Ideias
A arte de decifrar estatísticas
Steven Levitt, da Universidade
de Chicago, recebeu em 2003 a medalha John Bates Clark, distinção
concedida anualmente a economistas promissores que tenham menos de 40 anos. O
prêmio é visto como uma prévia de um futuro Nobel. Mas sua
fama veio de fato em 2005, com Freakonomics. De sua casa em Chicago, Levitt,
hoje com 42 anos, falou ao editor Giuliano Guandalini.
Em SuperFreakonomics,
vocês optaram por não tratar da crise financeira mundial. Por quê?
Há milhares de pessoas mais capazes do que eu de tratar desse tema.
A crise teve mais a ver com a macroeconomia, e menos com a microeconomia, minha
especialidade. Apesar de tudo fazer parte da economia, macroeconomia e microeconomia
são um pouco como o futebol jogado no Brasil e o futebol americano. Se
me convidassem para escrever um livro sobre a crise financeira, seria como chamar
Pelé para jogar futebol americano. Mas gostaria de deixar claro que não
me imagino o Pelé da microeconomia.
Charles
Rex Arbogast/AP
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CONTRA O SENSO COMUM
Levitt: "A chave é interpretar os dados de maneira criativa, questionando
a sabedoria convencional e buscando resolver nossos problemas" |
Mas a análise dos incentivos
que levaram as pessoas à euforia da bolha não se inclui em seu campo
de estudo?
Realmente, parte da crise se deve aos incentivos econômicos
que incitaram a especulação. Mas acredito que a crise tenha sido
essencialmente resultado do equívoco nos modelos matemáticos usados
pelas firmas de Wall Street, que viviam da presunção de que o preço
dos imóveis nunca cairia. Foi um caso de péssima utilização
de estatísticas econômicas, consequência muito mais de incompetência
do que de incentivos errados. Além disso, a macroeconomia nem se parece
mais com economia hoje em dia, está mais próxima da matemática,
dominada por modelos complexos. isso precisará ser revisto.
Em
suas pesquisas, quais achados foram os mais surpreendentes?
Com relação
ao meu trabalho anterior, eu citaria a relação do aborto com a diminuição
da violência nas grandes cidades americanas. Já havia especulações
teóricas nesse sentido, mas o que me surpreendeu foi o tamanho do impacto.
No novo livro, volto ao tema da violência, agora para tratar dos efeitos
da televisão. Mais uma vez, muito se cogitava sobre se a TV estimula a
criminalidade. Eu, particularmente, vinha pensando nesse tema fazia quinze anos.
Apenas agora, no entanto, consegui boas estatísticas, que permitiram uma
análise sólida e coerente. Os dados corroboraram a tese, mostrando
um impacto bastante significativo no aumento de roubos naquelas cidades americanas
aonde os televisores chegaram primeiro, na década de 40.
Universidades
brasileiras, a exemplo de algumas experiências americanas, criaram cotas
para negros. O objetivo é reduzir disparidades. Esse tipo de iniciativa
funciona?
Essa é uma pergunta bastante difícil, para a qual
não encontrei uma resposta objetiva. Oferecer igualdade de oportunidades
é uma meta perfeitamente razoável de uma sociedade. O lado positivo
dos programas de cotas é, obviamente, ampliar o acesso dos negros à
educação. Um dos aspectos negativos, por outro lado, é que,
para um jovem negro com talento, o fato de dispor de cotas pode fazer com que
ele se esforce menos. Além disso, os negros podem ter seu reconhecimento
posterior diminuído pelo fato de terem se beneficiado de cotas. É
algo complicado. Trata-se de uma questão que não deve ser julgada
apenas pela lógica econômica. Há fatores morais e políticos
que também precisam ser levados em conta.
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