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Edição 1 765 - 21 de agosto de 2002
Diogo Mainardi

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Estudar para quê?

"Lula foi mais clarividente do que
eu. Larguei
os estudos no 2º ano
da universidade,
enquanto ele só
concluiu o curso primário"

Lula aderiu ao positivismo. Foi o que ele confessou numa entrevista recente. Cito-o: "Estou numa campanha positivista". O Brasil já teve vários governos de inspiração positivista, todos eles malogrados, do Estado Novo de Getúlio Vargas à ditadura militar de 1964. O maior positivista brasileiro foi Benjamin Constant. Teve um papel de primeiro plano na Proclamação da República e se tornou ministro da Instrução Pública do novo regime. Sua principal realização foi uma reforma educacional que pretendia universalizar o ensino secundário no país. Ele acreditava que o estudo era o único caminho para o progresso da humanidade. Ou seja, exatamente o contrário do que representa Lula. Quando alguém o acusa de ter estudado pouco, Lula sempre responde que outros ilustres brasileiros também não estudaram. Concordo com ele. Escola não serve para nada. A importância do ensino para o avanço social é uma mistificação que deve ser combatida. Eu nunca gostei de estudar. Entre um estudante pernóstico como Benjamin Constant e um estudante relapso como Lula, prefiro Lula. Ele foi muito mais clarividente do que eu. Larguei os estudos no 2º ano da universidade, enquanto ele só concluiu o curso primário. Conta com toda a minha admiração e todo o meu apoio. A única coisa que não entendo é como esse seu saudável menosprezo pela educação pode se conciliar com o positivismo.

Muita gente compara Ciro Gomes a Fernando Collor de Mello. É uma injustiça. Eu diria que Ciro Gomes é mais parecido com Rosane Collor. Nos últimos 100 anos, a família de Rosane Collor dominou a política de Canapi, no sertão de Alagoas, mais ou menos como a família de Ciro Gomes dominou a de Sobral, no sertão do Ceará. Seu bisavô, seu avô, seu pai e seu irmão foram prefeitos da cidade, sem contar todos os outros parentes que se alternaram no cargo. Se eleito, Ciro Gomes poderá usar a experiência de sua família para transformar o Brasil numa imensa Sobral. É uma perspectiva bastante animadora. Depois de um século de governo da família Gomes, Sobral pode dispor de 0,85 leito hospitalar para cada 1.000 habitantes e 79% dos chefes de família apresentam rendimentos mensais de até dois salários mínimos. Em compensação, a cidade tem uma rica vida cultural, com um cinema para 150.000 habitantes, e eventos prestigiosos como o lançamento do livro Ciro Gomes por Excelência e o espetáculo de Cláudio Zoli para comemorar o Dia dos Namorados, no Largo das Dores.

Para suprir a falta de carisma, José Serra tenta projetar uma imagem de seriedade e competência. Nisso ele tem sido ajudado pelos articuladores de sua campanha, que, nos últimos dias, conseguiram angariar o apoio de gente de alto gabarito intelectual, como Gugu Liberato, Dona Jura e Glória Perez. Segundo o site do candidato, o publicitário Nizan Guanaes prometeu que "ainda vai tirar outras surpresas de seu baú de dragão da criatividade". Ninguém segura Serra.

Anthony Garotinho afirmou que, antes de agir, sempre pensa no que Cristo faria em seu lugar. Em certos casos, Cristo fazia milagres. Não sei se Garotinho possui os mesmos poderes milagrosos de Cristo. Se possui, eu gostaria que ele ressuscitasse Machado de Assis. O único problema é que, sendo muito reacionário, Machado de Assis logo se filiaria ao PFL. É o retrato do Brasil, no passado, no presente e no futuro: maus políticos e maus eleitores.

 
 
   
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