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Edição 1 765 - 21 de agosto de 2002
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Família de bárbaros

Truculento como o pai, filho de
Saddam tortura e mata assessor
que se atrasou para o trabalho

José Eduardo Barella


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Numa foto de 1988, o ditador do Iraque aparece sentado, sorridente, rodeado pela mulher, filhos, genros, nora e netos, numa imagem clássica de uma família feliz. Saddam Hussein era então um importante aliado dos Estados Unidos no mundo árabe, depois de travar uma longa e sangrenta guerra com o Irã dos aiatolás xiitas. A bonomia da foto é inteiramente falsa. Déspota primitivo e vingativo, Saddam mandaria matar os genros anos depois de uma disputa por poder com Udai, 38 anos, o filho mais velho e, dizem, o de temperamento mais parecido com o do pai. Apesar do regime fechadíssimo e da censura, o grande assunto em Bagdá no momento não é o quase inevitável ataque militar dos Estados Unidos para depor Saddam, mas, sim, a última barbaridade cometida por Udai. Irritado com um assessor que chegou atrasado a uma reunião, o primeiro-filho simplesmente o torturou e matou. Udai obrigou o assessor a beber 2 litros de uísque e depois ficou esperando sua morte lenta, por intoxicação. Bem ao seu estilo: ele já baleou um tio em uma festa de família. O tiro foi na perna. O tio sobreviveu e, por via das dúvidas, fugiu do Iraque. Também espancou até a morte o mordomo do pai, que, por gostar do empregado, colocou o filhão de castigo, longe de festas ou honrarias oficiais por alguns meses.


AFP
UDAI, O PRIMOGÊNITO
O filho mais cruel costuma torturar pessoalmente os desafetos


O comportamento sem limites de Udai revela muito sobre a natureza medieval do regime iraquiano. Ele costuma torturar pessoalmente os desafetos presos e pede que as sessões sejam gravadas em vídeo para assistir depois. Quando bebe demais, o que não é raro, fica fora de controle. Em Bagdá murmura-se sobre inúmeros casos de estupro e rompantes de violência. Foi numa noitada pelas boates da cidade que seus inimigos conseguiram acertar-lhe alguns tiros, em 1996. Ele ficou em cadeira de rodas, mas não mudou o comportamento. Logo depois, enquanto dirigia o Ministério dos Esportes, se viu irritado com a má campanha da seleção nas eliminatórias da Copa de 1998 e resolveu a seu modo: mandou prender o técnico e torturar os jogadores.

Por sua instabilidade emocional, até para os padrões da corte iraquiana, Saddam escolheu como seu sucessor o filho mais novo, Qusai, de 35 anos, também conhecido por torturar e perseguir opositores. Mas, menos fanfarrão, raramente aparece em público. Meticuloso, possui capacidade administrativa e é considerado esperto e cruel, embora não tenha o carisma do ditador. Qusai acumulou cargos no aparato de segurança e também no Partido Baath, o único legal. Na semana passada, a oposição iraquiana no exílio anunciou que Qusai, o mais cotado para suceder a Saddam, foi ferido levemente num atentado a tiros ocorrido no início do mês em Bagdá. O governo não confirmou o ataque, mas já é possível imaginar o que vem por aí – uma vingança violenta promovida pelo herdeiro.

Renunciar e entregar o cargo a Qusai é uma das cartas que o ditador guarda na manga, como última artimanha para teque Qusai, o mais cotado para suceder a Saddam, foi ferido levemente num atentado a tiros ocorrido no início do mês em Bagdá. O governo não confirmou o ataque, mas já é possível imaginar o que vem por aí – uma vingança violenta promovida pelo herdeiro.

Renunciar e entregar o cargo a Qusai é uma das cartas que o ditador guarda na manga, como última artimanha para tentar impedir uma invasão militar americana. Dificilmente vai dar certo, visto que o presidente americano, George W. Bush, deixou claro que uma limpeza no Iraque tem de incluir não só o ditador, mas toda a sua família e o esquema de terror que a sustenta. Os filhos de Saddam aprenderam em casa as regras para dominar pelo medo e pela violência. Quando desafiado em família, o ditador reage com violência. Os genros (e irmãos) Hussein e Saddam Kamel, que controlavam desde o programa nuclear até os órgãos de segurança iraquianos, foram afastados do poder pelos filhos do ditador, Udai e Qusai. Assustados com o confronto, os dois fugiram para o exílio na Jordânia com as mulheres em 1995. Seis meses depois, arrependidos, voltaram ao Iraque com a promessa de que seriam perdoados pelo sogro. Acabaram assassinados a sangue-frio, a mando de Saddam.

Em 23 anos de ditadura, o Iraque só não esteve em conflitos externos por quatro anos. Guerra com os aiatolás do Irã, invasão do Kuwait, massacres das minorias curda e xiita, pesados gastos militares ao mesmo tempo que a maioria da população sofre de fome são alguns dos feitos do histórico de atrocidades da família Hussein, que conseguiu empobrecer, e muito, uma potência petrolífera. O atentado contra Qusai indica que o ditador pode estar vulnerável e reforça os argumentos daqueles que, dentro do governo dos Estados Unidos, defendem um complô interno para derrubar o regime em lugar de uma invasão armada. "Não podemos dar-nos ao luxo de não fazer nada", disse a conselheira de Segurança Nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice, na quinta-feira passada. Pode ser uma solução mais rápida e eficiente que uma invasão por terra, que traria muitas baixas e está longe de contar com a unanimidade do Congresso americano. Paz e serenidade no Iraque são mesmo raridades, como a foto da família Hussein, unida e sorridente.

 
 
   
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