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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A mais estonteante
das quartas-feiras
Notas sobre o dia
em que Severino tombou
de um lado e Roberto Jefferson
do outro
Tudo tão Brasil... O dono do restaurante
da Câmara capricha no jeitão de galã maduro
de novela do SBT, a cabeleira coroada por um laborioso topete, a
gravata vermelha caprichosamente armada sob o terno escuro, na hora
entre todas triunfal de apresentar o cheque, sim, "o" cheque, aquele.
A seu lado, o mulherão de pernas bonitas, saltos altíssimos.
Ele, 54; ela, 30. Vai mostrar o cheque, mas aproveita o momento
para uma oração: "Obrigado, meu Deus, obrigado pela
força, pelos meus filhos, pela família maravilhosa..."
Era um tributo à onda evangélico-carismática
que assola o país. Tão Brasil... A contrição
da prece em oposição às sugestões da
morenaça ao lado. A Bíblia e a Playboy
em estado de alerta. No momento culminante, o dono do restaurante
levanta ao alto uma cópia ampliada do cheque, tal o capitão
Cafu ao exibir a taça do pentacampeonato. O caneco é
nosso!
Foi uma quarta-feira estonteante. Se de manhã
teve Sebastião Buani, o dono de restaurante que pôs
a nocaute o presidente da Câmara, à tarde seria votada
pela Câmara a cassação do deputado Roberto Jefferson.
A Câmara, como se sabe e, quem não sabia, ficou
sabendo agora, com a ampla divulgação de suas sessões
é a casa-da-mãe-joana. É lá que
fica esse famoso estabelecimento. Todo mundo conversa ou fala ao
celular, ninguém presta atenção em ninguém,
e grande parte prefere, em vez de se sentar, ficar circulando ou
formando rodinha junto ao microfone de apartes. Assim ia a sessão,
enquanto falavam o relator/acusador e os advogados de defesa, na
bagunça habitual, até que... Chegou a vez dele! O
ambiente transmudou-se. Silêncio absoluto. Respirações
suspensas.
O Congresso parecia voltar aos grandes dias,
o tempo dos grandes oradores. Carlos Lacerda vai falar! E então
era aquele frenesi, a tensa expectativa, depois o silêncio
reverencial. Ou, antes, nos tempos em que Machado de Assis cobria
as sessões do Senado... Eusébio de Queiroz vai falar!,
Zacharias vai falar! "Nenhum tumulto nas sessões. A atenção
era grande e constante", escreveu o autor de Dom Casmurro,
numa crônica célebre. Roberto Jefferson vai falar!
E ele realmente magnetizou a platéia, um virtuose das entonações
que vão lá em cima e descem cá em baixo em
esmerada cadência, das pausas de fazer parar o coração,
do gesto singelo de imitar um aviãozinho quando disse que
o presidente Lula gosta, mesmo, é de voar. Tão Brasil
de hoje... O homem que confessadamente sumiu com 4 milhões
de reais e, também confessadamente, uma vez reuniu sua bancada
para saber se queria receber o mensalão é o único
capaz de silenciar a Câmara.
"Saudade, ai que saudade do baixo clero."
Era o que devia estar pensando Severino Cavalcanti naquele momento.
O repórter Diego Escosteguy contou, em O Estado de S.
Paulo, que assim que recebeu a notícia de que tinha aparecido
o famoso cheque o presidente da Câmara olhou para o chão
e não disse nada. Fez-se silêncio na sala de sua casa,
cheia de assessores e advogados. Saudade do baixo clero... Severino
é a típica vítima da síndrome do passo
maior que a perna. Se tivesse ficado no seu canto, estaria tocando
a vidinha, praticando em paz um golpezinho aqui e outro acolá...
Agora, restava-lhe o silêncio, o segundo grande silêncio
do dia, a cara de caranguejo, como descobriu o genial cartunista
Loredano, enterrada no chão.
A assessoria de Severino dá o que pensar.
Nela pontificou, nestes dias críticos, o chefe da assessoria
jurídica da Câmara, Marcos Vasconcelos. Ele é
da assessoria da casa como um todo, deve zelar pela integridade
e pela respeitabilidade da instituição, e, no entanto,
mergulhou de cabeça na defesa pessoal de um chefe bichado
até as vísceras. Severino baixou as armas, diante
do cheque fatídico, mas não sem antes praticar uma
última indignidade: pôs a culpa num morto, e logo um
filho morto o filho, vitimado num desastre de automóvel,
teria sido, ele, sim, o beneficiário do cheque, para cobrir
despesas de campanha.
A quarta-feira gorda terminou num clima alucinatório.
Na janela do apartamento brasiliense de Roberto Jefferson, vislumbrava-se,
à noite, a sombra de um garçom que servia champanhe.
Comemorava-se. Pouco antes ele tinha sido cassado por seus pares.
E comemorava-se. Antes, Jefferson se despedira dos jornalistas dizendo:
"Esta é a última semana de inverno. A primavera está
chegando". Um enigmático fecho, de poéticas ressonâncias,
para uma ópera-bufa. Estaria chegando a primavera da democracia
brasileira, depois do inverno de todas as vilezas? Sempre se espera
que, desta vez, vamos. Depois de Collor, jamais seríamos
os mesmos. Depois dos anões do Orçamento, jamais seríamos
os mesmos. Mas somos os mesmos. E alguém duvida que Severino,
renunciando, será reconduzido pelo fiel eleitorado? Ou o
bispo Rodrigues, se escapar da cadeia, ou o Valdemar? Alguém
duvida que a filha de Roberto Jefferson, hoje vereadora no Rio de
Janeiro, colherá estrondosa votação? Tão
Brasil... Quanto mais pensamos que nos mexemos, mais continuamos
no mesmo lugar.
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