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Família de
bárbaros
Truculento
como o pai, filho de
Saddam tortura e mata assessor
que se atrasou para o trabalho

José
Eduardo Barella

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Numa foto de
1988, o ditador do Iraque aparece sentado, sorridente, rodeado pela mulher,
filhos, genros, nora e netos, numa imagem clássica de uma família
feliz. Saddam Hussein era então um importante aliado dos Estados
Unidos no mundo árabe, depois de travar uma longa e sangrenta guerra
com o Irã dos aiatolás xiitas. A bonomia da foto é
inteiramente falsa. Déspota primitivo e vingativo, Saddam mandaria
matar os genros anos depois de uma disputa por poder com Udai, 38 anos,
o filho mais velho e, dizem, o de temperamento mais parecido com o do pai.
Apesar do regime fechadíssimo e da censura, o grande assunto em Bagdá
no momento não é o quase inevitável ataque militar
dos Estados Unidos para depor Saddam, mas, sim, a última barbaridade
cometida por Udai. Irritado com um assessor que chegou atrasado a uma reunião,
o primeiro-filho simplesmente o torturou e matou. Udai obrigou o assessor
a beber 2 litros de uísque e depois ficou esperando sua morte lenta,
por intoxicação. Bem ao seu estilo: ele já baleou um
tio em uma festa de família. O tiro foi na perna. O tio sobreviveu
e, por via das dúvidas, fugiu do Iraque. Também espancou até
a morte o mordomo do pai, que, por gostar do empregado, colocou o filhão
de castigo, longe de festas ou honrarias oficiais por alguns meses.
AFP
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UDAI,
O PRIMOGÊNITO
O filho mais cruel costuma torturar pessoalmente os desafetos |
O comportamento sem limites de Udai revela muito sobre a natureza medieval
do regime iraquiano. Ele costuma torturar pessoalmente os desafetos presos
e pede que as sessões sejam gravadas em vídeo para assistir
depois. Quando bebe demais, o que não é raro, fica fora
de controle. Em Bagdá murmura-se sobre inúmeros casos de
estupro e rompantes de violência. Foi numa noitada pelas boates
da cidade que seus inimigos conseguiram acertar-lhe alguns tiros, em 1996.
Ele ficou em cadeira de rodas, mas não mudou o comportamento. Logo
depois, enquanto dirigia o Ministério dos Esportes, se viu irritado
com a má campanha da seleção nas eliminatórias
da Copa de 1998 e resolveu a seu modo: mandou prender o técnico
e torturar os jogadores.
Por sua
instabilidade emocional, até para os padrões da corte iraquiana,
Saddam escolheu como seu sucessor o filho mais novo, Qusai, de 35 anos,
também conhecido por torturar e perseguir opositores. Mas, menos
fanfarrão, raramente aparece em público. Meticuloso, possui
capacidade administrativa e é considerado esperto e cruel, embora
não tenha o carisma do ditador. Qusai acumulou cargos no aparato
de segurança e também no Partido Baath, o único legal.
Na semana passada, a oposição iraquiana no exílio
anunciou que Qusai, o mais cotado para suceder a Saddam, foi ferido levemente
num atentado a tiros ocorrido no início do mês em Bagdá.
O governo não confirmou o ataque, mas já é possível
imaginar o que vem por aí uma vingança violenta promovida
pelo herdeiro.
Renunciar
e entregar o cargo a Qusai é uma das cartas que o ditador guarda
na manga, como última artimanha para teque Qusai, o mais cotado para suceder a Saddam, foi ferido levemente
num atentado a tiros ocorrido no início do mês em Bagdá.
O governo não confirmou o ataque, mas já é possível
imaginar o que vem por aí uma vingança violenta promovida
pelo herdeiro.
Renunciar
e entregar o cargo a Qusai é uma das cartas que o ditador guarda
na manga, como última artimanha para tentar impedir uma invasão
militar americana. Dificilmente vai dar certo, visto que o presidente
americano, George W. Bush, deixou claro que uma limpeza no Iraque tem
de incluir não só o ditador, mas toda a sua família
e o esquema de terror que a sustenta. Os filhos de Saddam aprenderam em
casa as regras para dominar pelo medo e pela violência. Quando desafiado
em família, o ditador reage com violência. Os genros (e irmãos)
Hussein e Saddam Kamel, que controlavam desde o programa nuclear até
os órgãos de segurança iraquianos, foram afastados
do poder pelos filhos do ditador, Udai e Qusai. Assustados com o confronto,
os dois fugiram para o exílio na Jordânia com as mulheres
em 1995. Seis meses depois, arrependidos, voltaram ao Iraque com a promessa
de que seriam perdoados pelo sogro. Acabaram assassinados a sangue-frio,
a mando de Saddam.
Em 23 anos
de ditadura, o Iraque só não esteve em conflitos externos
por quatro anos. Guerra com os aiatolás do Irã, invasão
do Kuwait, massacres das minorias curda e xiita, pesados gastos militares
ao mesmo tempo que a maioria da população sofre de fome
são alguns dos feitos do histórico de atrocidades da família
Hussein, que conseguiu empobrecer, e muito, uma potência petrolífera.
O atentado contra Qusai indica que o ditador pode estar vulnerável
e reforça os argumentos daqueles que, dentro do governo dos Estados
Unidos, defendem um complô interno para derrubar o regime em lugar
de uma invasão armada. "Não podemos dar-nos ao luxo de não
fazer nada", disse a conselheira de Segurança Nacional da Casa
Branca, Condoleezza Rice, na quinta-feira passada. Pode ser uma solução
mais rápida e eficiente que uma invasão por terra, que traria
muitas baixas e está longe de contar com a unanimidade do Congresso
americano. Paz e serenidade no Iraque são mesmo raridades, como
a foto da família Hussein, unida e sorridente.
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