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"Hoje levo vantagem nas brigas porque as pessoas se intimidam com a minha idade. Quem bate em velho de 83 anos é covarde. Quem apanha de um senhor como eu é frouxo" |
Aos 83 anos, o empresário paulista Mario Amato é até hoje associado a uma frase de cunho eleitoral que se tornou histórica, proferida durante a campanha presidencial de 1989. Com a autoridade de quem ocupava na ocasião o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mario Amato afirmou que 800.000 empresários deixariam o Brasil caso Luís Inácio Lula da Silva vencesse as eleições. Treze anos mais tarde, e três eleições presidenciais depois, Amato diz que não se arrependeu do que disse e continua a falar mal de Lula. Mas não é só dele. Nesta entrevista a VEJA, concedida em seu escritório, em São Paulo, Amato fala mal das mulheres, dos homossexuais, da nudez. Criticou até o funk e a própria virilidade. Casado há 54 anos, com três filhos e oito netos, o empresário, que lutou boxe, ainda alimenta um velho hábito da juventude: dar socos num saco de areia que tem em casa. "Do jeito que me envolvo em confusão, preciso conseguir me defender", diz.
Veja Nas eleições presidenciais de 1989, o
senhor disse que se Lula ganhasse 800.000 empresários já
estavam de malas prontas para sair do Brasil. Arrependeu-se?
Amato
Não me arrependi. A situação era aquela mesmo. Eu
era presidente da Fiesp e ouvia o tititi do empresariado. O dinheiro é
covarde, ele foge ao menor sinal de turbulência. Escutei muita gente
dizendo que um grande motivo para a derrota de Lula tinha sido aquela
frase. Então por que ele não conseguiu ganhar as outras
eleições que disputou? Eu nunca mais repeti aquilo, e mesmo
assim ele não virou presidente. O Mario Amato não é
o culpado.
Veja Por que não compareceu ao encontro que a Fiesp
promoveu recentemente com Lula?
Amato
Não queria causar constrangimento. Ele podia lembrar em público
o que falei no passado, me desafiar. Lula avançou muito nestes
anos. Acho até engraçado como ele anda escovadinho. Essa
nova estampa é uma fantasia de Lula. O legítimo eu vi num
churrasco no interior de São Paulo há muitos anos. De bermuda,
comendo churrasco na maior pureza. Podem me chamar de preconceituoso,
o que eu não sou, mas acho que para ser presidente uma pessoa deve
ter estudo e experiência. Para ser pedreiro ou empresário,
não. Com um bom código genético para os negócios
e trabalho duro você transforma uma quitanda num supermercado. Ou
olha para a frente e fareja que no futuro próximo a cortiça
será ultrapassada pelo plástico, como eu fiz 45 anos atrás.
Agora, a Presidência da República é outra coisa. É
a maior e mais complexa empresa do Brasil.
Veja Hoje o senhor repetiria o que disse em 1989?
Amato
Hoje a situação é pior porque o dinheiro sai do país
num estalo. Você dá uma ordem aqui e em dez segundos uma
fortuna já está na França ou na Suíça.
Então o risco de acontecer aquilo que eu previ em 1989 é
muito maior. E a coisa não é só em relação
a Lula. O perigo de o dinheiro ir embora do Brasil é real se vencer
qualquer um dos candidatos de oposição ao governo. Tenho
sérios temores de que isso aconteça. O mundo capitalista
é perverso. Ninguém está se importando se vai deixar
gente desempregada ao mandar dinheiro para fora do país. Há
uma obsessão pela estabilidade, e se os empresários olharem
para o cenário político e ficarem inseguros vão embora
para uma ilha paradisíaca. Em um país onde tem vulcão
todo mundo foge dele. As empresas nunca foram tão individualistas
como agora.
Veja Como?
Amato
As grandes empresas estão sendo cada vez mais tocadas por jovens
com visão desenfreada para o posicionamento pessoal e para a ganância
financeira. São frios nas relações de trabalho. Só
conseguem olhar para o lado técnico e para os lucros. É
um perfil diferente do antigo. Nos tempos em que eu tinha milhares de
empregados, a coisa era meio escrava. O funcionário não
tinha horário e, se trabalhava noite adentro, não ganhava
hora extra. Mas eu pensava no bem-estar deles. Dava um sopão, pagava
o jantar. Estamos agora é na era do robô. Os novos líderes
dos tempos modernos só pensam em custo/benefício. Por isso
não estão muito preocupados em gastar tempo com a Fiesp.
Não há mais lá a união que tínhamos
antes, aquele prestígio, o que eu acho uma pena. É claro
que aparecem exceções positivas entre os jovens empresários.
Outro dia vi uma menina de 25 anos dando uma palestra brilhante e me enchi
de esperança. Reunia qualidades raras: era competente, inteligente
e bonita.
Veja Com o poder que a Fiesp lhe dava, o senhor era muito
assediado pelas mulheres?
Amato
Era, sim, mas sempre soube me comportar. Não dá para ficar
deslumbrado. É engraçado como poder atrai mulher. Nunca
fui bonito, mas era poderoso. Outro dia perguntei a um amigo que ficou
viúvo como andavam as coisas com as mulheres. Ele respondeu: "Não
tenho poder nem dinheiro, então as mulheres desapareceram". Quando
perdi o poder da Fiesp, deixei de ser assediado. É como jogador
de futebol. Quando pára de jogar, o mulherio vai embora. Adoro
as mulheres e sou casado com a minha, a Rogéria, há 54 anos.
Só lamento não ter mais a virilidade que tinha com 20 e
poucos anos.
Veja Por que disse à ex-ministra Dorothéa Werneck
que ela era inteligente, apesar de ser mulher?
Amato
Aquilo foi brincadeira. Admiro mesmo as mulheres. Tanto que dei meu voto
a Marta Suplicy nas últimas eleições à prefeitura
de São Paulo. Nem me importei com o fato de ser do PT, porque isso
para mim não tem problema nenhum. Costumo dizer que há duas
categorias de homem: os dominados pelas mulheres e os mentirosos. Eu me
enquadro nos dois casos. De vez em quando me dizem que sou machista. Isso
eu não sou. Sempre empreguei mulheres em meus negócios,
com bons resultados. Mas precisamos admitir: elas são diferentes
dos homens. Não têm a mesma capacidade física para
agüentar o trabalho. Têm as regras e aqueles calores... a menopausa.
Aí faltam ao serviço três dias, dez dias. O homem
é um cavalo, tem outra força física. Eu, como patrão,
sempre tratei as mulheres com mais delicadeza, senão elas choram.
O homem, não. Ele grita, berra. São duas civilizações
diferentes.
Veja O senhor já se meteu em confusão com o
Lula, com a Dorothéa, com o ex-presidente José Sarney. Gosta
de brigar?
Amato
O Sarney me comparou a um anarquista russo, Mikhail Bakunin, porque estava
reclamando do governo dele. Fui para casa e peguei uns livros para conhecer
o personagem. Fiquei magoado, porque não sou terrorista, e lancei
uma vodca com esse nome para dar o troco. Comigo sempre foi assim. Sou
boquirroto, e por isso brigo com todo mundo. Tenho pavio curto, ascendência
italiana, mas depois me arrependo, pois acho que é uma tremenda
falta de civilidade. Por isso não me candidato a nada na política.
Não sirvo, porque não tenho flexibilidade.
Veja Já teve muitos confrontos físicos?
Amato
Na juventude fiz luta livre e boxe. Fiz porque sei que sou voluntarioso
e preciso enfrentar muitos problemas na bofetada. Há uns vinte
anos não dou soco em ninguém, mas ainda bato duas vezes
por semana num saco de areia que tem lá em casa. Descarrega a tensão
e me dá confiança para brigar e me meter nas confusões
quando é preciso. Levo vantagem hoje porque as pessoas se intimidam
com a minha idade. Quem bate em velho de 83 anos é covarde. Quem
apanha de um velho dessa idade é frouxo. Já saí muitas
vezes de casa com a intenção de estapear uma pessoa, mas
atualmente estou mais civilizado. Uma coisa deve ser dita: sempre tratei
bem meus empregados. Acho que em relações de trabalho cabe
agradar, paparicar, dar presente. O que atrapalha hoje empresários
como eu é essa legislação trabalhista.
Veja Por quê?
Amato
Tudo
o que você dá hoje a um trabalhador por benevolência
tem um caráter formal. Antes você presenteava um empregado
com um carro e ele ficava agradecido. Atualmente ele diz: o patrão
me deu porque eu precisava para o trabalho, então isso também
é parte de meu ordenado. Quando vai embora da empresa, acaba te
processando, e o salário proporcional àquele carro entra
na conta. Sempre vou para a Justiça e pago tudo, porque sei que
não adianta discutir. Dei um carro ao meu chofer e sei que no dia
em que ele nos deixar vai fazer suas reivindicações. Essa
legislação limita a bondade, o humanismo.
Veja O senhor acha que o governo trata melhor as multinacionais
que as empresas brasileiras?
Amato
O governo gosta das empresas estrangeiras porque elas sonegam menos impostos
que as brasileiras e não dá para prescindir delas. Essas
empresas trazem emprego e tecnologia, e nós damos o lucro. Se o
Brasil vai bem, reaplicam o dinheiro. Mas, se o país vai mal e
não dá segurança aos investidores, eles vão
embora com o lucro na mão. Por isso o governo beija a mão
desses empresários estrangeiros, para que venham e fiquem. Mas
não acho que o governo trate melhor a eles do que a nós,
empresários brasileiros. O que existe é uma competição
comercial que às vezes fica mais acirrada e coloca em campos distintos
os dois grupos. A gente finge que briga, que tem rivalidade, mas no fundo
temos os mesmos propósitos. Estamos afinados.
Veja O governo devia ajudar mais os empresários?
Amato
Se o governo fizer bem a sua parte, pode deixar o desenvolvimento com
os empresários. Precisamos de ajuda para ter empregados com mais
educação no mercado, porque o nível ainda é
muito ruim. Basta o governo passar a dar uma assistência social
compatível com o que arrecada em impostos para formar gente para
a indústria, o comércio e a agricultura. Isso já
seria um salto e tanto. E tem também a questão da segurança
pública, que contribui para aumentar o ambiente de pessimismo que
paira sobre o Brasil. Eu vivo inseguro.
Veja O senhor anda com carro blindado?
Amato
Não quis blindar meu carro porque teria de fazer blindagem na frota
da família toda, que são 28 pessoas. Por que eu vou ter
mais segurança e eles não? Aí coloquei os gastos
no papel e cheguei à conclusão de que sairia caro demais.
Sessenta mil reais cada carro! Não posso gastar assim. Fico espantado
porque as pessoas pensam que, por ser rico, eu não faço
conta.
Veja Não acumulou dinheiro suficiente para nunca mais
fazer conta?
Amato
Sou bem remediado financeiramente. Não sei mais como funcionam
essas definições de classe social. Diziam que milionário
era quem tinha 1 milhão de reais, mas hoje 1 milhão de reais
não é mais nada. O melhor de ter muito dinheiro é
não precisar alimentar ciúme do outro que tem mais que você.
Tenho poucas extravagâncias. Antes passava fins de semana em Buenos
Aires, porque adoro a Argentina, o tango e comer pizza com churrasco com
a colônia italiana que tem lá, mas não tenho ido.
Quando viajo de avião, preciso ir de primeira classe, porque se
alguém me vê na econômica vai dizer: 'O Amato tá
na m...'. Quando a gente chega a um certo patamar se sente obrigado a
ter um padrão de vida condizente com o que as pessoas esperam de
você.
Veja O senhor é um saudosista?
Amato
Sou. Não consigo entender nem me adaptar a essas coisas de nome
esquisito, tipo funk. Rock não gosto de nenhum. Acho um horror
essa mania de mulher nua em tudo que é lugar. Antigamente, quando
a gente via o joelho de uma mulher, aquilo funcionava como uma motivação
erótica. Lembro de uma moça muito bonita, a Zilá,
que quando descia do bonde mostrava o joelho, e eu aproveitava o momento
o máximo que podia. Hoje, com tanta mulher nua, o homem está
perdendo o estímulo. É por isso que os homens estão
impotentes. O que eles podem fazer? O pudor da mulher era um negócio
que funcionava. Agora já tem até exposição
de homem nu, e homossexualismo virou currículo.
Veja O senhor acha estranho?
Amato
Não vou desprezar um homem como humano só porque é
homossexual. Digo que, se em minha família não tem um homossexual
nem um viciado em drogas, já sou um felizardo. Nos meus tempos,
tudo era muito mais escondido. Mas sei que só envelheço
bem porque assimilo o mundo lá fora. E me trato, claro. Faço
ginástica todo dia em casa. Ando sempre perfumado, limpo, lavado
e escovado. Levo dez minutos escovando os dentes, e na minha idade não
preciso usar dentadura. Olha que beleza. Só tenho raiva porque
ainda não me deu o estalo.
Veja Que estalo?
Amato
No colégio, li uma história do padre Antônio Vieira,
que sofria muito porque não conseguia compreender o mundo. Um dia
ele estava rezando e sentiu um estalo na cabeça. Depois desse dia
conta que se fez a luz, e ele entendeu tudo. Isso ainda não aconteceu
comigo. Tenho um monte de deficiências e coisas que não sei.
Devia falar inglês, francês e italiano, mas não falo.
Até hoje uso muito o dicionário para saber se uma palavra
é com z ou com s. Conheço as
minhas limitações. Desconto no que sei, que é ser
empresário, transformar uma birosca de nada num negócio
de sucesso.
Veja O senhor pensa em se aposentar?
Amato
De jeito nenhum. Qualquer que venha a ser o novo presidente do Brasil,
não tenho planos de ir para casa dormir. De mais a mais, quero
continuar a dar meus palpites.
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