Edição 1923 . 21 de setembro de 2005

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Entrevista: David Fergusson
Maconha é droga, sim

O autor do maior estudo já feito
sobre o uso da Cannabis diz que
faltam objetividade e consistência
ao debate sobre a legalização


Lucila Soares

Divulgação

"Os lobistas da liberação agem como se, legalizada, a maconha pudesse ser vendida como manjericão"

O médico neozelandês David Fergusson, da Universidade de Otago, coordenou em seu país o maior estudo já levado a cabo no mundo sobre a relação de adolescentes e jovens com a maconha. Entre 1991 e 2002, ele acompanhou um grupo de 1 265 pessoas nascidas em 1977 – portanto com 14 anos no início do trabalho. O resultado mostrou que, aos 25 anos, mais de 70% delas já haviam pelo menos experimentado a droga, mas apenas 9% se tornaram severamente dependentes. Isso poderia indicar que a maconha é uma droga quase inofensiva. Mas não é essa a conclusão de Fergusson. Nesta entrevista, ele destrincha seus efeitos – com destaque para o papel de porta de entrada para drogas mais pesadas –, fala sobre a função do Estado e da família na prevenção do uso e analisa os fatores que devem ser levados em conta na discussão da legalização. Fergusson, 60 anos, falou a VEJA por telefone, pouco antes de embarcar para o Brasil, onde participou do congresso da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas, em Minas Gerais.

Veja – Por que o senhor se interessou especificamente pelo uso da maconha em seu estudo?
Fergusson – Porque, diferentemente do que ocorre com outras drogas, a maconha é muito discutida e pouco estudada. Os efeitos do consumo contínuo de bebidas alcoólicas e cigarros são mais do que conhecidos, assim como não há dúvida sobre as conseqüências devastadoras do uso de cocaína ou heroína. Mas sobre a maconha há um debate muito polarizado e poucas estatísticas confiáveis.

Veja – A grande polarização ocorre em torno do real dano que a maconha pode provocar em seus usuários. Quais são suas principais conclusões?
Fergusson – Em comparação com o álcool, por exemplo, a maconha é provavelmente menos nociva. Porém, se o consumo for legal e as pessoas usarem Cannabis com a mesma freqüência com que consomem bebidas alcoólicas, isso poderá deixar de ser verdade. O que meu estudo confirmou foram algumas assertivas. A principal é que, apesar de apenas um porcentual relativamente baixo (9%) dos jovens que acompanhei ter desenvolvido dependência grave, a maconha está longe de ser inofensiva. Entre seus usuários é maior a incidência de baixo rendimento intelectual e de evasão escolar. Além disso, seu consumo continuado aumenta o risco de surgimento de distúrbios psiquiátricos, principalmente depressão. E, finalmente, o uso de maconha estimula o consumo de outras drogas.

Veja – A tese de que a maconha é uma porta de entrada para outras drogas é correta, então?
Fergusson – Sim. Nós certamente confirmamos esse papel de "porta de entrada". E isso ocorre de duas maneiras – que são bem diferentes e possuem implicações diversas. A primeira mostra que o uso da maconha produz mudanças no cérebro, tornando o indivíduo mais propenso à dependência química. Isso o estimula a procurar outras drogas, mais pesadas. É um efeito físico sobre o cérebro ainda não suficientemente estudado e entendido, mas perfeitamente perceptível em suas conseqüências. A outra maneira pela qual a maconha leva a outras drogas é social. Como seu consumo é ilegal, as pessoas têm de se misturar aos traficantes de drogas para consegui-la. Ao entrarem em contato com eles, estariam expostas a outras drogas mais pesadas. Então a natureza ilegal da Cannabis seria a causa do efeito porta de entrada.

Veja – O que seus entrevistados relataram como motivo para ter experimentado e continuado a usar maconha?
Fergusson – A maioria das pessoas não sabe responder a essa pergunta com precisão. Normalmente, a história é que estavam numa festa, alguém ofereceu e elas resolveram experimentar. A questão relevante não é a razão pela qual elas fumaram pela primeira vez, mas o que aconteceu depois. Eu não acho que a maioria dos jovens use maconha porque tem problemas psicológicos. A maioria deles experimenta porque sente que a droga os integra a um determinado grupo. São pessoas jovens que se misturam a outras pessoas jovens que consomem drogas, e eu acredito que seja quase inevitável que elas terminem ao menos experimentando. A partir daí, vem realmente o que interessa, que é a relação de cada um com a droga e as conseqüências do uso sobre cada indivíduo. Assim como ocorre com todas as outras drogas, a mesma quantidade e a freqüência de consumo têm conseqüências diferentes em cada um. Alguns se tornam dependentes com quantidades relativamente pequenas, outros são mais resistentes. Isso é impossível prever.

Veja – Qual é o perfil do indivíduo propenso a tornar-se dependente químico? É possível detectar essa tendência?
Fergusson – Essa é uma questão das mais difíceis. O que se sabe, já há muito tempo, é que jovens que possuem problemas de conduta, ou que gostam de se arriscar, têm grande probabilidade de se deixar seduzir pelo uso de drogas. O problema é que existe um sem-número de diferenças individuais, inclusive genéticas, que dificultam a percepção da real predisposição da pessoa à dependência. Por isso, indivíduos que se encontram claramente em grupos de risco podem não se tornar dependentes, e outros que têm todas as condições de levar uma vida saudável, livre de qualquer problema com drogas, podem acabar no vício.

Veja – E onde fica a influência da família?
Fergusson – Nós realizamos estudos observando o papel da influência dos pais, familiares e amigos. A influência familiar é relativamente fraca para evitar que jovens usem drogas. O que os pais e outras pessoas da família fazem não é uma forte determinante. O que seus amigos fazem, sim, é muito forte. Se você pensar sobre o assunto, faz todo o sentido. Adolescentes não prestam muita atenção no que os pais e familiares dizem. Ouvem muito mais os amigos, fazem o que eles estão fazendo. A influência do grupo é muito mais forte do que a familiar. E qualquer um que queira ganhar na prevenção deve tentar mudar as culturas dos grupos. Aí entra o papel da escola. Evidentemente não estou dizendo com isso que a estrutura familiar e o tipo de educação sejam secundários. É lógico que um adolescente que não tem quem cuide dele, lhe dê limites, exemplo e apoio está mais sujeito a ter problemas de todo tipo. Mas é uma ilusão achar que o contrário disso é suficiente para manter um adolescente longe do perigo não só das drogas como também de outros riscos.

Veja – Há pais que começaram a fumar maconha na juventude e continuam fazendo isso, alguns com os filhos. Mesmo se considerando essa relativamente pequena influência familiar, isso não é prejudicial?
Fergusson – Presumo que pais que oferecem maconha aos filhos estão obviamente encorajando o uso. Mas repito que, a não ser que o jovem pertença a um grupo de amigos que consumam a droga, isso não terá maior relevância. Se os amigos não chancelarem o código de conduta familiar, ele dificilmente será seguido.

Veja – A maior preocupação dos pais é detectar os sinais do uso de drogas nos filhos. Em sua experiência, quais são os sinais de perigo?
Fergusson – O fundamental é conhecer bem os filhos, para poder interpretar eventuais mudanças de comportamento. É comum associar, por exemplo, desinteresse pelo estudo e tendência ao isolamento a evidências de envolvimento com drogas. Eu não tenho certeza sobre isso. Até onde eu posso ver, existe somente um sinal muito claro de que os jovens estão consumindo drogas – e este é se seus amigos são usuários. Alguns pais me ligam e perguntam: "Você sabe se meus filhos estão usando drogas?", e eu respondo: "Se você quer saber, preste atenção nas pessoas com quem eles andam, pergunte a eles se seus amigos usam drogas. Se a resposta for sim, é muito provável que eles estejam usando também".

Veja – O senhor é a favor ou contra a legalização da maconha?
Fergusson – Não tenho clareza total sobre esse assunto e acho que é preciso que a discussão seja maior, mais séria, baseada em estudos, em estatísticas. O grande problema é que nesse debate as questões morais não devem suplantar os aspectos sociais e sanitários. Isso atrapalha o enfoque racional. Temos de discutir como lidar com a maconha sob o ângulo da saúde pública, assim como se discutem álcool e cigarro. Na Nova Zelândia, por exemplo, meu estudo demonstrou que, aos 25 anos, 70% dos jovens já haviam pelo menos experimentado maconha. Então é difícil insistir, a essa altura, na proibição absoluta da venda. A solução para essa questão está em algum lugar entre a ilegalidade absoluta e a legalização. O que eu proponho aos governos é que façam uma série de experimentos sociais. As penalidades para o uso de maconha seriam reduzidas progressivamente e haveria um acompanhamento rigoroso das conseqüências dessas mudanças, para que a legislação fosse revista definitivamente num prazo de, digamos, cinco anos. Acredito que esse seria um caminho para estabelecer bases objetivas para uma decisão sobre como lidar com esse problema.

Veja – O que deve ser levado em conta nesse debate?
Fergusson – A legalização envolve duas discussões distintas, que não devem ser misturadas. Uma é médica (faz mal ou não e em que intensidade). A segunda é institucional. A conclusão sobre a primeira não deve levar automaticamente a uma resposta sobre a segunda. Ou seja, as evidências de que tipo de efeito a droga tem sobre o indivíduo não necessariamente implicam uma resposta legal. Se fosse assim, o álcool e o tabaco, que têm os efeitos nocivos amplamente conhecidos, deveriam ser ilegais. Outro aspecto freqüentemente esquecido é que, mesmo em relação a drogas legais, a sociedade precisa decidir como lidar com elas, que tipo de regulamentação deve ser feita em relação ao uso. Os lobistas da liberação agem como se, quando legalizada, a maconha pudesse ser vendida como um tempero qualquer, tipo salsa ou manjericão. Não é assim, até porque ela não é uma erva aromática, é uma droga. Nós precisaríamos de uma legislação específica, com regras para produção, restrições à venda para menores de uma determinada idade, controle de qualidade, tudo o que já existe para tabaco e álcool. E isso é um arcabouço difícil de elaborar, toma tempo e envolve questões pouco discutidas.

Veja – Os defensores da legalização do uso da maconha invocam o filósofo inglês John Stuart Mill, citando sua célebre frase "sobre si mesmo, seu próprio corpo e mente, o indivíduo é soberano". Como o senhor analisa esse ponto de vista?
Fergusson – Essa é uma visão interessante, mas omite que o indivíduo não paga a conta das conseqüências adversas de suas opções pessoais. Essa não é uma questão meramente existencial, tem conseqüências econômicas e sociais. Quem paga a conta é o governo – ou seja, é toda a sociedade –, que tem de fazer frente ao aumento da demanda na área de saúde, por exemplo. Submeter o corpo do indivíduo a sua exclusiva responsabilidade somente faz sentido se ele também se responsabilizar pelos custos totais de suas escolhas. Mas o que ocorre é que os indivíduos exigem que a sociedade banque o custo de suas experiências pessoais e não admitem que ela tenha o direito de regular sua conduta. É uma visão muito unilateral.

Veja – A defesa da legalização da maconha tem ganho adeptos em todo o mundo, inclusive de alguns grupos conservadores. Por que o senhor acha que isso acontece?
Fergusson – Creio que esse fenômeno tem base em um raciocínio de mercado. Como a maioria dos usuários de maconha não desenvolve dependência pesada, não haveria sentido em proibir o consumo, e a legalização permitiria ter controle sobre fatores como a qualidade do produto – além de significar uma fonte extra de arrecadação. No entanto, uma minoria sofre conseqüências graves, e, em algumas pessoas, o efeito da droga pode ser devastador. Quem se baseia na lógica do que seriam os direitos da maioria defende a legalização. Mas essa é uma simplificação, porque parte das evidências disponíveis mostra que a maconha é prejudicial a qualquer pessoa que a utilize. Eu insisto: é preciso estabelecer parâmetros mais objetivos para essa discussão.

Veja – Como o senhor lidou com seus filhos a respeito de álcool, cigarros, drogas quando eram adolescentes?
Fergusson – Eu os incentivava a tomar decisões como adultos e administrava essa situação, ou seja, discutia quando discordava de suas escolhas, mas aceitava. Hoje eles são adultos e usam álcool socialmente. Mas nenhum fuma e jamais usaram drogas.

Veja – E o senhor, já usou alguma droga?
Fergusson – Você deve se lembrar daquele famoso comentário de Bill Clinton quando lhe perguntaram se havia usado maconha. Pois bem, eu costumo dizer: "Eu estava lá com Bill, e eu traguei".

 
 
 
 
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