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Edição 1 765 - 21 de agosto de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Os debates que
estão faltando

Só se fala de economia. Cadê,
por
exemplo, discussão sobre
a
infância na campanha eleitoral?

O leitor está cansado de ler sempre as mesmas teses nesta página? Falemos bem do governo George W. Bush, para variar. Um lado surpreendente desse governo, e pouco conhecido fora dos Estados Unidos, é seu esforço no sentido de incentivar os não-casados a casar, e os casados a continuar casados. Trata-se de um programa que, no Brasil, seria chamado de "pró-casamento", ou, vá lá, "pró-ajuntamento", pois o ponto não é bem que os casais casem de papel passado, mas que vivam juntos e partilhem as responsabilidades para com os filhos. O responsável por tal programa é um certo Wade Horn, de cuja biografia constam passagens tão aberrantes, para um membro do governo Bush, como ter participado da campanha do democrata de esquerda George McGovern contra Richard Nixon, trinta anos atrás, e ter tocado guitarra num conjunto de rock. Horn cita, em favor de sua cruzada, estatísticas como a de que três entre quatro crianças de 11 anos criadas por um só dos pais são pobres, contra uma entre cinco, entre as criadas pelos dois pais. As crianças criadas por um só dos pais – quase sempre a mãe, como nem se precisaria dizer – correm mais riscos de, elas próprias, acabar gerando filhos fora do casamento e de se envolver com o crime.

Como fazer com que os casamentos se realizem, e depois perdurem, num mundo individualista como o nosso, voltado para o culto da diversão e da fruição, e em que fatores diversos conspiram para a iniciação sexual precoce? Horn não se propõe a inventar nada de novo. O que quer é levar os instrumentos já existentes – terapia familiar e cursos pré-matrimoniais ou pré-natais – a quem não tem acesso a eles. Nos Estados Unidos, como em outros países, o Brasil inclusive, quem tem dinheiro pode recorrer a semelhantes expedientes. Quem não tem não pode. Se o programa vai dar certo, ou, até mesmo, se vai demarrar, é uma incógnita. O governo encaminhou ao Congresso um pacote de 300 milhões de dólares para implementá-lo. O Senado, por enquanto, só liberou 100. Há críticas como a do sociólogo Frank Furstenberg, da Universidade da Pensilvânia, na semana passada, no The New York Times: "A maioria dos cientistas sociais acredita que o aconselhamento ajuda e é mesmo necessário, mas não é suficiente. Se a administração Bush realmente quer promover o casamento, devia começar proporcionando ajuda financeira tangível às famílias necessitadas".

Não importa. O que nos interessa, aqui, é ressaltar a mera existência do programa. Aplausos para o governo Bush: tão caracterizado pela belicosidade, de um lado, e a deferência aos mercados e às grandes corporações, de outro, eis um nicho em que se debruça para um problema de ordinário ignorado pelos governos. E vergonha para o Brasil: se os Estados Unidos têm problemas com sua infância, que dizer do Brasil? E, no entanto, cadê iniciativas semelhantes por aqui? Cadê o debate sobre a infância na atual campanha eleitoral? O Brasil é um país intoxicado de economia. O que se discute por aqui é déficit público, juros, FMI, câmbio, risco país, responsabilidade fiscal, exportações, balanço de pagamentos... Nove em cada dez palavras pronunciadas por um candidato serão uma dessas. Números são brandidos à exaustão – de modo às vezes mentiroso, da parte do candidato, e sempre incompreensível, para o público. Teremos alcançado novo grau de maturidade quando, em torno do casamento, se derem – e não só entre os políticos – debates tão freqüentes, densos e qualificados quanto os que se dão em torno da economia.

Os temas sociais estão notavelmente ausentes da campanha eleitoral. Discute-se um pouco de educação, de saúde e de segurança pública em seus aspectos mais gerais e mais óbvios, mas... Cadê discussão entre os candidatos sobre o currículo escolar? Cadê discussão aberta sobre drogas – não sobre narcotráfico, que essa é fácil, é só dizer que é contra, mas sobre a sedução das drogas, no mundo contemporâneo, e como lidar com ela? Cadê discussão para valer – e propostas – sobre esse tema tão candente no Brasil que é a situação do negro na sociedade? Cadê, para voltar a um tema que tem a ver com a estabilidade dos casais, discussão sobre o avassalador apelo ao sexo na propaganda e nos programas de TV? Num país em que louras vampes animam programas infantis e não poucos pais acham bonito sapecar batom nas filhas de 7 anos e ensinar-lhes rebolado, ela não seria de todo descabida.

Reina a noção de que tais assuntos não cabem ao governo. Pertenceriam ao foro íntimo de cada um, ou ao foro familiar. No máximo, se encaixariam na jurisdição das ONGs. Ocorre que o ônus, no fim, é do Estado. Filhos abandonados ou malcuidados têm encontro marcado com as Febens da vida, que custam caro e são de enorme complexidade para ser administradas. Para prevenir o desastre, não será pedir demais que não só na economia, mas também nesses assuntos, se faça sentir aquilo que o candidato José Serra tem chamado de "ativismo governamental".

   
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