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Edição 1 765 - 21 de agosto de 2002
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Sérgio Abranches

A hora da verdade

"O mês de setembro será decisivo para
a persuasão do eleitorado a respeito dos
temas e da qualificação de cada candidato,
sua
capacidade presumível de governar
e levar o país
a dias melhores"


Ilustração Ale Setti


Começa agora a etapa mais importante da corrida presidencial. A evidência de outras eleições aqui, nos Estados Unidos e na Europa é que as últimas seis semanas são decisivas. Aqui, esse período coincide com a entrada do programa eleitoral no ar. O "auge" se dá nas quatro últimas semanas. É uma campanha com características que dificilmente se repetirão no futuro. A "pré-campanha" foi a mais longa de todas, com dois dos candidatos que estarão na cédula presidencial dados como certos desde 1999 e presentes nas pesquisas: Lula e Ciro Gomes. Quando Roseana Sarney subiu nas pesquisas, o PSDB ficou nervoso e antecipou o lançamento de José Serra.

Os programas partidários criaram ondas de popularidade, umas mais efêmeras que outras, para todos os pré-candidatos. Três deles se mostraram competitivos: Lula, Ciro e Serra. Iniciada oficialmente em 6 de julho, a campanha entrou na fase de mobilização do eleitorado, com não menos inusitada exposição dos candidatos mais importantes, com debate na TV, uma fieira de entrevistas e muita visita aos Estados. Ao contrário do que se diz, minha aposta é que esse foco mais intenso nos candidatos, por parte da mídia independente, em vez de esvaziar a campanha na TV, aumentou sua importância para a escolha eleitoral.

Estudo recente sobre a eleição de Tony Blair, em 1997, confirmou vários outros, em diversos países, mostrando que as campanhas, depois da TV, têm uma seqüência relativamente padrão nessa "fase curta": começam mobilizando o interesse dos cidadãos, quando predomina a mídia independente (entrevistas, noticiário, debates) com alguma propaganda partidária ou de candidatos. Os cidadãos são informados de que as eleições estão próximas, quem são os candidatos, quais as principais questões na agenda político-econômica. Tudo no esforço de estimulá-los a votar. Muito importante onde o voto é facultativo e alta a propensão à alienação eleitoral. A segunda fase é de afirmação do perfil político-administrativo dos candidatos e de fixação da agenda de temas centrais da campanha. Uma etapa muito interativa, na qual interagem a mídia independente – a maior força de formação de opinião sobre a agenda –, as pesquisas de opinião pública e a ação e propaganda dos candidatos. Estamos no início desse processo. Hoje, ainda há mais mobilização que discussão de agenda e muito pouca definição dos perfis dos candidatos, todos ainda muito embaçados.

As duas primeiras semanas da campanha na TV servirão, provavelmente, para apresentar os candidatos com um perfil mais nítido e firmar uma agenda temática para o debate que se seguirá. O mês de setembro será o do movimento decisivo: de persuasão do eleitorado a respeito dos temas e da qualificação de cada candidato, sua capacidade presumível de governar e levar o país a dias melhores. Eleição é momento de renovação de esperanças, ninguém pode fazer uma campanha em tom puramente negativista e catastrófico. É hora de promessas. Quando é competitiva e parelha, como esta promete ser, pode ser a hora da verdade dos candidatos. Os cidadãos precisam de mais informação sobre o desempenho do governo e as qualidades dos candidatos para fazer sua escolha. Hoje, 50% dos eleitores estão indecisos e 20% dos que têm candidato confessam que ainda podem mudar de opinião até o dia da eleição. Na campanha de 1997 na Inglaterra, para falar de uma sociedade com nível de educação e informação muito maior, 50% dos eleitores tomaram sua decisão ou mudaram a direção de seu voto durante a fase final da campanha.

A probabilidade de mudanças entre nós é grande. Não há tendências cristalizadas de voto ainda. O único candidato com eleitorado fiel – e insuficiente para elegê-lo – é Lula. Nenhum dos três candidatos mais competitivos usou até agora todos os recursos de persuasão na campanha. Ciro Gomes e José Serra ainda não são sequer adequadamente reconhecidos por uma parcela considerável do eleitorado. O ambiente econômico em deterioração aumentou a incerteza e a insegurança do eleitor que está atemorizado pela crise e cheio de dúvidas sobre o futuro. Sua agenda de preocupações encurtou, a atenção para os atributos políticos e pessoais dos candidatos ficou muito mais aguçada. Ele vai informar-se sobre isso ao longo das próximas semanas, na TV institucional e na mídia independente. Ele estará mais, e não menos, interessado na campanha. Para os candidatos isso abre uma temporada de riscos e oportunidades. Está chegando, literalmente, a hora da verdade.


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)



 
 
   
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