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O
peso de
segurar o leme
O presidente convida os candidatos
para uma conversa, na tentativa
de evitar que a economia desande
José Cruz/Ag. Brasil
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Antonio Milena
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Antonio Milena
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Armando Favaro/AE  |
Gildo Lima/A Tarde/AE
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PARA
EVITAR O CAOS
O presidente e os candidatos
Serra, Ciro, Garotinho e
Lula: uma conversa que
interessa a todos e ao país
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Veja também |
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O
presidente Fernando Henrique Cardoso cumprirá nesta semana uma
agenda inédita na vida política brasileira. Na segunda-feira,
em horários distintos, receberá os quatro presidenciáveis
para uma conversa no Palácio do Planalto. Fernando Henrique pretende
colocá-los a par dos detalhes do último acordo celebrado
pelo governo com o Fundo Monetário Internacional e mostrar-lhes
a exata e robusta dimensão da crise que o país
atravessa. É o primeiro passo rumo à troca de guarda na
Presidência. "Neste momento, o que acontece é que o leme
vai mudar de mãos", justificou o presidente. "Vou pedir às
mãos que eventualmente venham a sustentá-lo que comecem
a sentir a responsabilidade, o peso de ter nas mãos o leme do país."
Com essa atitude, o presidente inaugura um ritual democrático até
agora inexistente na prática republicana. Nunca, desde o fim do
Império, em 1889, um presidente reuniu seus eventuais sucessores,
incluindo os de oposição, para uma conversa no palácio
em pleno desenrolar de uma campanha eleitoral. Além de inédito,
é um sinal de civilidade política.
O convite presidencial surgiu de uma emergência. No Palácio
do Planalto, acreditava-se que o acordo com o FMI, pelo qual o Brasil
terá direito a 30 bilhões de dólares, dos quais 6
bilhões sacáveis neste governo, injetaria uma dose de calmante
na veia do mercado financeiro. Como o mercado continuou nervoso, dando
sinais de insegurança diante do possível resultado da eleição
presidencial, FHC decidiu chamar os candidatos para uma conversa. A princípio,
houve reações de desconfiança. Luís Inácio
Lula da Silva, do PT, disse que não queria dividir o ônus
da crise com o presidente. Ciro Gomes, do PPS, tentou reafirmar sua imagem
de independência garantindo que não pretende ser "domesticado"
pelos mercados. Anthony Garotinho, do PSB, mandou dizer que não
faria o papel de mero avalista do acordo com o FMI. Até o candidato
oficial, o tucano José Serra, reclamou, julgando que o encontro
do presidente com seus concorrentes lhe retirava a condição
de apresentar-se como o mais capaz de administrar o país na crise.
Afinal, todos concordaram com a reunião e por razões
elementares. O sucesso financeiro do Brasil interessa a todos.
Para o presidente, é fundamental que o país não se
esfarinhe até a eleição ou até a posse do
sucessor. Cioso de sua biografia e da imagem que deixará para a
história, Fernando Henrique está fazendo o possível
para não encerrar seu mandato de forma melancólica. Quer,
sobretudo, evitar o desmantelamento da economia, alvo permanente e sistemático
de sua atenção durante os dois mandatos que cumpriu na Presidência.
Para os candidatos, considerando que todos tenham esperanças reais
de vir a assumir o comando do país, também não interessa
pegar o leme num ambiente de crise ainda mais aguda. É esse interesse
mútuo e coletivo, envolvendo o presidente e os candidatos, que
deverá permear as conversas desta segunda-feira, ainda que ninguém
venha a dizê-lo publicamente. Todos estarão ali empenhados
em evitar o caos, embora a responsabilidade caiba ao presidente. Por fim,
como o esfarinhamento também não interessa a nenhum brasileiro,
seja trabalhador ou empresário, seja dona-de-casa ou desempregado,
o país inteiro, penhorado, agradece pelo bom desfecho do encontro.
Agradece e torce.
Um dos objetivos do presidente é mostrar aos candidatos que suas
declarações durante a campanha eleitoral, esse momento tão
propício aos arroubos retóricos e às tiradas demagógicas,
podem ter efeitos devastadores sobre a economia. O mercado vem reagindo
a pronunciamentos fortes ou dúbios de forma altamente sensível.
É compreensível que seja assim. Afinal, o tucano José
Serra, que ganhou a notória preferência dessa entidade chamada
"mercado", continua em terceiro lugar nas pesquisas, mesmo com uma tendência
de recuperação nos últimos dias. Os dois candidatos
mais competitivos, Lula e Ciro, preocupam os investidores. Lula gera desconfiança
pelo que não diz, por uma certa propensão a deixar as coisas
vagas e ambíguas, dando a impressão de que pode estar maquinando
alguma surpresa caso seja eleito. E Ciro, por sua vez, preocupa exatamente
pelo que diz. Na semana passada, em encontro com três dezenas de
empresários em São Paulo, ao ser questionado por não
transmitir calma ao mercado, o candidato fez questão de afirmar
que estava se "lixando para o mercado".
Além
da esfera econômica, o encontro do presidente com os candidatos
tem forte simbolismo num país como o Brasil. As transições
de poder têm sido complicadas desde o nascimento da República,
em 1889, a começar pelo primeiro presidente, o marechal Deodoro
da Fonseca, que renunciou ao cargo dois anos depois, diante da primeira
dificuldade que enfrentou. Em 113 anos de República, o Brasil teve
28 presidentes e tumultos para todos os gostos. Só no século
passado, houve suicídio (Getúlio Vargas, em 1954), afastamento
(Café Filho, em 1955), renúncia (Jânio Quadros, em
1961), deposição (João Goulart, em 1964) e ditadura
militar (1964-1985). Quando o país voltou à democracia,
as transições foram menos traumáticas, mas permeadas
pela falta de educação e espírito público.
Em 1985, João Figueiredo saiu do Palácio do Planalto pela
porta dos fundos para não passar a faixa ao sucessor, José
Sarney, a quem devotava um ódio terminal. O próprio Sarney
deu posse a um presidente, Fernando Collor, que o chamava de "batedor
de carteira da história". Sarney deixou a Presidência sob
um suspiro de alívio da opinião pública.
Na
década passada, Fernando Collor foi apeado do poder pelo primeiro
impeachment dos trópicos e abandonou o Palácio do Planalto
sob vaias, com os olhos postos na linha do horizonte, numa antológica
atitude de simulada solenidade. Agora, o encontro de Fernando Henrique
com os presidenciáveis representa um contraste agudo com esse passado
recente. Qualquer eleitor tem o direito de não gostar do governo
Fernando Henrique, mesmo porque seus dois mandatos não foram suficientes
para atingir metas essenciais. A principal era dotar o país de
estabilidade econômica sólida, duradoura, mas nem isso aconteceu,
como demonstra a crise atual. A economia brasileira evoluiu para um rumo
decepci
atitude de simulada solenidade. Agora, o encontro de Fernando Henrique
com os presidenciáveis representa um contraste agudo com esse passado
recente. Qualquer eleitor tem o direito de não gostar do governo
Fernando Henrique, mesmo porque seus dois mandatos não foram suficientes
para atingir metas essenciais. A principal era dotar o país de
estabilidade econômica sólida, duradoura, mas nem isso aconteceu,
como demonstra a crise atual. A economia brasileira evoluiu para um rumo
decepcionante durante o governo Fernando Henrique. Chega-se ao fim de
seus dois períodos presidenciais num clima de frustração
e, pior, de pânico financeiro. O Brasil parece mais injusto. O futuro,
mais incerto. Este governo termina no pólo oposto ao de seu início.
Começou com a euforia do Plano Real. Está terminando com
boatos a respeito de calote no ano que vem.
É
justo, por outro lado, que os brasileiros reconheçam no presidente
sua visão generosa do país, sua capacidade de conviver com
contrários, sua percepção dos ritmos da história
e seu respeito àquilo que José Sarney definia como a liturgia
do cargo presidencial. Talvez apenas o ex-presidente Juscelino Kubitschek
tenha revelado empenho democrático tão visível. Por
todas essas credenciais, testemunhadas pelos brasileiros durante os dois
mandatos, FHC parece estranhamente normal no seu papel de pacificador
de ânimos num momento tão conturbado do ponto de vista financeiro
e político. Num país em que as tentativas de "pactos" e
"entendimentos nacionais" são uma constante, o governo José
Sarney levou essa prática ao paroxismo, seja pelas inúmeras
vezes em que tentou selar acordos com diversas nomenclaturas, seja pelos
rotundos fracassos que colheu, apesar de seu empenho positivo em tirar
o Brasil da beira do abismo. Durante o governo FHC, as marcas positivas
de temperamento e currículo do presidente nunca deixaram de se
manifestar no exercício do cargo, mas poucas vezes pareceram tão
necessárias a alguém que está no leme.
AE
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João Ramid
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DEPOSTO
PELO GOLPE MILITAR
João Goulart, o Jango, apeado do poder pelos militares no golpe de
1964: exílio no Uruguai |
OS
PACTOS FRUSTRADOS
Sarney, que tentou selar vários pactos, mas não fez
nenhum: alvo de ofensas de seu sucessor |
Orlando Brito
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Tude Munhoz
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DESPEDIDA
SOB
VAIAS
Fernando
Collor, ao lado da mulher, ao deixar o Palácio do Planalto:
simulação de ar
solene
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PELA
PORTA DOS FUNDOS
João
Figueiredo, o último general da ditadura militar: sem passar a faixa
presidencial ao sucessor |
AJB
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O
HOMEM DA RENÚNCIA
O
ex-presidente Jânio Quadros, que assumiu e renunciou em 1961
e jogou o país na rota do golpe |
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