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Edição 1 765 - 21 de agosto de 2002
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Um Brasil sem
nuvens negras

por cima

Pesquisa do Ibope com formadores
de opinião estrangeiros mostra que
a imagem do Brasil lá fora é melhor
do que se imagina

Roseli Loturco


Veja também
A íntegra da pesquisa
"A imagem do Brasil no exterior"

Em meio à tempestade especulativa e de más intenções contra o Brasil vinda de fora, é com certo alívio que se lêem os resultados de uma pesquisa feita pelo Ibope com 592 formadores de opinião no Japão, Estados Unidos, Alemanha, Itália e Argentina. Segundo o levantamento, o Brasil de hoje é financeiramente estável, tem um parque industrial sólido e desenvolvido e uma economia robusta. Mesmo a chaga histórica da sociedade brasileira, a má distribuição de renda, é captada pela pesquisa como um problema que está sendo resolvido. "Apesar de nossas deficiências, a percepção geral que se tem do Brasil lá fora é muito positiva, o que explica o volume de investimentos que recebemos anualmente do mundo todo", diz Antônio Bornia, vice-presidente do Bradesco. Em momentos de fragilidade no mercado financeiro, com a volatilidade do dólar e a queda nas bolsas como as que o Brasil está enfrentando, essa imagem fica temporariamente abalada. "Para avaliar o país com justiça, no entanto, é preciso considerar o trabalho sólido desenvolvido nos últimos anos", diz Bornia.

A pesquisa do Ibope, realizada no mês passado, mostra com clareza que o clima adverso das últimas semanas ainda não afetou a imagem de longo prazo firmada pelo Brasil no exterior. Quando comparado aos vizinhos latino-americanos, o Brasil é o país mais lembrado espontaneamente pelos entrevistados. Nesse quesito, os americanos colocam o Brasil à frente do próprio México, país com o qual os Estados Unidos mantêm intensa atividade econômica e compartilham de uma privilegiada fronteira territorial. Embora a agricultura moderna tenha sido nos últimos anos a locomotiva da economia brasileira, é a indústria que projeta no exterior uma imagem de supremacia. Para 44% dos entrevistados, o setor industrial é a principal atividade econômica nacional. "O Brasil de hoje é referência mundial nos setores de aviação, celulose, siderurgia e alumínio", diz o empresário Jorge Gerdau Johannpeter, que preside um dos maiores grupos siderúrgicos do país e, na semana passada, ganhou destaque no ranking mundial ao se associar à canadense Co-Steel.

Se ainda se preocupa como sua biografia entrará para a história do Brasil, Fernando Henrique Cardoso pode ficar tranqüilo quanto à imagem que projeta no exterior. A pesquisa mostra que, para 39% dos entrevistados, FHC é um presidente cujo desempenho foi classificado como ótimo e bom. Quando os pesquisadores perguntaram aos entrevistados estrangeiros como eles posicionariam o Brasil entre as economias emergentes do mundo, ficou claro que a pouca expressão das exportações brasileiras no comércio mundial ajudou a moldar as opiniões. Para os entrevistados, o Brasil é um país cuja economia perde para a da Coréia do Sul, da China, do Chile e do México. "A resposta é compreensível. Mais de 60% do PIB da Coréia do Sul se origina no comércio exterior", diz Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. No Brasil, aquele indicador econômico não chega a 20% do PIB.

Embora viva uma democracia plena há pelo menos doze anos, o Brasil ainda é visto pelos estrangeiros como um país com ambiente político pouco estável. Ele aparece em quinto lugar no quesito "estabilidade política", atrás de uma ditadura comunista – a chinesa –, da Coréia do Sul, do México e do Chile. Uma das revelações mais interessantes da pesquisa contraria uma concepção disseminada no Brasil, a de que só circulam notícias ruins sobre o país lá fora. Para os entrevistados, 56% das notícias que lêem sobre o Brasil exaltam as qualidades do país e de seu povo. Um dos maiores geradores de notícias positivas sobre o Brasil são suas empresas com forte atuação nos mercados estrangeiros. É o caso da Petrobras, que na pesquisa lidera a lista das companhias brasileiras mais conhecidas dos entrevistados. Varig, Embraer, Companhia Siderúrgica Nacional, Hering e Sadia são outras líderes de exposição positiva no exterior. O Brasil fica atrás da Coréia do Sul, da China e do Chile na percepção dos estrangeiros ouvidos pela pesquisa sobre o grau de justiça social do país. Para 15% dos entrevistados, porém, mesmo sendo ainda uma sociedade de riqueza altamente concentrada, o Brasil conseguiu melhorar sua distribuição de renda. Apesar de algumas máculas, a pesquisa mostra com clareza que o Brasil real é mais atraente e firme que aquele país virtual crivado de perigos que aparece atualmente no radar do mercado financeiro internacional.

 
 




   
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