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André
Petry
A Justiça e a vergonha
"Jefferson poderia comprar mais de 130
000
kits de queijo, biscoito e desodorante com
o dinheiro sujo do PT. Mas Jefferson
não é Sueli para dormir no xadrez"
Paulo Maluf e seu filho Flávio
estão presos, mas não por muito tempo. Afinal, eles
não são Rosimeire Rosa de Jesus. Ela é negra,
tem 33 anos e está presa desde 20 de agosto de 2004. O motivo:
tentou roubar uma ducha elétrica de um supermercado, em São
Paulo. A ducha custa 19 reais. Rosimeire foi condenada a onze meses
e vinte dias de cadeia, com um detalhe inacreditável: sem
direito a apelar em liberdade. Num país em que assassino,
ladrão e traficante podem apelar em liberdade, uma coitada
que tenta furtar uma ducha para dar banho quente no filho pequeno
tem de ficar presa. A isso dá-se o nome de Justiça
brasileira.
Roberto Jefferson perdeu o mandato
mas não perderá a liberdade. Quer apostar? Ele botou
a mão em 4 milhões de reais em dinheiro clandestino,
saído do esgoto do PT. Não furtou um queijo branco,
dois pacotes de biscoito e bisnagas de desodorante. Sueli da Silva
tem 45 anos, é negra e está presa desde o dia 30 de
junho do ano passado devido à tentativa de furtar essas ninharias
num supermercado, em São Paulo. Sueli foi condenada a um
ano e quatro meses de cadeia. Os produtos que tentou furtar custavam,
somados, 30 reais. Jefferson poderia comprar mais de 130.000 kits
de queijo, biscoito e desodorante com o dinheiro sujo do PT. Mas
Jefferson não é Sueli para dormir no xadrez, ora essa.
Os deputados do mensalão
vão ser cassados, mas não vão passar nem uma
semana no xilindró. Rosana Evangelista Santos, 36 anos, negra,
cinco filhos, ficou bem mais que uma semana na cadeia. Seu crime:
tentou furtar dois pacotes de fraldas descartáveis
o preço: 13,80 reais numa loja chamada Bebê
Alegria. A Pastoral Carcerária suspeita que Rosana seja portadora
do vírus HIV. Ela foi presa em março passado e, numa
vitória incomum para pretos e pobres, conseguiu o direito
de responder o processo em liberdade. Nossa Justiça não
é o máximo da generosidade?
Severino Cavalcanti perderá
o cargo, o mandato, mas para a cadeia não vai. Emília
Ferreira, 23 anos, branca, três filhos, nunca recebeu mensalinho
nem mensalão, mas foi presa em 17 de janeiro de 2004. O crime:
tentativa de furto de um carrinho de bebê e outros produtos
infantis. Emília cumpriu toda a pena: 21 meses de prisão.
Foi libertada na sexta-feira passada. No Brasil, só quem
é preto e pobre cumpre pena integral. Em 1992, o então
deputado Osvaldo dos Reis Mutran, de Belém do Pará,
matou um fiscal da Receita e pegou dez anos de cadeia. Cumpriu parte
da pena e foi solto. Em 2002, quando ainda deveria estar preso pela
sentença original, Mutran, homem de família riquíssima,
matou um menino de 8 anos com um tiro na cabeça, crime do
qual pasme, leitor! acaba de ser absolvido. Mutran,
o assassino, cumpre parte da pena, é solto, mata de novo
e sai absolvido. Emília, a perigosíssima assaltante
de produtos infantis, fica na cadeia até o último
dia de sua pena. Emília era primária. Não tinha
antecedentes criminais.
Maluf, Jefferson, deputados do
mensalão e Severino podem ficar tranqüilos que a Justiça
não os abandonará. Rosimeire, Sueli, Rosana e Emília
só contam com a advogada Sonia Drigo, que as defende gratuitamente
em nome de um sonho: o sonho de fazer com que um dia, quem sabe
um dia, a Justiça deixe de nos dar vergonha.
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