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Tales
Alvarenga Gabeira e os outros
"Para
justificar antigas crenças demolidas pelos fatos, muitos integrantes
da esquerda se tornam intelectualmente desonestos. Mentem para se agarrar
a teses já desmoralizadas"
Se me consultassem, eu indicaria o deputado Fernando Gabeira, do Partido Verde
do Rio, para presidente da Câmara, no lugar de Severino Cavalcanti. Gabeira
é inteligente, é um esquerdista darwiniano (evolui) e parece tão
honesto como água de bica. Para mim, Gabeira representa o que de melhor
a esquerda produziu no Brasil. Precisou dar uma volta imensa antes de se tornar
o ideólogo equilibrado e flexível que conhecemos hoje.
Seqüestrou o embaixador dos Estados Unidos em 1969, converteu-se à
"política do corpo" nos anos 70, desfilando seminu nas areias de Ipanema,
defendeu a liberalização do uso da maconha, transferiu-se para o
ambientalismo através do Partido Verde. Tudo isso para, finalmente, descobrir
ao fim da linha o que eu já sabia sobre a esquerda nos anos 60. Não
importa que tenha demorado. Adquiriu experiência e densidade. Neste momento,
participa da ação de um grupo de deputados para livrar a Câmara
de Severino Cavalcanti. Gabeira conquistou uma autoridade moral talvez sem par
no Congresso hoje em dia. Raramente
um militante da esquerda tem uma máquina cerebral suficientemente forte
para libertá-lo dos mitos que absorveu na juventude. Para justificar antigas
crenças demolidas pelos fatos, alguns integrantes da esquerda se tornam
intelectualmente desonestos. Mentem para se agarrar a teses já desmoralizadas.
A filósofa Marilena Chauí,
a musa cerebrina do PT, afirmou em cerimônia do partido na semana passada
que o PT é odiado por puro despeito dos seus adversários. "Nós
fomos o principal construtor da democracia neste país e não seremos
perdoados por isso nunca." E eu, pobre de mim, que estava pensando no PT como
o principal construtor da roubalheira "neste país". Chauí é
uma filósofa que se recusa a enxergar o óbvio.
Entre os intelectualmente desonestos, José Dirceu é o patrono. "O
objetivo das forças que me atacam", afirmou ele, "é interromper
o processo de organização dos trabalhadores e de consolidação
de uma alternativa popular para o país." E eu, pobre de mim, que pensava
em Dirceu como o chefe da quadrilha petista, conforme o definiu Roberto Jefferson.
Já Gabeira é um homem
de esquerda com raciocínio próprio. Veja alguns exemplos numa recente
entrevista à Folha de S.Paulo: "A
idéia da luta armada pressupõe a construção de um
exército popular. Constituído o exército libertador, você
fica sem saber depois quem vai te libertar do exército."
"No Brasil, o Muro de Berlim está caindo com atraso."
"A ausência de um mito messiânico
da classe operária permite concluir que não temos salvadores, o
que é um avanço. A decadência moral em que parte da esquerda
se meteu mostra que ela não é o bem absoluto. Fica demonstrado também
que a direita não é o mal absoluto. Abre-se espaço para novas
conformações políticas." "Temos
de acabar com o elogio da ignorância." (sobre Lula)
Gabeira merece a presidência da Câmara porque é o que me parece
mais sólido entre os colegas, mesmo que não agregue apoios que resolvem
eleições. É meu esquerdista predileto porque brilha pelo
contraste com os companheiros de viagem, avestruzes que enfiam a cabeça
na areia para não enxergar a realidade. |