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Edição 1 765 - 21 de agosto de 2002
Entrevista: Mario Amato

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O senhor
polêmica

Antes, ele só falava mal de Lula.
Agora, o empresário critica as
mulheres,
os homossexuais,
a nudez e a própria virilidade

Monica Weinberg

 
Claudio Rossi

"Hoje levo vantagem nas brigas porque as pessoas se intimidam com a minha idade. Quem bate em velho de 83 anos é covarde. Quem apanha de um senhor como eu é frouxo"

Aos 83 anos, o empresário paulista Mario Amato é até hoje associado a uma frase de cunho eleitoral que se tornou histórica, proferida durante a campanha presidencial de 1989. Com a autoridade de quem ocupava na ocasião o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mario Amato afirmou que 800.000 empresários deixariam o Brasil caso Luís Inácio Lula da Silva vencesse as eleições. Treze anos mais tarde, e três eleições presidenciais depois, Amato diz que não se arrependeu do que disse – e continua a falar mal de Lula. Mas não é só dele. Nesta entrevista a VEJA, concedida em seu escritório, em São Paulo, Amato fala mal das mulheres, dos homossexuais, da nudez. Criticou até o funk e a própria virilidade. Casado há 54 anos, com três filhos e oito netos, o empresário, que lutou boxe, ainda alimenta um velho hábito da juventude: dar socos num saco de areia que tem em casa. "Do jeito que me envolvo em confusão, preciso conseguir me defender", diz.

Veja – Nas eleições presidenciais de 1989, o senhor disse que se Lula ganhasse 800.000 empresários já estavam de malas prontas para sair do Brasil. Arrependeu-se?
Amato – Não me arrependi. A situação era aquela mesmo. Eu era presidente da Fiesp e ouvia o tititi do empresariado. O dinheiro é covarde, ele foge ao menor sinal de turbulência. Escutei muita gente dizendo que um grande motivo para a derrota de Lula tinha sido aquela frase. Então por que ele não conseguiu ganhar as outras eleições que disputou? Eu nunca mais repeti aquilo, e mesmo assim ele não virou presidente. O Mario Amato não é o culpado.

Veja – Por que não compareceu ao encontro que a Fiesp promoveu recentemente com Lula?
Amato – Não queria causar constrangimento. Ele podia lembrar em público o que falei no passado, me desafiar. Lula avançou muito nestes anos. Acho até engraçado como ele anda escovadinho. Essa nova estampa é uma fantasia de Lula. O legítimo eu vi num churrasco no interior de São Paulo há muitos anos. De bermuda, comendo churrasco na maior pureza. Podem me chamar de preconceituoso, o que eu não sou, mas acho que para ser presidente uma pessoa deve ter estudo e experiência. Para ser pedreiro ou empresário, não. Com um bom código genético para os negócios e trabalho duro você transforma uma quitanda num supermercado. Ou olha para a frente e fareja que no futuro próximo a cortiça será ultrapassada pelo plástico, como eu fiz 45 anos atrás. Agora, a Presidência da República é outra coisa. É a maior e mais complexa empresa do Brasil.

Veja – Hoje o senhor repetiria o que disse em 1989?
Amato – Hoje a situação é pior porque o dinheiro sai do país num estalo. Você dá uma ordem aqui e em dez segundos uma fortuna já está na França ou na Suíça. Então o risco de acontecer aquilo que eu previ em 1989 é muito maior. E a coisa não é só em relação a Lula. O perigo de o dinheiro ir embora do Brasil é real se vencer qualquer um dos candidatos de oposição ao governo. Tenho sérios temores de que isso aconteça. O mundo capitalista é perverso. Ninguém está se importando se vai deixar gente desempregada ao mandar dinheiro para fora do país. Há uma obsessão pela estabilidade, e se os empresários olharem para o cenário político e ficarem inseguros vão embora para uma ilha paradisíaca. Em um país onde tem vulcão todo mundo foge dele. As empresas nunca foram tão individualistas como agora.

Veja – Como?
Amato – As grandes empresas estão sendo cada vez mais tocadas por jovens com visão desenfreada para o posicionamento pessoal e para a ganância financeira. São frios nas relações de trabalho. Só conseguem olhar para o lado técnico e para os lucros. É um perfil diferente do antigo. Nos tempos em que eu tinha milhares de empregados, a coisa era meio escrava. O funcionário não tinha horário e, se trabalhava noite adentro, não ganhava hora extra. Mas eu pensava no bem-estar deles. Dava um sopão, pagava o jantar. Estamos agora é na era do robô. Os novos líderes dos tempos modernos só pensam em custo/benefício. Por isso não estão muito preocupados em gastar tempo com a Fiesp. Não há mais lá a união que tínhamos antes, aquele prestígio, o que eu acho uma pena. É claro que aparecem exceções positivas entre os jovens empresários. Outro dia vi uma menina de 25 anos dando uma palestra brilhante e me enchi de esperança. Reunia qualidades raras: era competente, inteligente e bonita.

Veja – Com o poder que a Fiesp lhe dava, o senhor era muito assediado pelas mulheres?
Amato –
Era, sim, mas sempre soube me comportar. Não dá para ficar deslumbrado. É engraçado como poder atrai mulher. Nunca fui bonito, mas era poderoso. Outro dia perguntei a um amigo que ficou viúvo como andavam as coisas com as mulheres. Ele respondeu: "Não tenho poder nem dinheiro, então as mulheres desapareceram". Quando perdi o poder da Fiesp, deixei de ser assediado. É como jogador de futebol. Quando pára de jogar, o mulherio vai embora. Adoro as mulheres e sou casado com a minha, a Rogéria, há 54 anos. Só lamento não ter mais a virilidade que tinha com 20 e poucos anos.

Veja – Por que disse à ex-ministra Dorothéa Werneck que ela era inteligente, apesar de ser mulher?
Amato – Aquilo foi brincadeira. Admiro mesmo as mulheres. Tanto que dei meu voto a Marta Suplicy nas últimas eleições à prefeitura de São Paulo. Nem me importei com o fato de ser do PT, porque isso para mim não tem problema nenhum. Costumo dizer que há duas categorias de homem: os dominados pelas mulheres e os mentirosos. Eu me enquadro nos dois casos. De vez em quando me dizem que sou machista. Isso eu não sou. Sempre empreguei mulheres em meus negócios, com bons resultados. Mas precisamos admitir: elas são diferentes dos homens. Não têm a mesma capacidade física para agüentar o trabalho. Têm as regras e aqueles calores... a menopausa. Aí faltam ao serviço três dias, dez dias. O homem é um cavalo, tem outra força física. Eu, como patrão, sempre tratei as mulheres com mais delicadeza, senão elas choram. O homem, não. Ele grita, berra. São duas civilizações diferentes.

Veja – O senhor já se meteu em confusão com o Lula, com a Dorothéa, com o ex-presidente José Sarney. Gosta de brigar?
Amato – O Sarney me comparou a um anarquista russo, Mikhail Bakunin, porque estava reclamando do governo dele. Fui para casa e peguei uns livros para conhecer o personagem. Fiquei magoado, porque não sou terrorista, e lancei uma vodca com esse nome para dar o troco. Comigo sempre foi assim. Sou boquirroto, e por isso brigo com todo mundo. Tenho pavio curto, ascendência italiana, mas depois me arrependo, pois acho que é uma tremenda falta de civilidade. Por isso não me candidato a nada na política. Não sirvo, porque não tenho flexibilidade.

Veja – Já teve muitos confrontos físicos?
Amato – Na juventude fiz luta livre e boxe. Fiz porque sei que sou voluntarioso e preciso enfrentar muitos problemas na bofetada. Há uns vinte anos não dou soco em ninguém, mas ainda bato duas vezes por semana num saco de areia que tem lá em casa. Descarrega a tensão e me dá confiança para brigar e me meter nas confusões quando é preciso. Levo vantagem hoje porque as pessoas se intimidam com a minha idade. Quem bate em velho de 83 anos é covarde. Quem apanha de um velho dessa idade é frouxo. Já saí muitas vezes de casa com a intenção de estapear uma pessoa, mas atualmente estou mais civilizado. Uma coisa deve ser dita: sempre tratei bem meus empregados. Acho que em relações de trabalho cabe agradar, paparicar, dar presente. O que atrapalha hoje empresários como eu é essa legislação trabalhista.

Veja – Por quê?
Amato – Tudo o que você dá hoje a um trabalhador por benevolência tem um caráter formal. Antes você presenteava um empregado com um carro e ele ficava agradecido. Atualmente ele diz: o patrão me deu porque eu precisava para o trabalho, então isso também é parte de meu ordenado. Quando vai embora da empresa, acaba te processando, e o salário proporcional àquele carro entra na conta. Sempre vou para a Justiça e pago tudo, porque sei que não adianta discutir. Dei um carro ao meu chofer e sei que no dia em que ele nos deixar vai fazer suas reivindicações. Essa legislação limita a bondade, o humanismo.

Veja – O senhor acha que o governo trata melhor as multinacionais que as empresas brasileiras?
Amato – O governo gosta das empresas estrangeiras porque elas sonegam menos impostos que as brasileiras e não dá para prescindir delas. Essas empresas trazem emprego e tecnologia, e nós damos o lucro. Se o Brasil vai bem, reaplicam o dinheiro. Mas, se o país vai mal e não dá segurança aos investidores, eles vão embora com o lucro na mão. Por isso o governo beija a mão desses empresários estrangeiros, para que venham e fiquem. Mas não acho que o governo trate melhor a eles do que a nós, empresários brasileiros. O que existe é uma competição comercial que às vezes fica mais acirrada e coloca em campos distintos os dois grupos. A gente finge que briga, que tem rivalidade, mas no fundo temos os mesmos propósitos. Estamos afinados.

Veja – O governo devia ajudar mais os empresários?
Amato – Se o governo fizer bem a sua parte, pode deixar o desenvolvimento com os empresários. Precisamos de ajuda para ter empregados com mais educação no mercado, porque o nível ainda é muito ruim. Basta o governo passar a dar uma assistência social compatível com o que arrecada em impostos para formar gente para a indústria, o comércio e a agricultura. Isso já seria um salto e tanto. E tem também a questão da segurança pública, que contribui para aumentar o ambiente de pessimismo que paira sobre o Brasil. Eu vivo inseguro.

Veja – O senhor anda com carro blindado?
Amato – Não quis blindar meu carro porque teria de fazer blindagem na frota da família toda, que são 28 pessoas. Por que eu vou ter mais segurança e eles não? Aí coloquei os gastos no papel e cheguei à conclusão de que sairia caro demais. Sessenta mil reais cada carro! Não posso gastar assim. Fico espantado porque as pessoas pensam que, por ser rico, eu não faço conta.

Veja – Não acumulou dinheiro suficiente para nunca mais fazer conta?
Amato – Sou bem remediado financeiramente. Não sei mais como funcionam essas definições de classe social. Diziam que milionário era quem tinha 1 milhão de reais, mas hoje 1 milhão de reais não é mais nada. O melhor de ter muito dinheiro é não precisar alimentar ciúme do outro que tem mais que você. Tenho poucas extravagâncias. Antes passava fins de semana em Buenos Aires, porque adoro a Argentina, o tango e comer pizza com churrasco com a colônia italiana que tem lá, mas não tenho ido. Quando viajo de avião, preciso ir de primeira classe, porque se alguém me vê na econômica vai dizer: 'O Amato tá na m...'. Quando a gente chega a um certo patamar se sente obrigado a ter um padrão de vida condizente com o que as pessoas esperam de você.

Veja – O senhor é um saudosista?
Amato – Sou. Não consigo entender nem me adaptar a essas coisas de nome esquisito, tipo funk. Rock não gosto de nenhum. Acho um horror essa mania de mulher nua em tudo que é lugar. Antigamente, quando a gente via o joelho de uma mulher, aquilo funcionava como uma motivação erótica. Lembro de uma moça muito bonita, a Zilá, que quando descia do bonde mostrava o joelho, e eu aproveitava o momento o máximo que podia. Hoje, com tanta mulher nua, o homem está perdendo o estímulo. É por isso que os homens estão impotentes. O que eles podem fazer? O pudor da mulher era um negócio que funcionava. Agora já tem até exposição de homem nu, e homossexualismo virou currículo.

Veja – O senhor acha estranho?
Amato – Não vou desprezar um homem como humano só porque é homossexual. Digo que, se em minha família não tem um homossexual nem um viciado em drogas, já sou um felizardo. Nos meus tempos, tudo era muito mais escondido. Mas sei que só envelheço bem porque assimilo o mundo lá fora. E me trato, claro. Faço ginástica todo dia em casa. Ando sempre perfumado, limpo, lavado e escovado. Levo dez minutos escovando os dentes, e na minha idade não preciso usar dentadura. Olha que beleza. Só tenho raiva porque ainda não me deu o estalo.

Veja – Que estalo?
Amato – No colégio, li uma história do padre Antônio Vieira, que sofria muito porque não conseguia compreender o mundo. Um dia ele estava rezando e sentiu um estalo na cabeça. Depois desse dia conta que se fez a luz, e ele entendeu tudo. Isso ainda não aconteceu comigo. Tenho um monte de deficiências e coisas que não sei. Devia falar inglês, francês e italiano, mas não falo. Até hoje uso muito o dicionário para saber se uma palavra é com z ou com s. Conheço as minhas limitações. Desconto no que sei, que é ser empresário, transformar uma birosca de nada num negócio de sucesso.

Veja – O senhor pensa em se aposentar?
Amato – De jeito nenhum. Qualquer que venha a ser o novo presidente do Brasil, não tenho planos de ir para casa dormir. De mais a mais, quero continuar a dar meus palpites.

 
 
   
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