Há emprego esperando por você

Se nenhum transtorno econômico acontecer,
o país pode reagir àquele que é o seu
mais dolorido problema, o desemprego

César Nogueira e Franco Iacomini



A praga do desemprego, que assombra o Brasil desde 1997, está perdendo pressão. Não se trata de otimismo, mas de números e estimativas feitas por quem mais entende de mercado de trabalho. Na semana passada, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Fiesp, anunciou que, pela primeira vez em 25 meses, o número de vagas abertas na indústria paulista superou o de vagas fechadas. Outra pesquisa, da Fundação Seade em parceria com o Dieese, mostrou que em maio foram criados 130.000 novos empregos na região metropolitana de São Paulo, volume recorde para um único mês. Projetada para todo o país, a última investigação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, indica que o número de trabalhadores empregados aumentou em 680.000 entre abril e maio.

 
Joel Rocha

Fábrica da Audi, no Paraná: 700 contratações e produção quatro vezes maior até o final do ano

 

Com base nas cifras do IBGE, um dos maiores especialistas em emprego do Brasil, o economista Lauro Ramos, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, calcula que até o final de 1999 nada menos que 2 milhões de vagas terão sido criadas. "Mantidas as condições atuais da economia, vamos recuperar os empregos perdidos nos últimos dois anos", diz Ramos. É do setor que chefia, subordinado à Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, que saem as análises que abastecem o governo. Pode-se desconfiar do que diz o Ipea, pois é um órgão oficial que, em tese, teria interesse em pintar um quadro mais favorável. Mas não dos números do Dieese, que é uma instituição dos sindicatos, nem do que afirma a Fiesp, que costumeiramente reclama de suas dificuldades. "O nível de ocupação se estabilizou e a máquina está voltando a funcionar", diz o empresário Roberto Faldini, diretor de pesquisa e estudos econômicos da federação.

 
Joel Rocha
Ronaldo Luiz Bohnenstengel, 22 anos, garçom em Curitiba

Com a chegada das montadoras ao Paraná, aumentou a freqüência de clientes estrangeiros no restaurante em que ele trabalha. Ronaldo matriculou-se num curso de inglês e já se prepara para iniciar o de francês. Ele foi promovido e as gorjetas aumentaram. Ganhava 1 000 reais e agora recebe 1 500 por mês. "Quero progredir mais e abrir meu próprio restaurante"

 
Joel Rocha
Cristiane Sousa Martins, 35 anos, supervisora de telemarketing em São Paulo

Durante seis anos, Cristiane trabalhou como assistente administrativa numa construtora. A empresa mudou-se para Cuiabá, ela foi demitida e teve de interromper o curso de administração. Depois de dez meses parada, conseguiu vaga numa empresa de telemarketing. Já voltou à faculdade. Ganha 920 reais. "Sem o curso universitário não vou melhorar meu salário"

 
Joel Rocha
Leila Teixeira, 21 anos, metalúrgica em Curitiba

Técnica em contabilidade, Leila perdeu o emprego e passou um ano e meio procurando trabalho em sua área. Não encontrou e decidiu mudar de profissão. Fez um curso de montagem automotiva no Senai e, no mês passado, arrumou trabalho na fábrica da Audi/Volkswagen. Ela ganha cerca de 500 reais, mais do que no emprego anterior. "Só com esforço é possível mudar de profissão"

 
Joel Rocha
Loana Fonseca, 35 anos, secretária em Belo Horizonte

Durante 16 anos, Loana trabalhou numa locadora de veículos. Perdeu o emprego em agosto de 1998 e voltou para a escola. Fez curso de técnicas de secretariado, de computação e de inglês. Em fevereiro, conseguiu uma vaga de secretária na rede de supermercados Êpa/Martplus. Ganha 600 reais, 25% menos do que no emprego anterior. "Mas pelo menos minhas férias forçadas acabaram"

Chega de institutos e estatísticas. A melhoria na questão do emprego é um pequeno sinal, mas muito importante, de que o transatlântico está saindo da inércia. É espantoso que tenha reagido tão rapidamente. Na crise cambial de fevereiro e março, previram-se desgraças variadas e profundas para a economia brasileira. A recessão seria forte, a inflação alta e o desemprego chegaria ao nível que ocorre hoje na Argentina, na faixa dos 14%. As previsões para o segundo semestre, agora, são bem mais amenas (veja quadro). E, junto com elas, nota-se um movimento de criação de empregos em vários setores. Por isso, para quem está sem ocupação, abriu-se uma porta. As empresas estão mais exigentes do que nunca. Querem que o sujeito fale inglês e espanhol, entenda de computador, saiba liderar equipes, interpretar manuais complicados. Mas as vagas estão aí.

As companhias de telemarketing, campo que se expande com velocidade em todo o mundo, vão gerar 60.000 empregos no Brasil ainda neste ano. As de computação e de telecomunicações reclamam que não encontram funcionários para completar o quadro. Por seus cálculos, haverá 15.000 vagas disponíveis até o final de 1999. Engenheiros especializados em construção pesada, administradores e operários comuns são desejados por construtoras que investirão em infra-estrutura. A construção de pontes, a recuperação de estradas e portos e as obras na área de energia devem empregar 26.000 pessoas até dezembro. Há 300 hotéis sendo construídos no Brasil, além de dez novos parques temáticos. Somente os turistas estrangeiros devem gastar 3 bilhões de dólares no país, até dezembro. O turismo deve contratar 50.000 trabalhadores neste ano e 500.000 até 2002. VEJA ouviu as associações de classe de oito setores empresariais, que representam apenas uma lasca da economia. Elas prevêem a contratação de quase 1,5 milhão de pessoas nos próximos quatro anos.

Alguns desses setores estão ressurgindo das cinzas, como o dos produtores de tecidos. Beneficiados pelo ajuste do câmbio, pretendem investir 5 bilhões de dólares para modernizar suas fábricas e quadruplicar as exportações. Haverá vagas para meio milhão de pessoas. Há, também, novos negócios aparecendo. Com a cessão de bacias petrolíferas inexploradas, feita pelo governo no mês passado, as companhias que começarão a operar no Brasil devem contratar 200.000. Existem, enfim, outras práticas surgindo. Os supermercados estão tentando obter autorização para abrir aos domingos. Se conseguirem, prometem empregar 40.000 até o final do ano.

O nível atual de desemprego é inédito no Brasil. Em maio, atingiu 7,7% da população economicamente ativa. São cerca de 5 milhões de pessoas de braços cruzados. Em parte, as demissões ocorreram por causa da desaceleração econômica do ano passado e o desempenho fraco do primeiro semestre deste ano. A parte maior, contudo, foi efeito inevitável da modernização da economia brasileira, iniciada no começo da década e acelerada com o Plano Real. Quando a economia era fechada, as empresas não experimentavam a competição de produtos estrangeiros e se interessavam pouco em cortar custos e melhorar equipamento. Com a concorrência aberta ao exterior e o fim dos ganhos com a inflação, tiveram de se reformar a toque de caixa. O resultado foi um aumento brutal da produtividade de até 6% ao ano e a demissão de milhões de trabalhadores. Em muitos setores industriais, esse processo de transformação já acabou. "O desemprego não deve aumentar mais por causa desse processo. Ele já está em fase final", diz o economista chefe do Banco Santander, Dany Rappaport, encarregado pela instituição de acompanhar as estatísticas de desemprego na América Latina.

Percebe-se aí uma boa notícia. Já que o ajuste está no fim, robôs, softwares e novas técnicas de gerenciamento não devem mais despejar tantos trabalhadores. "De agora em diante, qualquer elevação na atividade econômica vai refletir-se em aumento do emprego", diz Rappaport. Em outros países, a modernização industrial também afetou o emprego. Na década de 80, os Estados Unidos tiveram de modernizar sua indústria para concorrer com os produtos chegados da Ásia. Uma parte da indústria sobreviveu ao custo de enxugar brutalmente seu quadro de empregados. Outra não sobreviveu. No processo, milhões de postos de trabalho foram fechados. A estratégia foi bem-sucedida. Os Estados Unidos crescem há oito anos sem parar e o país convive hoje com uma taxa de desemprego que estacionou em torno de 4%. Outras tantas vagas foram criadas em setores como serviços e computação.

 

Para o brasileiro que está sem emprego e não consegue pagar suas contas no final do mês, essa conversa parece fiada. Mas ela mostra o que pode acontecer no Brasil caso o país volte a crescer 4%, como se prevê para o ano que vem. Fecham-se vagas nas indústrias, mas abrem-se postos de trabalho em novas áreas. Aliás, isso já está acontecendo. Até o final do ano, haverá 4 milhões de brasileiros ligados à internet, a rede mundial de computadores, 1 milhão a mais do que atualmente. Isso significa geração de empregos. Estão sendo criadas vagas para quem desenvolve páginas na internet, os chamados webdesigners. Mais empresas que vendem acesso à rede também estão surgindo e o comércio eletrônico já começa a dar os primeiros passos no Brasil. É oportunidade de trabalho certa para quem domina esse universo.

Há emprego para os chamados webmasters, particularmente aqueles especializados em desenvolver sistemas de comércio eletrônico. As empresas que criam os programas vão ter de aumentar seu exército de técnicos para dar assistência aos usuários. A Microsoft do Brasil, por exemplo, tem 1.600 vagas disponíveis há mais de três meses e não consegue preenchê-las. Precisa de profissionais para trabalhar com sistemas em rede nas empresas, bancos de dados e desenvolvimento de soluções. Para conseguir uma das vagas, o interessado tem de passar por um treinamento na empresa, que custa 900 reais. "Mas quem faz o curso, tem garantia certa de emprego", diz Raul Bandeira, gerente de treinamento da Microsoft. Há 67 centros de treinamento da empresa espalhados pelo país. Na cidade baiana de Ilhéus, trabalhar em fazenda de cacau é coisa do passado. A oportunidade está num moderno pólo de empresas de tecnologia, criado há quatro anos. Dezesseis empresas investiram 42 milhões de reais para fabricar computadores e seus periféricos. O pólo emprega 800 pessoas e até o final do ano que vem vai contratar mais 1.400 funcionários.

No espaço de uma década, o Brasil passou por trancos violentos em sua linha econômica e é espantoso que se tenha saído inteiro. Depois de vinte anos de política radical de proteção de suas empresas, quebrou a redoma do dia para a noite e continua sendo um país com excelente fôlego industrial. Está até melhor. Assim como México, Coréia, Malásia e Rússia, foi obrigado a desligar a sua moeda do dólar sob pressão dos investidores estrangeiros e nada indica que irá pagar um preço demasiadamente alto na forma de recessão e de inflação. Nem perdeu o prestígio que ganhou com a modernização de sua economia. De acordo com uma pesquisa da consultoria A.T. Kearney, é o segundo país emergente apontado como bom destino para investimentos diretos. Fica atrás da China, mas ela, com seu gigantesco mercado consumidor e mão-de-obra barata, é um caso especial.

O problema atual, criado pela economia remodelada, é justamente a geração de empregos. As vagas estão reaparecendo, como demonstram as contas da Fiesp, do Dieese, e a análise do Ipea. A questão é que uma massa enorme de desempregados não está apta a ocupá-las (leia a reportagem seguinte). Para quem só completou o 1º grau está difícil achar trabalho de qualidade apenas razoável. Isso fica evidente quando se investiga o interior dos índices de desemprego. Cerca de 90% dos que estão de braços cruzados não completaram o 1º grau. Para os que têm universidade, a dificuldade é muito menor. Apenas 3% dos desempregados têm formação universitária. E mesmo esses enfrentam desafios. Todos os que andam procurando trabalho ou lutando por um posto melhor já perceberam que as empresas elevaram suas exigências para além dos 80 decibéis. Essa realidade é nova e o brasileiro correu para se adaptar. Isso explica a proliferação dos cursos de inglês e de informática, cujas classes noturnas andam lotadas.

Outra questão importante é a legislação que regula o mercado de trabalho. Segundo o economista José Pastore, um estudioso da questão do trabalho, os Estados Unidos levam uma grande vantagem sobre a Europa por causa da flexibilidade da sua legislação trabalhista. A maior parte das questões é decidida na mesa de negociação entre o empregador e o empregado. "Isso facilita muito a criação de oportunidades de trabalho", diz ele. Se surge um novo negócio em que é preciso colocar gente trabalhando durante a noite ou nos fins de semana, as partes se entendem e começam rapidamente a trabalhar. Em países como França ou Espanha, mais rígidos, a contratação pode ficar tão complicada que o negócio deixa de ser interessante. O Brasil, nesse particular, está mais próximo da rigidez européia do que da maleabilidade americana.

Pelos cálculos de José Pastore, para absorver a massa de desempregados já existente e arrumar trabalho para os candidatos que chegam ao mercado a cada ano cerca de 1,5 milhão de pessoas , a economia precisaria crescer ao ritmo de 5% ao ano, durante uma década. Além de investir maciçamente em educação. Educação foi um fator negligenciado durante décadas porque não se pensava nele como ingrediente econômico importante. Mas em matéria de crescimento o Brasil já foi um tigre e agora voltou a ser um jogador de respeito. Ajustou sua indústria, limpou o seu sistema financeiro, adaptou-se ao jogo econômico mundial e, embora existam interpretações em contrário, parece ter aprendido que não se sobrevive com inflação e déficit público. "O país deve entrar num ciclo de desenvolvimento muito forte. Temos tudo para recuperar o tempo perdido rapidamente", diz Harry Simonsen, consultor de grandes empresas em São Paulo. Reconquistar o que se perdeu, sobretudo o emprego que dá sustento e uma boa relação da pessoa com a sociedade , não é apenas necessário. O Brasil não tem outra saída.

 

 
 

 

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