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Dez anos depois da Eco 92, há pouco para comemorar. A poluição e o uso predatório dos recursos naturais aceleraram o efeito estufa e a destruição das florestas. Mas existem formas de corrigir esses erros
Daniel Hessel Teich
O perigo da degradação ambiental causada pelo homem costuma ser representado nas campanhas ambientalistas por animais ameaçados de extinção. O simpático e desajeitado urso panda, que está desaparecendo junto com seu habitat nas montanhas da China, é um dos símbolos mais utilizados pelos ecologistas. Neste momento, há um símbolo muito mais tenebroso no ar. Trata-se da formidável nuvem de poluentes que se estende do Japão ao Afeganistão, no sentido lesteoeste, e da China à Indonésia, no sentido nortesul, abrangendo uma região da Ásia em que vive um quinto da humanidade. De tonalidade marrom e tamanho equivalente a três Brasis, essa nuvem de venenos tem 3 quilômetros de espessura e representa 1,5% da atmosfera na região. Nuvens parecidas flutuam ocasionalmente sobre os Estados Unidos e a Europa, mas nenhuma teve igual tamanho e durabilidade. A mancha foi percebida pelos satélites em órbita sete anos atrás e desde então vem sendo estudada por uma equipe de especialistas convocada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Na semana passada, anunciou-se a primeira conclusão: trata-se da mais densa e ampla concentração de poluentes já detectada. Na lista das grandes catástrofes ecológicas preparada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência, a nuvem asiática é comparada ao buraco de ozônio, o pesadelo que dominou o debate ambientalista na década passada. "O perigo é global, já que uma nuvem desse tamanho pode cruzar meio mundo em apenas uma semana", adverte o alemão Klaus Töpfer, diretor executivo do Programa de Meio Ambiente da ONU. O coquetel de partículas de carbono, sulfatos e cinzas orgânicas é resultado das emissões de gases de fábricas, usinas termelétricas e escapamentos dos automóveis. Essa é, digamos, a contribuição industrial para o fenômeno. "O crescimento econômico do sul da Ásia fez com que a poluição dobrasse nos últimos vinte anos", diz o indiano Victor Ramanathan, coordenador do estudo que desvendou os segredos da nuvem. Mas não é essa a única causa. A população pobre da região queima o que tiver à mão para cozinhar e se aquecer de madeira a estrume, passando por garrafas de plástico e embalagens. Como no Brasil, a queimada é a principal ferramenta para abrir espaço para o plantio. Por causa da alta concentração de carbono, a nuvem de poluentes chega a reter 15% da luz solar. Por falta de sol, o solo está ficando mais frio e o ar, mais abafado. O ritmo das monções, o período de chuvas no sul da Ásia, foi alterado, com efeito catastrófico para a agricultura. A safra de arroz colhida no inverno na Índia foi 10% menor que em anos anteriores. Estima-se que 500.000 pessoas morram só naquele país em decorrência de problemas respiratórios causados pelo fenômeno.
Um desastre ambiental provocado pelo encontro de duas realidades que se
entrelaçam o mundo industrializado de certas regiões
asiáticas e a pobreza abjeta de outras é pleno de
simbolismo e não podia revelar-se em momento mais apropriado. Na
próxima semana, mais de 100 chefes de Estado, à frente de
um contingente de 60.000 delegados, discutirão em Johanesburgo,
na África do Sul, a encruzilhada ambiental em que o planeta está
metido. Chamado de Rio+10, pretende dar continuidade às discussões
iniciadas na Eco 92, no Rio de Janeiro, em 1992. O balanço dos
últimos dez anos contém pouca coisa que possa sugerir que
o encontro vai melhorar significativamente a situação ambiental.
A reunião no Rio tratou sobretudo de mudanças climáticas
e biodiversidade. Os participantes concordaram com um programa ousado
de combate à deterioração da terra, do ar e da água.
Também decidiram buscar o crescimento econômico sem degradar
o meio ambiente. Apesar das juras de amor à natureza feitas naquela
época, pouca coisa saiu do papel. Dez anos transcorridos, apenas
quarenta nações adotam algum tipo de estratégia preservacionista.
O que chegou a ser feito foi apenas um arranhão numa realidade
desastrosa. Hoje, as ameaças aos recursos naturais são ainda
maiores. Florestas, peixes, água e ar limpos estão mais
escassos. Duas das mais importantes fontes de biodiversidade, os recifes
de coral e as florestas tropicais, foram tremendamente degradadas. As
emissões de carbono, o grande responsável pelas mudanças
climáticas e pelo aquecimento global, cresceram 10%. Nos Estados
Unidos, que abandonaram o Protocolo de Kioto, o tratado assinado por 178
países para controlar as emissões desse gás, o salto
foi de 18%.
Quanto ao crescimento sustentado, assunto tão debatido, a coisa parece caminhar para o fiasco. Há mais de meio século, Mahatma Gandhi, o magérrimo guru da independência indiana, dizia sobre o assunto: "Que Deus jamais permita que a Índia adote a industrialização à maneira do Ocidente. A Inglaterra precisou de metade dos recursos do planeta para alcançar tal prosperidade. De quantos planetas um país grande como a Índia iria precisar?", perguntava, perplexo, aquele que o primeiro-ministro britânico Winston Churchill chamava com menosprezo de "aquele faquir indiano". Gandhi sempre foi um homem de idéias reacionárias. Queria, em todos os campos, a manutenção do estilo de vida de seu tempo. Em certas coisas, pregava o retorno ao passado. Não aceitava sequer a supervisão médica nas doenças. Mas seu aviso, por mais exótico e retrógrado que pareça, encontra eco num cálculo do Fundo Mundial para a Natureza, a organização ambientalista mais conhecida pela sigla WWF. Usando estatísticas da ONU, ela concluiu que os 15% mais ricos da humanidade (o que inclui as minorias abastadas nos países pobres) consomem energia e recursos em nível tão alto que providenciar um estilo de vida comparável para o restante do mundo iria requerer os recursos de 2,6 planetas do tamanho da Terra. Essa estatística ajuda a entender o dilema existente entre desenvolvimento e preservação ambiental. Os anos 90 foram de imenso crescimento na economia global. Perversamente, muito dessa prosperidade teve conseqüências desastrosas para o meio ambiente. Na semana passada, como subsídio para a reunião em Johanesburgo, a ONU divulgou um relatório sobre o impacto do atual padrão de desenvolvimento na qualidade de vida e nos recursos naturais. Veja, por meio de itens selecionados do relatório, como a questão ambiental ganhou maior volume na década passada:
Num mundo em desequilíbrio, até a boa notícia embute
riscos para o futuro. O consumo de alimentos cresceu nas últimas
três décadas. Nos países em desenvolvimento, a quantidade
de calorias consumidas diariamente foi de 2.100 para 2.700. Nos ricos,
passou de 3.000 para 3.400. Isso exige maior quantidade de alimentos.
Hoje, 11% da superfície do planeta é usada para agricultura.
A Europa, os países do sul e do leste da Ásia já
usam todo o seu estoque de terras agrícolas. O norte da África
e a Ásia Ocidental são desertos impróprios para a
lavoura. Só a América Latina e a África Subsaariana
ainda têm potencial de expansão agrícola mas
novas fronteiras agrícolas significam novos avanços sobre
as florestas e sobre outras áreas intocadas. Pela presença
do homem em seu habitat, animais estão sendo extintos num ritmo
cinqüenta vezes mais rápido que o do trabalho seletivo da
evolução natural das espécies. Metade das espécies
de grandes primatas, nossos parentes mais próximos na árvore
da evolução, deve desaparecer nas próximas duas décadas,
se nada mais consistente for feito para salvá-los. Individualmente,
as agressões citadas acima seriam absorvidas pelo ecossistema global,
acostumado a desastres naturais. O problema é a orquestração.
Sem se dar conta, 6 bilhões de seres humanos se tornaram um fardo
pesado demais para o planeta.
O efeito mais terrificante por suas implicações no cotidiano das pessoas talvez seja o aquecimento global. A década de 90 foi a mais quente desde que se fizeram as primeiras medições, no fim do século XIX. Uma conseqüência notável foram o derretimento de geleiras nos pólos e o aumento de 10 centímetros no nível do mar em um século. A Terra sempre passou por ciclos naturais de aquecimento e resfriamento, da mesma forma que períodos de intensa atividade geológica lançaram à superfície quantidades colossais de gases que formavam de tempos em tempos uma espécie de bolha gasosa sobre o planeta, criando um efeito estufa natural. Ocorre que agora a atividade industrial está afetando de forma pouco natural o clima terrestre. No ano passado, cientistas de 99 países se reuniram em Xangai, na China, e concluíram que o fator humano no aquecimento é determinante. Desde 1750, nos primórdios da Revolução Industrial, a concentração atmosférica de carbono o gás que impede que o calor do Sol se dissipe nas camadas mais altas da atmosfera e se perca no espaço aumentou 31%, e mais da metade desse crescimento ocorreu de cinqüenta anos para cá. Amostras retiradas das geleiras da Antártica revelam que as concentrações atuais de carbono são as mais altas dos últimos 420.000 anos e, provavelmente, dos últimos 20 milhões de anos. Cerca de três quartos das emissões de carbono provocadas pelo homem nos últimos vinte anos vêm da queima de combustíveis fósseis, como a gasolina. O restante provém da queimada de florestas. "Não há mais dúvida de que as mudanças ambientais são causadas pelo homem. Já não são só os ambientalistas que pensam assim", diz Lester Brown, fundador do Instituto Worldwatch e diretor do Earth Police (polícia da Terra, em inglês), baseados nos Estados Unidos. De acordo com especialistas, se o efeito estufa continuar no mesmo ritmo, a temperatura da Terra pode aumentar 5,8 graus centígrados até 2100. Algumas alterações na paisagem são atribuídas claramente ao aquecimento provocado pelo homem. Na África, a montanha das neves eternas, o Kilimanjaro, perdeu 82% da cobertura de gelo desde 1912. Em vinte anos, nesse ritmo, não restará nada exceto rocha nua. Em algumas partes da África e da Ásia as secas estão ocorrendo com maior freqüência e intensidade dobrada. A quantidade de chuvas tem aumentado no Hemisfério Norte, principalmente na forma de grandes tempestades. Os meteorologistas estão divididos sobre o assunto, mas muitos acham que as piores enchentes em 100 anos, que na semana passada invadiram as ruas de muitas cidades na Alemanha e na República Checa, se encaixam perfeitamente no contexto das mudanças climáticas no continente. "Não tenho dúvida de que o efeito estufa fez aumentar as chances de maior precipitação em áreas que não estavam acostumadas a chuvas pesadas", diz o americano Gerald Meehl, cientista-chefe do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, nos Estados Unidos. Uma pressão desabusada é exercida sobre os ecossistemas de água doce, que têm sido destruídos pela poluição e pelo uso descontrolado. Sete de cada 10 litros utilizados pelo homem são destinados à agricultura, e mais da metade dela é perdida em sistemas de irrigação ineficientes. Cerca de metade desses ecossistemas já foi arruinada, e pelo menos 20% das 10.000 espécies conhecidas de organismos aquáticos já foram ou estão sob ameaça de extinção. Estima-se que 30% das maiores bacias hidrográficas perderam mais da metade de sua cobertura vegetal, reduzindo a qualidade da água e aumentando os riscos de enchente. Cerca de 40% da população do planeta vive em regiões com escassez de água potável, o que limita o desenvolvimento econômico, a agricultura e os cuidados sanitários. "Até agora nossa prodigiosa habilidade para expandir a população e aumentar o nível de consumo material ultrapassou de longe nossa habilidade para entender e responder aos problemas que estamos criando para nós mesmos", disse a VEJA Christopher Flavin, presidente do Instituto Worldwatch.
Há dez anos, embalada pela Rio 92, a Unesco, o braço cultural
da ONU, publicou o que pretendia ser o corolário do futuro: "Cada
geração deve deixar os recursos da água, do solo
e do ar tão puros e despoluídos como quando apareceram na
Terra. Cada geração deve a seus descendentes a mesma quantidade
de espécies de animais que encontrou". A realidade virou tudo isso
pelo avesso. O que se viu nos anos 90 foi um avanço descontrolado
sobre ecossistemas frágeis, que não suportam a exploração
agrícola intensiva, como as áreas de cerrados, savanas e
de vegetação semi-árida. Essas regiões correspondem
a quase 40% da superfície total do planeta, ou cerca de 190 milhões
de quilômetros quadrados, e respondem por 22% da produção
mundial de alimentos. A superexploração leva o esgotamento
do solo a seu limite, um processo conhecido como desertificação.
A FAO, o órgão da ONU para a agricultura, estima que 250
milhões de pessoas em mais de 100 países são afetadas
pelo esgotamento do solo. "Esse problema está criando um novo tipo
de migrantes, pessoas que não têm mais nada a perder e estão
dispostas a embarcar em navios de traficantes de pessoas e até
mesmo nadar oceano afora, no desespero de achar um lugar melhor para viver",
disse a VEJA o argelino Rajeb Boulharouf, diretor de relações
externas do Secretariado das Nações Unidas da Convenção
para o Combate à Desertificação (UNCCD).
Com reportagem de Natasha Madov, Alessandro Greco, Flávio Sampaio e Leonardo Coutinho, de Belém |
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