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Edição 1 765 - 21 de agosto de 2002
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O poder eleitoral da tevê

Mais de 50 milhões de eleitores
estão ou indecisos ou dispostos
a mudar de candidato

Felipe Patury e Sandra Brasil

 
Antonio Milena

Este é o estúdio de 88 metros quadrados que Luís Inácio Lula da Silva usa em seus programas eleitorais. Todas as falas do candidato são registradas em película de 16 milímetros e cerca de 100 pessoas trabalham na produção


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De acordo com as últimas pesquisas, dos 115 milhões de eleitores, 13 milhões não sabem em quem votar para presidente. Outros 44 milhões já escolheram um nome, mas aceitam mudar de idéia. Ou seja, pelo menos metade do eleitorado brasileiro vai decidir-se sob a influência do horário eleitoral gratuito, que começa nesta terça-feira. Durante os próximos 45 dias, dia sim, dia não, as pessoas vão assistir a Lula, Ciro, Serra e Garotinho apresentando propostas, trocando acusações e pedindo votos. Os quatro vão aparecer em rede nacional tanto na hora do almoço quanto na hora do jantar, além da série de inserções comerciais a que têm direito espalhadas ao longo da programação das emissoras (confira quadro explicativo). A grande dúvida entre os marqueteiros e cientistas políticos é a seguinte: a televisão terá força suficiente para modificar o atual mapa das intenções de voto para a eleição presidencial?

Na semana passada, VEJA fez um levantamento inédito para tentar aferir o efeito do horário eleitoral gratuito sobre o eleitor. Para isso, foram analisadas as três últimas eleições presidenciais, as três últimas eleições estaduais realizadas em dez Estados e as duas últimas eleições municipais ocorridas nas dez capitais mais populosas. Ao todo, foram estudadas 53 disputas. Nesses pleitos, cotejaram-se dois números: os dados referentes à última pesquisa eleitoral publicada nos jornais antes do horário eleitoral gratuito e o resultado obtido nas urnas em primeiro turno. A comparação desses dois números afere, ainda que de forma apenas indicativa, o grau de interferência da TV sobre as candidaturas. Observaram-se dois cenários. Num deles, as pesquisas antes do horário eleitoral indicavam que um candidato tinha pontuação suficiente para ganhar em primeiro turno, ou seja, reunia mais de 50% das intenções de voto. O levantamento de VEJA mostra que as urnas confirmaram o resultado da pesquisa em 85% dos casos. Portanto, a TV pouco alterou o quadro.

 
Liane Neves
Claudio Versiani
O ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta ao lado do padrinho, Paulo Maluf: fenômeno. À direita, Ulysses Guimarães, que perdeu apesar do maior tempo na TV

No outro cenário eleitoral, que é o atual, o grau de interferência da televisão mostrou-se mais perceptível. Foram analisadas as eleições que, conforme a última pesquisa antes do horário eleitoral, apontavam para a ocorrência de segundo turno. De acordo com os números mais recentes, os institutos sugerem que, se a eleição fosse hoje, Lula e Ciro se enfrentariam no segundo turno. O levantamento de VEJA mostra que as urnas confirmaram a última pesquisa antes do horário eleitoral em 62% dos casos, mas em 38% das vezes deu-se uma virada importante. Um terceiro candidato ultrapassou um dos dois nomes que estavam na dianteira e disputou o segundo turno contra o outro. Essa é a situação que Serra e Garotinho querem ver repetida neste ano. A investigação desses casos mostra que o feito só foi possível por causa do horário eleitoral.

Há uma característica predominante nos candidatos que conseguiram virar o jogo. Em geral, eles são pessoas pouco conhecidas do grande público por sua carreira como políticos. E eles só se tornaram conhecidos graças à TV. Nenhuma outra forma de campanha atinge tantos eleitores tão rapidamente quanto a do horário gratuito na TV. Em 1996, o PFL lançou para a prefeitura do Rio de Janeiro um completo desconhecido, o arquiteto Luiz Paulo Conde, que trabalhava como secretário de Urbanismo do então prefeito, Cesar Maia. Conde aparecia em quarto lugar na lista da preferência do eleitor, com 4% das intenções de voto. O primeiro colocado era o deputado estadual Sérgio Cabral, que tinha 26%. Em segundo lugar, com 21%, estava o deputado federal Miro Teixeira, do PDT. Iniciado o programa na televisão, Conde começou a crescer nas pesquisas e ganhou 36 pontos durante a propaganda eleitoral. Assumiu a liderança, tirou Miro da disputa e venceu o segundo turno. No programa eleitoral, os marqueteiros do PFL chamaram a atenção para a participação de Conde na prefeitura, responsável oculto por alguns dos projetos mais populares da gestão de Cesar Maia.


Jefferson Rudy

Perillo, governador de Goiás: seu programa insistiu diariamente nas denúncias e seu oponente foi derrotado


E você já ouviu falar de um tal Marconi Perillo? Até outro dia, nem mesmo os goianos sabiam muito bem de quem se tratava. Pois, graças à televisão, esse cidadão foi responsável por uma virada eleitoral histórica. Em 1998, então deputado federal do PSDB, Marconi Perillo decidiu candidatar-se ao governo de Goiás. Seu opositor era Iris Rezende, um dos nomes mais populares da política goiana. Para se ter uma idéia do currículo, Rezende havia sido vereador, prefeito, deputado, senador, ministro e três vezes governador do Estado. Com 70% das intenções de voto, a vitória de Iris no primeiro turno era dada como certa. A diferença entre os dois era tão grande que Perillo, com apenas 5%, foi abandonado pelos tucanos. Seu truque? Seus marqueteiros repetiram diariamente uma mesma acusação contra o adversário. Como a acusação era sólida e o que se descobriu incomodava a opinião pública, Perillo começou a subir nas pesquisas. Seus programas tornaram-se um clássico da marquetagem. A equipe de produção descobriu que Iris Rezende se acostumou a acomodar parentes com cargos nas passagens que teve pela administração pública . E esse ponto fraco transformou-se numa propaganda engraçadíssima estrelada pelo humorista Pedro Bismarck, o Nerso da Capitinga. Apenas na reta final, quando Perillo já estava em alta, é que recebeu apoios importantes, como o dos ministros José Serra e Paulo Renato.

A receita de um bom programa passa por uma arma fundamental: tempo. Dos dois candidatos a presidente que estão tentando a virada, Garotinho dispõe de dois minutos por dia. Serra tem cinco vezes mais. O tempo do tucano é maior que a soma dos tempos de Ciro e Lula juntos. A experiência mostra que um candidato mais visto tende a ser mais lembrado. Além disso, mais tempo permite uma estratégia de campanha mais complexa. O candidato pode dedicar uma parte do programa para falar de suas realizações e outra para atacar o adversário, por exemplo. Também nesse caso, situações extraordinárias ensinam lições importantes sobre as campanhas políticas. Os marqueteiros que cuidam da campanha de José Serra conhecem de cor a história de Ulysses Guimarães. Em 1989, ele lutou bravamente para conseguir o apoio de seu partido para lançar-se na disputa presidencial. Formou uma ampla aliança de partidos e teve o maior tempo na televisão, 22 minutos. Porém empacou na casa dos 5% das intenções de voto e acabou em sétimo lugar. Para muitos estudiosos, pesou o fato de ele não ter carisma.


Helvio Romero/AE

José Serra, na Bolsa de Valores de São Paulo, na semana passada: padrinho político influente e bom tempo na TV


E artista na TV, ajuda? Ajuda, mas não decide. De acordo com as pesquisas feitas sobre o assunto, artistas são ótimos para chamar a atenção, mas o eleitor tem clareza de que não são eles que vão governar. Apoio que decide é de político respeitado e popular. Nesse caso, Serra, que é apoiado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, está melhor que Garotinho, que não é apoiado por ninguém. Quando um político popular aparece nos programas de TV, direta ou indiretamente, apoiando o candidato, ele puxa votos e pode patrocinar viradas significativas. Em 1990, Fernando Collor era um presidente tão popular que seu apoio eleitoral foi decisivo em alguns Estados. Em Minas Gerais, Collor lançou ao governo o jornalista Hélio Costa. Na última pesquisa antes do horário eleitoral, Costa tinha 11% das intenções de voto. Sua biografia profissional e a proximidade com o presidente foram exploradas na TV, e o resultado foi espantoso. Costa tomou o segundo lugar de Pimenta da Veiga, um nomão da política mineira, e chegou ao segundo turno.

Um importante combustível do horário eleitoral para fazer decolar uma candidatura é a denúncia contra o adversário. Nos próximos dias, os eleitores vão acompanhar as primeiras batalhas acusatórias. O embate mais esperado envolve Ciro Gomes e José Serra. O jogo de acusações já foi testado no primeiro debate entre os presidenciáveis, quando Ciro foi chamado por Serra de mentiroso e destemperado. O curioso, nesse caso, é que Ciro tem dado uma boa ajuda aos adversários. Ele, de fato, foi pego em algumas mentirolas e tem-se envolvido em diversas polêmicas. A última delas aconteceu na terça-feira da semana passada, durante um jantar organizado na casa do empresário Ricardo Steinbruch, do grupo Vicunha. A idéia do anfitrião era apresentar Ciro a uma platéia de grandes empresários e banqueiros, entre eles Joseph Safra. O candidato foi simpático nas três primeiras horas, mas uma discussão de menos de três minutos fez com que saísse do encontro com a imagem arranhada. A certa altura, Steinbruch convidou os presentes a fazer perguntas a Ciro. O humor do candidato mudou depois que Carlos Tilkian, dos brinquedos Estrela, questionou sua intenção de aumentar o salário mínimo para 100 dólares.

 
Antonio Milena
Pio Figueiroa/Valor
Ciro Gomes, que foi rude com o banqueiro José Olympio Pereira (à dir.) durante um jantar com empresários: os tucanos estão colecionando munição para o programa eleitoral


– Esse problema não é exatamente assim. Você fica pouco competitivo – disse o empresário, segundo o relato de quatro dos presentes.

– Isso é um absurdo. Diga um setor onde isso acontece – desafiou Ciro.

– No meu, que compete com a China, onde os salários são de 50 dólares.

– Nesse caso, é diferente. Tem de se proteger a indústria com barreiras comerciais, não com salário baixo – encerrou Ciro.

A reunião voltou ao normal até que um financista quis saber de Ciro o que poderia fazer para acalmar o mercado financeiro, pergunta algumas vezes repetida durante o encontro. Número 1 no Brasil da Salomon Smith Barney, um dos mais tradicionais bancos americanos, o executivo José Olympio Pereira interveio. O diálogo também foi recuperado com a ajuda de quatro dos presentes:

– Deixa eu ajudar a formular. É de seu interesse chegar ao governo numa situação de relativa estabilidade que lhe dê opções de governar. O que é necessário fazer para transmitir tranqüilidade ao mercado?

– O que tenho a oferecer ao mercado é o meu passado. Fui ministro da Fazenda, governador, prefeito. Tenho um site que é ciro23.com.br, onde está meu plano de governo. Vou fazer o que está lá. Nunca dei calote, resgatei toda a dívida do Estado e mantive um superávit fiscal.

– Olha, Ciro, embora seu passado seja respeitável e muito relevante, eu não acredito que seja suficiente para acalmar o mercado – retrucou Pereira.

– Então, quais são suas sugestões? – perguntou ao executivo a mulher de Ciro, a atriz Patrícia Pillar.

– Deixe claro que não vai haver renegociação unilateral da dívida, que não vai dar calote...

– Eu já falei dez vezes e o mercado não quer ouvir. Sendo assim, a gente elege outro, porque eu não estou disposto a vender a alma para ser presidente, e, neste caso, eu estou me lixando para o mercado.

A reação de Ciro constrangeu os empresários, que ficaram em silêncio. Steinbruch suspendeu o debate e ofereceu a sobremesa. Pereira, que foi apresentado a Ciro naquele dia, procurou o candidato para se explicar. Disse que sua intenção era colaborar, não ofender. Ciro respondeu, comparando-se ao candidato do PT:

– Não vou fazer igual ao Lula, que mandou uma carta para os banqueiros. Eu corto meu braço antes de assinar uma carta dessas – disse, apontando com a mão esquerda o lugar no ombro direito em que faria a amputação.

No dia seguinte, quando começaram a surgir as primeiras reações negativas após o encontro, o ex-governador Tasso Jereissati deixou Fortaleza rumo a São Paulo para encontrar-se com Ciro Gomes. Conversaram a sós e depois se encontraram com duas pessoas influentes do mundo dos negócios. Uma é Carlos Alberto Sicupira, sócio da GP Investimentos, das Lojas Americanas e da AmBev, a quarta maior cervejaria do mundo. A outra é o economista José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton, um dos brasileiros mais respeitados no exterior. O objetivo de Tasso é tentar convencê-los a apoiar Ciro e usá-los, entre outras coisas, na árdua tarefa de reconstruir a imagem do candidato no meio empresarial nacional e internacional. Os marqueteiros tucanos prometem explorar também o episódio do "lixando" – exaustivamente.

 

Com reportagem de Camila Antunes

 
 
   
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