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Sérgio
Abranches
A
hora da verdade
"O
mês de setembro será decisivo
para
a
persuasão
do eleitorado a respeito dos
temas e da qualificação de cada candidato,
sua capacidade
presumível de
governar
e levar o país
a dias melhores"
Ilustração Ale Setti
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Começa agora a etapa mais importante da corrida presidencial. A
evidência de outras eleições aqui, nos Estados Unidos
e na Europa é que as últimas seis semanas são decisivas.
Aqui, esse período coincide com a entrada do programa eleitoral
no ar. O "auge" se dá nas quatro últimas semanas. É
uma campanha com características que dificilmente se repetirão
no futuro. A "pré-campanha" foi a mais longa de todas, com dois
dos candidatos que estarão na cédula presidencial dados
como certos desde 1999 e presentes nas pesquisas: Lula e Ciro Gomes. Quando
Roseana Sarney subiu nas pesquisas, o PSDB ficou nervoso e antecipou o
lançamento de José Serra.
Os programas partidários criaram ondas de popularidade, umas mais
efêmeras que outras, para todos os pré-candidatos. Três
deles se mostraram competitivos: Lula, Ciro e Serra. Iniciada oficialmente
em 6 de julho, a campanha entrou na fase de mobilização
do eleitorado, com não menos inusitada exposição
dos candidatos mais importantes, com debate na TV, uma fieira de entrevistas
e muita visita aos Estados. Ao contrário do que se diz, minha aposta
é que esse foco mais intenso nos candidatos, por parte da mídia
independente, em vez de esvaziar a campanha na TV, aumentou sua importância
para a escolha eleitoral.
Estudo recente sobre a eleição de Tony Blair, em 1997, confirmou
vários outros, em diversos países, mostrando que as campanhas,
depois da TV, têm uma seqüência relativamente padrão
nessa "fase curta": começam mobilizando o interesse dos cidadãos,
quando predomina a mídia independente (entrevistas, noticiário,
debates) com alguma propaganda partidária ou de candidatos. Os
cidadãos são informados de que as eleições
estão próximas, quem são os candidatos, quais as
principais questões na agenda político-econômica.
Tudo no esforço de estimulá-los a votar. Muito importante
onde o voto é facultativo e alta a propensão à alienação
eleitoral. A segunda fase é de afirmação do perfil
político-administrativo dos candidatos e de fixação
da agenda de temas centrais da campanha. Uma etapa muito interativa, na
qual interagem a mídia independente a maior força
de formação de opinião sobre a agenda , as
pesquisas de opinião pública e a ação e propaganda
dos candidatos. Estamos no início desse processo. Hoje, ainda há
mais mobilização que discussão de agenda e muito
pouca definição dos perfis dos candidatos, todos ainda muito
embaçados.
As duas primeiras semanas da campanha na TV servirão, provavelmente,
para apresentar os candidatos com um perfil mais nítido e firmar
uma agenda temática para o debate que se seguirá. O mês
de setembro será o do movimento decisivo: de persuasão do
eleitorado a respeito dos temas e da qualificação de cada
candidato, sua capacidade presumível de governar e levar o país
a dias melhores. Eleição é momento de renovação
de esperanças, ninguém pode fazer uma campanha em tom puramente
negativista e catastrófico. É hora de promessas. Quando
é competitiva e parelha, como esta promete ser, pode ser a hora
da verdade dos candidatos. Os cidadãos precisam de mais informação
sobre o desempenho do governo e as qualidades dos candidatos para fazer
sua escolha. Hoje, 50% dos eleitores estão indecisos e 20% dos
que têm candidato confessam que ainda podem mudar de opinião
até o dia da eleição. Na campanha de 1997 na Inglaterra,
para falar de uma sociedade com nível de educação
e informação muito maior, 50% dos eleitores tomaram sua
decisão ou mudaram a direção de seu voto durante
a fase final da campanha.
A probabilidade de mudanças entre nós é grande. Não
há tendências cristalizadas de voto ainda. O único
candidato com eleitorado fiel e insuficiente para elegê-lo
é Lula. Nenhum dos três candidatos mais competitivos
usou até agora todos os recursos de persuasão na campanha.
Ciro Gomes e José Serra ainda não são sequer adequadamente
reconhecidos por uma parcela considerável do eleitorado. O ambiente
econômico em deterioração aumentou a incerteza e a
insegurança do eleitor que está atemorizado pela crise e
cheio de dúvidas sobre o futuro. Sua agenda de preocupações
encurtou, a atenção para os atributos políticos e
pessoais dos candidatos ficou muito mais aguçada. Ele vai informar-se
sobre isso ao longo das próximas semanas, na TV institucional e
na mídia independente. Ele estará mais, e não menos,
interessado na campanha. Para os candidatos isso abre uma temporada de
riscos e oportunidades. Está chegando, literalmente, a hora da
verdade.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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