Eles sobraram

Modernização reduz chances
para 36 milhões de trabalhadores
com pouca escolaridade

Cintia Valentini

 

Os números do IBGE, o principal órgão de pesquisas sociais do país, mostram um retrato dramático da realidade do trabalhador brasileiro. Segundo o Instituto, 36 milhões de brasileiros em idade de trabalhar têm só o 1º grau completo ou nem isso. Essa população equivale a quase a metade de toda a força de trabalho do país e coloca para a sociedade um enorme problema. Para garantir a sobrevivência, muitos deles ainda conseguem emprego na economia informal com algum êxito. Para os outros, o horizonte é desolador. Isso porque as empresas, com a modernização, já não precisam tanto de força física, que é o que eles têm a oferecer se não forem educados.

 
Claudio Rossi

Inscrições para frente de trabalho, em São Paulo: 460 000 em busca de ocupação braçal


O rosto dessa gente apareceu quando o governo de São Paulo abriu inscrições, um mês atrás, para as chamadas frentes de trabalho. A idéia era selecionar 50.000 pessoas para cumprir um contrato de seis meses, recebendo salário mensal de 150 reais, cesta básica e seguro de acidentes pessoais. Exigências: ter acima de 16 anos de idade e estar desempregado há mais de um ano. Uma multidão de 460.000 pessoas lotou os locais de inscrição. Foram selecionados apenas os chefes de famílias numerosas, os mais velhos e aqueles que estavam por mais tempo na fila do desemprego. A primeira leva, de 250 pessoas, já está trabalhando na limpeza de trilhos de trem na região metropolitana de São Paulo. Os outros vão cuidar do zoológico, de parques e da jardinagem de praças. Programa semelhante, organizado pela prefeitura de São Paulo, atraiu mais 50.000 pessoas.

Nessas filas se ouvem histórias de cortar o coração. São casos como o de Carlos Evaristo Pinto, que guardou no bolso o lanche distribuído pela prefeitura, um sanduíche de queijo, uma latinha de refrigerante, um chocolate e uma maçã. "Vou levar para minha filha de 2 anos", diz. Desempregado há dois anos, faz três meses que ele não consegue guardar 100 reais para pagar o aluguel. Está para ser despejado. Manoel Santos Araújo, demitido há dois anos do emprego de vigia, faz bicos na rua para comprar comida para a família ele, mulher e quatro filhos. Araújo mal consegue escrever o próprio nome, não terminou o primário nem sabe o que é um curso de qualificação profissional. O que sabe, e muito bem, é que a maioria das portas se trancou para ele. Na frente de trabalho, ele vai ter chance de assistir a palestras e fazer um cursinho profissional existem quarenta opções, que vão de pedreiro a babá.

O Brasil ainda tem uma vantagem a oferecer a esses trabalhadores, por uma ironia de seu passado recente. Durante mais de uma década, o governo abandonou estradas, viadutos, deixou ruas se esburacarem. Assim que a economia voltar a crescer, isso tudo vai ser consertado e haverá trabalho para essa massa de gente. O problema é saber durante quanto tempo eles poderão sobreviver à custa desses serviços. E o desafio, para o país, é evitar que continue crescendo a população de subtrabalhadores.

 
 

 

 




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