Uma terapia simples
salva
bebês da Aids

Descoberta droga que é 250 vezes mais barata que o AZT e ajuda a evitar a contaminação de recém-nascidos

Eduardo Nunomura

Frederic Jean

Bebê no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo: 4 200 recém-nascidos infectados no Brasil desde 1986


Nenhuma contaminação pelo vírus da Aids é mais cruel e perversa do que aquela transmitida da mãe grávida para o filho que ela leva no ventre. No mundo todo, a cada dia 1.800 bebês nascem infectados pelo HIV. Sem tratamento, metade morrerá até o primeiro ano de vida. Na semana passada, surgiram esperanças de um futuro menos sombrio para essas crianças. Pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde americano e da Universidade Makerere, em Uganda, descobriram uma forma simples, barata e eficaz de prevenir a chamada transmissão perinatal. Por 4 dólares, um comprimido da droga nevirapina para a mãe durante o parto e outro para o bebê até os três primeiros dias depois do nascimento reduzem para apenas 13% as chances de contaminação. É uma notícia e tanto. Principalmente para os países mais pobres, onde vivem 95% dos 33,4 milhões de portadores do HIV e onde as terapias mais modernas são inacessíveis para a maioria da população. Com o dinheiro gasto para tratar uma gestante com o remédio AZT é possível cuidar de 250 mulheres com a nevirapina.

Fabricada pelo laboratório alemão Boehringer Ingelheim, a droga chegou ao mercado em maio do ano passado, sob o nome de Viramune. É um entre a dezena de medicamentos que compõem o coquetel anti-Aids, uma combinação de drogas capaz de conter o crescimento do HIV no organismo humano. A grande vantagem da nevirapina sobre o AZT é o tempo que a droga leva para ser processada pelo organismo. O AZT demora de doze a catorze horas para começar a fazer efeito. O remédio da Boehringer, só três horas. Dessa forma, transforma-se em arma potente para evitar a contaminação do recém-nascido pela mãe. Cerca de 70% das infecções perinatais acontecem durante o parto. O que se tenta é barrar a transmissão do vírus no momento em que o HIV penetra o organismo do bebê. Apesar do entusiasmo com os resultados das pesquisas com a droga, os cientistas ainda têm um longo caminho pela frente. Pelos próximos dezoito meses eles acompanharão as crianças para analisar os possíveis efeitos colaterais da droga durante a infância. Outra missão dos pesquisadores é averiguar se o medicamento é eficaz também para evitar a transmissão do vírus da Aids pelo aleitamento materno o que é muito comum nos primeiros meses de vida dos bebês, principalmente nas regiões mais carentes do mundo.

Novo perfil A nevirapina é uma solução de emergência, utilíssima nos países pobres incluídas aí algumas regiões do Brasil , onde a maioria das mulheres só descobre que é portadora do vírus da Aids depois do nascimento do filho, quando a criança começa a apresentar os primeiros sintomas da doença. Ou, na melhor das hipóteses, quando as gestantes chegam ao hospital para dar à luz. Até agora, pelo tratamento convencional, a mãe ingeria dois comprimidos de AZT no início do trabalho de parto e uma pílula a cada três horas até a criança nascer. E o bebê recebia duas doses diárias da droga durante a primeira semana de vida. A taxa de transmissão era de 18% (5% mais do que no novo tratamento). O custo, 100 dólares 25 vezes maior do que o da nevirapina.

O alto número de recém-nascidos contaminados é resultado da precariedade no acompanhamento médico. De cada dez grávidas brasileiras, sete não se submetem a exames pré-natais. No ano passado, 6.000 gestantes eram portadoras do vírus. Delas, segundo dados do Ministério da Saúde, apenas 2.500 receberam tratamento. Ou seja, 60% foram para a mesa de parto sem as precauções necessárias para evitar ou ao menos tentar bloquear a transmissão do HIV para o filho. As conseqüências são desastrosas. Enquanto as contaminações por transfusão de sangue caíram de 77% em 1987 para 2% uma década mais tarde, o contágio perinatal saltou de 10% para 89% no mesmo período. Desde o primeiro registro, em 1986, o número de crianças brasileiras contaminadas é de quase 4.200. "Nas regiões mais pobres, a nevirapina deve ser disponibilizada com a máxima urgência", defende o infectologista Artur Timerman, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

A tragédia africana Se a situação é dramática no Brasil, na África tornou-se uma tragédia. Lá estão concentrados 90% dos cerca de 600.000 casos de Aids registrados em crianças com menos de 15 anos em 1998. Desde o início da epidemia, o continente africano contabiliza a morte de 3 milhões de meninos e meninas (veja quadro). Em algumas áreas, 40% das grávidas estão infectadas pelo HIV. O quadro é alarmante. É o lado mais sombrio da mudança de perfil da síndrome. A doença hoje atinge os mais pobres e cresce entre as mulheres. Em 1983, o Brasil registrava uma mulher doente para dezessete homens na mesma situação. Hoje, a proporção é de quase uma para dois. Na África do Sul, 79% das infecções aconteceram em relações heterossexuais. Os efeitos desse "empobrecimento e feminização" da doença acabam transformando as crianças que ainda estão por nascer em vítimas potenciais do mal.

Nem todas as gestantes soropositivas estão condenadas a ter filhos com o vírus da Aids. Isso acontece com uma em cada quatro crianças cujas mães estão nessa situação. Se o bebê será ou não portador da doença só se descobre depois de, em média, um ano e meio. É o tempo necessário para que a criança se livre de todos os anticorpos da mãe. Obviamente não vale a pena esperar, ainda mais se há medidas capazes de reverter a contaminação. Um bom contraponto à tragédia da desinformação no Brasil e na África vem dos Estados Unidos, onde 85% das grávidas fazem o pré-natal. Lá, o risco de uma mulher transmitir o HIV para o bebê caiu 80% nos últimos anos. Em grande parte dos casos, em razão do tratamento preventivo ao qual a gestante é submetida antes de dar à luz. A maioria recebe a chamada terapia do AZT longo (veja quadro). A partir da 14ª semana de gravidez, a mulher toma cinco comprimidos diários da droga. No parto, uma injeção intravenosa do medicamento. E o bebê, quatro doses por dia nas seis primeiras semanas de vida.

Com esse tipo de prevenção, as taxas de transmissão do vírus da mãe para o filho nos Estados Unidos é de 8% o que representa um resultado 60% melhor do que o obtido com a nevirapina. O custo, entretanto, é alto: 1.000 dólares. Se, além do tratamento medicamentoso, a criança nascer por cesárea, o perigo de contaminação cai para 2%. No parto normal, as contrações provocam o rompimento de diversos vasos sanguíneos. Feita antes de a mulher entrar em trabalho de parto, a cirurgia evita a ruptura das membranas e o contato do bebê com as secreções maternas. Todos esses cuidados só podem ser tomados, no entanto, se a gestante descobrir o vírus na mesma época em que receber a notícia da gravidez.

Com todos os avanços na prevenção da contaminação perinatal, as portadoras do HIV podem hoje sonhar com a maternidade o que seria impossível em meados da década de 80. Um estudo de médicos paulistas revela que 30% das mulheres soropositivas desejam ter filhos. A infectologista Grace Suleiman, responsável pelo Ambulatório de Gestantes Soropositivas para HIV do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo e um dos maiores centros de referência para tratamento de Aids do país, alerta: "Ninguém deve imaginar que o problema será resolvido com uma pílula de 4 dólares no final da gravidez". Com nevirapina, AZT, coquetéis anti-Aids, os riscos existem. Ou seja, prevenir é sempre o melhor caminho.

 

 

 

 




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