/Canadá, 2008), que estreia na próxima sexta-feira no país. Assim como o mais importante: o talento do autor para os bons mots, as frases espirituosas que, aqui, pontuam os diálogos em quantidade e qualidade espantosas.

Central Press/Getty Images
O ÁCIDO QUE NÃO CORRÓI
O escritor, compositor e até cantor Coward: tudo merece crítica, desde que com humor


Na trama adaptada da peça homônima de 1926, a glamourosa e liberada Larita se casa com um inglês mais novo, herdeiro de uma família tradicional. Segue-se a primeira visita à família. A qual está despreparada não apenas para a notícia, como para os modos da recém-chegada. Larita, para começar, é americana (e, interpretada por Jessica Biel, tem dentes brancos em área suficiente para uma meia dúzia de ingleses). É, portanto, uma ave exótica e meio cansativa. Larita não tem paciência para com circunvoluções sociais, não anda a cavalo, acha a caça à raposa um horror e, imperdoável, é alérgica a flores. A sogra (Kristin Scott Thomas, ótima), que com típico estoicismo britânico tenta esconder do mundo a falência iminente da família, a detesta - e a inveja, e se ressente dela. "Não se preocupe", diz uma local sobre a matriarca. "Conviver com ela é mais ou menos como se afogar. Quando você para de se debater, é até agradável."

Coward cobre muito território com esse pequeno enredo burlesco: a ignorância com que os ingleses assistiam à ruína de seu modo de vida no entreguerras, sua perplexidade diante da modernidade dos americanos e seu mal colocado senso de superioridade sobre eles. Cobre também, é claro, os detalhes que azedam a vida em família - os casamentos frustrantes (Colin Firth, como o patriarca, é de uma indiferença enfurecedora), os filhos que não saíram como se esperava, a falta de dinheiro e a necessidade de disfarçá-la. Mas sua pena e a direção de Elliott (de Priscilla - A Rainha do Deserto) são de uma leveza e de uma versatilidade vibrantes: do jogo de palavras ao pastelão, não há recurso cômico que eles não usem com propriedade. Acima de tudo, Bons Costumes ajuda a recuperar a memória de Coward. Popularíssimo nos países de língua inglesa dos anos 20 em diante, ele acabou eclipsado, na crônica literária contemporânea, por satiristas mais ilustres como Oscar Wilde e George Bernard Shaw. Mas é, sem dúvida, um dos grandes. E visto hoje, a distância, surpreendentemente livre de amargura.


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