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Home  »  Revistas  »  Edição 2135 / 21 de outubro de 2009


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Ideias

A arte de decifrar estatísticas


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Steven Levitt, da Universidade de Chicago, recebeu em 2003 a medalha John Bates Clark, distinção concedida anualmente a economistas promissores que tenham menos de 40 anos. O prêmio é visto como uma prévia de um futuro Nobel. Mas sua fama veio de fato em 2005, com Freakonomics. De sua casa em Chicago, Levitt, hoje com 42 anos, falou ao editor Giuliano Guandalini.

Em SuperFreakonomics, vocês optaram por não tratar da crise financeira mundial. Por quê?
Há milhares de pessoas mais capazes do que eu de tratar desse tema. A crise teve mais a ver com a macroeconomia, e menos com a microeconomia, minha especialidade. Apesar de tudo fazer parte da economia, macroeconomia e microeconomia são um pouco como o futebol jogado no Brasil e o futebol americano. Se me convidassem para escrever um livro sobre a crise financeira, seria como chamar Pelé para jogar futebol americano. Mas gostaria de deixar claro que não me imagino o Pelé da microeconomia.

Charles Rex Arbogast/AP
CONTRA O SENSO COMUM
Levitt: "A chave é interpretar os dados de maneira criativa, questionando a sabedoria convencional e buscando resolver nossos problemas"


Mas a análise dos incentivos que levaram as pessoas à euforia da bolha não se inclui em seu campo de estudo?
Realmente, parte da crise se deve aos incentivos econômicos que incitaram a especulação. Mas acredito que a crise tenha sido essencialmente resultado do equívoco nos modelos matemáticos usados pelas firmas de Wall Street, que viviam da presunção de que o preço dos imóveis nunca cairia. Foi um caso de péssima utilização de estatísticas econômicas, consequência muito mais de incompetência do que de incentivos errados. Além disso, a macroeconomia nem se parece mais com economia hoje em dia, está mais próxima da matemática, dominada por modelos complexos. isso precisará ser revisto.

Em suas pesquisas, quais achados foram os mais surpreendentes?
Com relação ao meu trabalho anterior, eu citaria a relação do aborto com a diminuição da violência nas grandes cidades americanas. Já havia especulações teóricas nesse sentido, mas o que me surpreendeu foi o tamanho do impacto. No novo livro, volto ao tema da violência, agora para tratar dos efeitos da televisão. Mais uma vez, muito se cogitava sobre se a TV estimula a criminalidade. Eu, particularmente, vinha pensando nesse tema fazia quinze anos. Apenas agora, no entanto, consegui boas estatísticas, que permitiram uma análise sólida e coerente. Os dados corroboraram a tese, mostrando um impacto bastante significativo no aumento de roubos naquelas cidades americanas aonde os televisores chegaram primeiro, na década de 40.

Universidades brasileiras, a exemplo de algumas experiências americanas, criaram cotas para negros. O objetivo é reduzir disparidades. Esse tipo de iniciativa funciona?
Essa é uma pergunta bastante difícil, para a qual não encontrei uma resposta objetiva. Oferecer igualdade de oportunidades é uma meta perfeitamente razoável de uma sociedade. O lado positivo dos programas de cotas é, obviamente, ampliar o acesso dos negros à educação. Um dos aspectos negativos, por outro lado, é que, para um jovem negro com talento, o fato de dispor de cotas pode fazer com que ele se esforce menos. Além disso, os negros podem ter seu reconhecimento posterior diminuído pelo fato de terem se beneficiado de cotas. É algo complicado. Trata-se de uma questão que não deve ser julgada apenas pela lógica econômica. Há fatores morais e políticos que também precisam ser levados em conta.

 

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