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A guerra vai começarOs preparativos
dos candidatos
João Gabriel de Lima
Na eleição presidencial mais acirrada desde 1989, o horário eleitoral gratuito será decisivo. Por causa disso, nas semanas que antecederam a estréia dos programas, os marqueteiros dos candidatos tiveram cuidado redobrado para proteger os estúdios de gravação da espionagem dos concorrentes. "Com a tecnologia de hoje, qualquer um pode roubar uma boa idéia ou elaborar um antídoto para ela em poucas horas", afirma Nelson Biondi, um dos coordenadores de marketing do tucano José Serra. É difícil antecipar com exatidão o que o horário eleitoral gratuito exibirá porque, além de as gravações já feitas estarem trancadas a sete chaves, elas poderão nem ir ao ar. A versão final de cada programa é decidida em cima da hora, dependendo de fatores como a receptividade do público, o crescimento ou a queda do candidato nas pesquisas, o grau de agressividade dos adversários e, não menos importante, o noticiário. "Se, por exemplo, o país ficar chocado por causa de um crime monstruoso, esse certamente será um pretexto para mostrar as propostas de um candidato na área de segurança", diz Duda Mendonça, publicitário de Lula. Apesar de todo o segredo que os cerca, é possível traçar as linhas gerais dos programas que serão veiculados antes do primeiro turno.
Entre os quatro principais postulantes à Presidência da República, Lula é o que está mais adiantado. Ele já tem sete programas gravados e editados. O Lula deste horário eleitoral não terá nada a ver com o das campanhas anteriores. Foram banidos o jargão de esquerda e o tom agressivo, antes explorado em closes bem fechados. A idéia agora é passar a imagem de que o candidato do PT é um estadista. No programa previsto para ser o de abertura, Lula, de terno de grife, apresenta o time dos responsáveis pela elaboração de suas propostas de governo. Depois de um discurso curto, é aplaudido por eles. Na maior parte das vezes o petista deverá aparecer sentado a uma mesa de trabalho, tendo ao fundo o cenário de um grande escritório em atividade. Cada programa abordará um assunto, e terão destaque os currículos dos especialistas chamados a falar sobre temas como segurança, habitação, emprego etc. Isso para demonstrar que Lula soube cercar-se de auxiliares competentes para elaborar o seu programa de governo. Haverá, ainda, mininovelas, que apelam mais à emoção do que à razão. Na que fala de segurança, será contada a história fictícia de Pedro e de Paulo. Pedro é um rapaz rico que ganha um carro novo de presente de aniversário. Paulo é um moço da favela que tem o crime como única alternativa de vida. Paulo assassina Pedro durante um assalto, e é morto pela polícia. Ao fundo, a voz emocionada do locutor diz: "Um é rico e outro é pobre, mas os pais de Pedro e de Paulo sentem a mesma dor". O objetivo é enfatizar que a violência atinge todos indistintamente. Para elaborar as falas de Lula, a equipe de produção o entrevista sobre cada tema da campanha. Depois, suas palavras são transformadas num texto enxuto, próprio para a televisão, por um time de redatores comandado pelo intelectual baiano Antônio Risério, amigo pessoal de Duda Mendonça. Lula dá a palavra final sobre os textos e sugere mudanças. Num programa que tratava de casas populares, o texto a ser lido pelo candidato dizia que o governo construiria o equivalente a 1,5 milhão de habitações. Lula não gostou. "Ninguém constrói equivalentes. O governo constrói casas."
O segundo colocado nas pesquisas, Ciro Gomes, só começou a gravar seus programas na quinta-feira da semana passada. Já está mais do que evidente que sua mulher, a atriz Patrícia Pillar, terá um papel importante não só na frente das câmeras. No estúdio, antes do início das primeiras gravações, o candidato da Frente Trabalhista foi orientado por Patrícia a ser natural, menos empolado. "Finja que você está num bar do Leblon, bebendo cerveja", aconselhou ela. O cenário de Ciro tenta criar uma atmosfera caseira. Ele é um misto de sala de estar com escritório doméstico, com um sofá, uma cadeira, um pé da planta decorativa conhecida como barba-de-bode e uma estante de livros ao fundo. Os volumes foram comprados pela produção do programa num sebo de São Paulo. Entre eles, há uma coleção encadernada do jornal esquerdista Movimento e didáticos de língua portuguesa escritos pelo ex-presidente da República Jânio Quadros. Irão ao ar também declarações de apoio de artistas, como o músico Carlinhos Brown e o ator Juca de Oliveira. No quesito artistas, no entanto, nenhum programa rivalizará com o de José Serra. Pesos-pesados da música brasileira de cunho mais popular, como a dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó, a forrozeira Elba Ramalho, a banda infanto-juvenil KLB e o sanfoneiro Dominguinhos, aparecerão no horário gratuito entoando o jingle tucano. "Popular" é a palavra-chave da peça publicitária elaborada pelos marqueteiros Nelson Biondi e Nizan Guanaes. Foi construída, por exemplo, uma réplica cenográfica do bar da Dona Jura, a personagem da novela O Clone que ficou conhecida pelo bordão "não é brinquedo, não". A atriz Solange Couto, que interpretou o papel, foi contratada pela equipe de Serra para ser uma das apresentadoras. O tucano terá uma participação reduzida em seu próprio programa. O motivo principal é que Serra está longe de ser um bom comunicador. Suas falas tendem a ser longas e tecnocráticas. A equipe de televisão de Serra é a mais bem equipada. O tucano é o único que irá contar com trechos gravados em película de 35 milímetros, a mesma usada nos filmes que passam no cinema. Quando produz cenas desse tipo, como fez na quarta-feira passada num parque de São Paulo, a equipe do candidato monta um verdadeiro set de filmagem. Se estivesse realizando um comercial comum, cada uma dessas externas sairia por pelo menos 80.000 reais. Em termos de estrutura, o outro extremo é ocupado por Anthony Garotinho. O candidato do PSB, que gosta de alardear que sua campanha é a mais pobre, pretende posar de oposicionista radical. Seu programa deverá enfocar exaustivamente as mazelas sociais. "Teremos cenas de crianças fumando crack e outras coisas que mostram aonde o modelo neoliberal nos levou", discursa Garotinho. "Depois, darei a solução: administrar o Brasil como eu administrei o Rio de Janeiro." A frugalidade de recursos do candidato é compensada por sua desenvoltura sob os holofotes. Garotinho praticamente se autodirige. Além disso, palpita sobre como devem ser as atuações dos companheiros de sigla que dividem o programa com ele. Clarissa Matheus, filha do candidato e estudante de comunicação, é presença constante no estúdio. O candidato quase sempre acata as suas sugestões.
Garotinho é o único que admite que fará propaganda negativa, ou seja, usará o programa para criticar seus adversários. Todos os outros candidatos e seus marqueteiros dizem que privilegiarão as propostas. É difícil de acreditar. "Embora no Brasil as pessoas tenham mais resistência a comerciais negativos, a experiência internacional mostra que, quanto mais acirrada a campanha, maior a agressividade", diz o marqueteiro americano Benjamin Kupersmit, que é ligado ao Partido Democrata de seu país e já trabalhou em eleições na Ásia e na América Latina. Nos bastidores das campanhas, é dado como certo que o programa de José Serra baterá pesado em Ciro Gomes, que concorre diretamente com ele por uma vaga no segundo turno. "Não é verdade. Nossas pesquisas qualitativas dizem que o eleitor prefere propostas a pauladas, e nós tentaremos nos manter nessa linha, a não ser que sejamos atacados", esquiva-se, sem esconder um certo tom de ameaça, o marqueteiro tucano Nelson Biondi. Do lado de Ciro, o discurso é o mesmo. Mas o conjunto de imagens já editadas pela equipe do candidato da Frente Trabalhista inclui uma seqüência a respeito da epidemia de dengue no Rio de Janeiro. Entre as cenas gravadas em hospitais públicos, há depoimentos de familiares de doentes que avacalham o governo federal do qual José Serra foi ministro da Saúde. É certo que o horário eleitoral será uma guerra. A única dúvida é sobre quem irá atirar primeiro.
Com
reportagem de
Felipe Patury
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