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Ponto
de vista: Lya Luft Cansei
desse assunto "Estou cansada do tema. Não
quero mais escrever sobre ele, mas é difícil falar de outros
assuntos quando a situação dramática bate à minha
porta" Houve quem estranhasse minha última
coluna, achando que eu estava "melancólica". Talvez, como tanta gente,
eu ande cansada de me debater entre otimismo e descrença; farta do assunto
que nos envenena publicamente no palco político, com ramificações
em bastidores que é melhor nem conhecer deles emana um odor de pizza
barata e suspeita podridão. Aliás, alguém que entende das
coisas mais que eu afirmou, em entrevista recente, que "da missa não sabemos
nem a metade". Estou cansada do receio de que tudo
acabe mal. Cansada do tema. Não quero mais escrever sobre ele, mas é
difícil falar de outros assuntos quando a situação dramática
bate à minha porta com mãos insistentes: abra, abra, escute, escreva,
não se desligue.
Ilustração
Ale Setti
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Pois
eu me desliguei relativamente por algum tempo, e ao voltar das férias pensava
encontrar presos ou fugidos muitos dos atores desse triste circo
nacional. O que vejo, porém, me dá a ilusão momentânea
de que nem estive ausente: os mesmos personagens dizem quase as mesmas coisas;
choram lágrimas de crocodilo falando nos filhos (como sempre, a gente devia
ter pensado neles na hora de agir, em vez de choramingar depois); parecem mais
ou menos sinceros, mais ou menos sorrateiros.
Até
os melhores jornalistas têm um ar entre entediado e exausto. Devem estar,
como eu, ansiosos para que todos nós tenhamos nas mãos matéria
menos malcheirosa para comentar. Decidi, portanto,
mudar o disco, o tema, o tom. Por quanto tempo?
Não sei. Mudar como? Talvez deslocar um
pouco a perspectiva ajude. Em lugar de assistir como brasileira explorada e espantada,
começo a observar depoimentos e entrevistas como ser humano, e se abrem
aspectos bem mais complexos. Um chora ao lembrar
filhos, outro soluça, de costas, falando no celular com a mulher: não
tenho grande simpatia por quem comete ações desonrosas e, ao ser
descoberto, choraminga lembrando a família, que entra em cena como um recurso
patético para desculpar ações vergonhosas.
Podem até ser lágrimas reais, lágrimas de sangue, mas chegam
com atraso: deviam ter pensado nas pessoas amadas quando estavam sendo desonestos.
Tratando-se das quantias assombrosas de que se tem notícia, a ação
criminosa com certeza não foi necessária para botar pão na
mesa das crianças, cuidar da saúde dos velhos pais, pagar pensão
da ex-mulher incapaz. Mas, na hora da explicação, desencavamos até
fotos das crianças, como quem diz: "Não façam essa maldade
comigo, pois eles, os inocentes, é que vão sofrer...".
Não me comove nada essa chantagem repulsiva, não acho correto nem
acho decente. Decente e minimamente correto teria sido bancar o pai, o filho,
o marido atento ao bem-estar da família, em lugar de meter a mão
no bolso do outro, do povo no meu, aliás.
Com algumas coisas não sou nada simpática, e neste momento não
faço a menor questão de ser. Sou razoavelmente solidária,
mas detestaria que me considerassem boazinha. Não me importa o destino
dos culpados, espero apenas que seja exemplar... e me descubro indagando: o que
é exemplar neste país de tão maus exemplos?
Na nova perspectiva que assumi, ao menos pela duração desta coluna,
me importam os que, sem de nada saber, agora são tão atingidos e
expostos. Penso no desamparo das crianças ou adolescentes que nem podem
mais ir à escola porque ali são apontados por sua ligação
com quem se tornou modelo de desonestidade e cinismo. Penso nas mulheres que não
saem de casa pelo mesmo motivo. Penso nas vidas arruinadas, nos casamentos falseados,
no desapontamento e na humilhação.
Que fortuna, que cargo, que poder seria grande e sedutor o bastante para pôr
em risco o edifício dos afetos essenciais de qualquer pessoa?
Ou seria mais adequado mudar também a pergunta:
Quem corteja poder ou dinheiro a qualquer preço tem afetos essenciais?
Lya Luft é escritora |