|
Auto-retrato João
Derly
All
Jarekji/Reuters
 |
O
primeiro brasileiro a conquistar o título mundial de judô é
um exemplo de como um campeão estimula outros. O gaúcho Derly começou
aos 7 anos, entusiasmado pela medalha de ouro de Aurélio Miguel nas Olimpíadas
de 1988. Superou problemas de peso e doping e, em apenas 42 segundos, derrubou
o japonês Masato Uchishiba, no Cairo. Derly falou ao editor André
Fontenelle.
VOCÊ FOI COMPARADO A UM FURACÃO
NO SITE DA FEDERAÇÃO INTERNACIONAL. COMO GANHOU A FINAL TÃO
RAPIDAMENTE? A concentração fez a diferença. Entrei
supercalmo, mais até do que nas lutas anteriores. Assim, tudo deu certo.
Até se eu errasse acho que acabaria dando certo. Pareceu fácil,
mas não foi. Talvez tenha entrado com mais coração que o
adversário. Entrei dizendo: "Hoje é meu". Foi ainda mais gostoso
ganhar na final de um japonês, e campeão olímpico. Combinei
com o técnico que ia assustar o Uchishiba, ser bem explosivo e variar os
golpes para deixá-lo instável. Com japonês, não se
pode ficar parado. VOCÊ FOI ELEITO
O MELHOR JUDOCA DA COMPETIÇÃO, ENTRE TODAS AS CATEGORIAS. ISSO SIGNIFICA
QUE VOCE É O MELHOR DO MUNDO? Não. Mas naquele dia acabei
sendo. EM 2002, VOCÊ FOI SUSPENSO
POR SEIS MESES, POR DOPING. O QUE ACONTECEU? Duas semanas antes de uma
competição, tomei um diurético (proibido) para perder
peso. Foi falta de conhecimento, e acabei vivendo um momento difícil. Seis
meses sem competir, que é o que eu gosto de fazer, foram como três
anos para mim. Pensei: "Vou parar". Mas minha família, meu técnico
e amigos me convenceram a ficar. VOCÊ
TINHA MUITOS PROBLEMAS COM PESO? Bastante. Estava sempre acima do limite
da minha categoria, que era 60 quilos. Cheguei a pesar 68. Não tinha paciência
e deixava para perder tudo em uma semana, antes da competição. Era
desgastante. Cometia um crime contra o meu corpo. Suava, corria com agasalho,
ficava sem comer, quase me desidratava. HOJE,
VOCÊ COMPETE NOS 66 QUILOS. POR QUE NÃO TROCOU ANTES DE CATEGORIA?
Eu estava muito bem nos 60 quilos, havia ganho três finais na Europa. As
Olimpíadas estavam perto. Em 2003, depois que perdi no Pan, a comissão
técnica da seleção me convenceu a passar para os 66 quilos.
Por causa disso, não fui para as Olimpíadas. Foi outro baque. Quis
desistir de novo. Mas amadureci. Aprendi a cuidar da alimentação.
Depois da medalha, está tudo superado. VOCÊ
COME DEMAIS? Quem não gosta de uma pizzazinha, uma picanha gordurosa?
Agora tenho o privilégio de desfrutar isso. Vario entre 67 e 68 quilos,
é só não comer muita besteira e já dá o peso
certo. TEM PATROCINADOR? Não.
Se tivesse de morar sozinho, não poderia lutar. Como moro com os pais,
dá para ter um confortinho. Recebo um salário do meu clube, a Sogipa,
e prêmios por competição, da confederação brasileira.
UM JUDOCA DE SEU NÍVEL GANHA EM
TORNO DE 5 000 REAIS POR MÊS. E VOCÊ? Menos, bem menos.
VOCÊ ESTÁ GARANTIDO NAS OLIMPÍADAS?
Não. Serão feitas várias seletivas. O Brasil tem atletas
fortíssimos, como Leandro Cunha, Reinaldo Santos e Tiago Takara. Não
posso descansar nunca. O QUE O JUDÔ ENSINOU
A VOCÊ? Disciplina do corpo, respeito à hierarquia, aos mais
velhos e aos mais graduados. E amizade. Luto e depois saio conversando com o adversário.
No dia seguinte ao Mundial, o japonês me presenteou com uma camiseta do
Japão. Dei a ele um chaveiro do Brasil. VOCÊ,
QUE É EVANGÉLICO, PRETENDE FAZER COMO OUTROS ATLETAS E USAR O ESPORTE
PARA DIVULGAR A RELIGIÃO? Posso falar daquilo que acho bom para
mim e que talvez também seja para outras pessoas. Minha vida pode servir
de exemplo. Mas não vou ficar a todo momento importunando os outros. |