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Edição 1 765 - 21 de agosto de 2002
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O peso de segurar o leme

O presidente convida os candidatos
para uma conversa, na tentativa
de evitar que a economia desande

 
José Cruz/Ag. Brasil
Antonio Milena
Antonio Milena
Armando Favaro/AE
Gildo Lima/A Tarde/AE

PARA EVITAR O CAOS
O presidente e os candidatos
Serra, Ciro, Garotinho e
Lula: uma conversa que
interessa a todos e ao país



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O poder eleitoral da tevê
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Na internet
Especial Eleições 2002
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Enquete: Você acha que FHC fez bem em convidar os candidatos à Presidência para uma reunião?

O presidente Fernando Henrique Cardoso cumprirá nesta semana uma agenda inédita na vida política brasileira. Na segunda-feira, em horários distintos, receberá os quatro presidenciáveis para uma conversa no Palácio do Planalto. Fernando Henrique pretende colocá-los a par dos detalhes do último acordo celebrado pelo governo com o Fundo Monetário Internacional e mostrar-lhes a exata – e robusta – dimensão da crise que o país atravessa. É o primeiro passo rumo à troca de guarda na Presidência. "Neste momento, o que acontece é que o leme vai mudar de mãos", justificou o presidente. "Vou pedir às mãos que eventualmente venham a sustentá-lo que comecem a sentir a responsabilidade, o peso de ter nas mãos o leme do país." Com essa atitude, o presidente inaugura um ritual democrático até agora inexistente na prática republicana. Nunca, desde o fim do Império, em 1889, um presidente reuniu seus eventuais sucessores, incluindo os de oposição, para uma conversa no palácio em pleno desenrolar de uma campanha eleitoral. Além de inédito, é um sinal de civilidade política.

O convite presidencial surgiu de uma emergência. No Palácio do Planalto, acreditava-se que o acordo com o FMI, pelo qual o Brasil terá direito a 30 bilhões de dólares, dos quais 6 bilhões sacáveis neste governo, injetaria uma dose de calmante na veia do mercado financeiro. Como o mercado continuou nervoso, dando sinais de insegurança diante do possível resultado da eleição presidencial, FHC decidiu chamar os candidatos para uma conversa. A princípio, houve reações de desconfiança. Luís Inácio Lula da Silva, do PT, disse que não queria dividir o ônus da crise com o presidente. Ciro Gomes, do PPS, tentou reafirmar sua imagem de independência garantindo que não pretende ser "domesticado" pelos mercados. Anthony Garotinho, do PSB, mandou dizer que não faria o papel de mero avalista do acordo com o FMI. Até o candidato oficial, o tucano José Serra, reclamou, julgando que o encontro do presidente com seus concorrentes lhe retirava a condição de apresentar-se como o mais capaz de administrar o país na crise. Afinal, todos concordaram com a reunião – e por razões elementares. O sucesso financeiro do Brasil interessa a todos.

Para o presidente, é fundamental que o país não se esfarinhe até a eleição ou até a posse do sucessor. Cioso de sua biografia e da imagem que deixará para a história, Fernando Henrique está fazendo o possível para não encerrar seu mandato de forma melancólica. Quer, sobretudo, evitar o desmantelamento da economia, alvo permanente e sistemático de sua atenção durante os dois mandatos que cumpriu na Presidência. Para os candidatos, considerando que todos tenham esperanças reais de vir a assumir o comando do país, também não interessa pegar o leme num ambiente de crise ainda mais aguda. É esse interesse mútuo e coletivo, envolvendo o presidente e os candidatos, que deverá permear as conversas desta segunda-feira, ainda que ninguém venha a dizê-lo publicamente. Todos estarão ali empenhados em evitar o caos, embora a responsabilidade caiba ao presidente. Por fim, como o esfarinhamento também não interessa a nenhum brasileiro, seja trabalhador ou empresário, seja dona-de-casa ou desempregado, o país inteiro, penhorado, agradece pelo bom desfecho do encontro. Agradece e torce.

Um dos objetivos do presidente é mostrar aos candidatos que suas declarações durante a campanha eleitoral, esse momento tão propício aos arroubos retóricos e às tiradas demagógicas, podem ter efeitos devastadores sobre a economia. O mercado vem reagindo a pronunciamentos fortes ou dúbios de forma altamente sensível. É compreensível que seja assim. Afinal, o tucano José Serra, que ganhou a notória preferência dessa entidade chamada "mercado", continua em terceiro lugar nas pesquisas, mesmo com uma tendência de recuperação nos últimos dias. Os dois candidatos mais competitivos, Lula e Ciro, preocupam os investidores. Lula gera desconfiança pelo que não diz, por uma certa propensão a deixar as coisas vagas e ambíguas, dando a impressão de que pode estar maquinando alguma surpresa caso seja eleito. E Ciro, por sua vez, preocupa exatamente pelo que diz. Na semana passada, em encontro com três dezenas de empresários em São Paulo, ao ser questionado por não transmitir calma ao mercado, o candidato fez questão de afirmar que estava se "lixando para o mercado".

Além da esfera econômica, o encontro do presidente com os candidatos tem forte simbolismo num país como o Brasil. As transições de poder têm sido complicadas desde o nascimento da República, em 1889, a começar pelo primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca, que renunciou ao cargo dois anos depois, diante da primeira dificuldade que enfrentou. Em 113 anos de República, o Brasil teve 28 presidentes – e tumultos para todos os gostos. Só no século passado, houve suicídio (Getúlio Vargas, em 1954), afastamento (Café Filho, em 1955), renúncia (Jânio Quadros, em 1961), deposição (João Goulart, em 1964) e ditadura militar (1964-1985). Quando o país voltou à democracia, as transições foram menos traumáticas, mas permeadas pela falta de educação e espírito público. Em 1985, João Figueiredo saiu do Palácio do Planalto pela porta dos fundos para não passar a faixa ao sucessor, José Sarney, a quem devotava um ódio terminal. O próprio Sarney deu posse a um presidente, Fernando Collor, que o chamava de "batedor de carteira da história". Sarney deixou a Presidência sob um suspiro de alívio da opinião pública.

Na década passada, Fernando Collor foi apeado do poder pelo primeiro impeachment dos trópicos e abandonou o Palácio do Planalto sob vaias, com os olhos postos na linha do horizonte, numa antológica atitude de simulada solenidade. Agora, o encontro de Fernando Henrique com os presidenciáveis representa um contraste agudo com esse passado recente. Qualquer eleitor tem o direito de não gostar do governo Fernando Henrique, mesmo porque seus dois mandatos não foram suficientes para atingir metas essenciais. A principal era dotar o país de estabilidade econômica sólida, duradoura, mas nem isso aconteceu, como demonstra a crise atual. A economia brasileira evoluiu para um rumo decepci atitude de simulada solenidade. Agora, o encontro de Fernando Henrique com os presidenciáveis representa um contraste agudo com esse passado recente. Qualquer eleitor tem o direito de não gostar do governo Fernando Henrique, mesmo porque seus dois mandatos não foram suficientes para atingir metas essenciais. A principal era dotar o país de estabilidade econômica sólida, duradoura, mas nem isso aconteceu, como demonstra a crise atual. A economia brasileira evoluiu para um rumo decepcionante durante o governo Fernando Henrique. Chega-se ao fim de seus dois períodos presidenciais num clima de frustração e, pior, de pânico financeiro. O Brasil parece mais injusto. O futuro, mais incerto. Este governo termina no pólo oposto ao de seu início. Começou com a euforia do Plano Real. Está terminando com boatos a respeito de calote no ano que vem.

É justo, por outro lado, que os brasileiros reconheçam no presidente sua visão generosa do país, sua capacidade de conviver com contrários, sua percepção dos ritmos da história e seu respeito àquilo que José Sarney definia como a liturgia do cargo presidencial. Talvez apenas o ex-presidente Juscelino Kubitschek tenha revelado empenho democrático tão visível. Por todas essas credenciais, testemunhadas pelos brasileiros durante os dois mandatos, FHC parece estranhamente normal no seu papel de pacificador de ânimos num momento tão conturbado do ponto de vista financeiro e político. Num país em que as tentativas de "pactos" e "entendimentos nacionais" são uma constante, o governo José Sarney levou essa prática ao paroxismo, seja pelas inúmeras vezes em que tentou selar acordos com diversas nomenclaturas, seja pelos rotundos fracassos que colheu, apesar de seu empenho positivo em tirar o Brasil da beira do abismo. Durante o governo FHC, as marcas positivas de temperamento e currículo do presidente nunca deixaram de se manifestar no exercício do cargo, mas poucas vezes pareceram tão necessárias a alguém que está no leme.

 
AE
João Ramid
DEPOSTO PELO GOLPE MILITAR
João Goulart, o Jango, apeado do poder pelos militares no golpe de 1964: exílio no Uruguai
OS PACTOS FRUSTRADOS Sarney, que tentou selar vários pactos, mas não fez nenhum: alvo de ofensas de seu sucessor

Orlando Brito
Tude Munhoz

DESPEDIDA SOB VAIAS
Fernando Collor, ao lado da mulher, ao deixar o Palácio do Planalto: simulação de ar solene

PELA PORTA DOS FUNDOS
João Figueiredo, o último general da ditadura militar: sem passar a faixa presidencial ao sucessor


AJB
O HOMEM DA RENÚNCIA
O ex-presidente Jânio Quadros, que assumiu e renunciou em 1961 e jogou o país na rota do golpe

 
 
   
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