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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
O novo mobral
"A prioridade nacional é melhorar
a escola
básica. O que importa é evitar erros do
passado. Deus nos livre dos 'programas
de emergência'. Tudo o que não focalizar
a máquina em seu cotidiano passará
longe do problema"
Embora a Unesco seja pouco explícita
nessas questões, alfabetização hoje não
é mais apenas aprender a ler. De tudo o que sabemos e que
já estava escrito antes de ser criado o Mobral, assinar o
nome, escrever um bilhete curto e ler textos muito simples não
pode nos dias de hoje ser um objetivo da alfabetização.
A sociedade moderna exige muito mais. Não obstante, em sua
primeira fase o Mobral tentou sobretudo alfabetizar adultos. Estava
abarrotado de dinheiro. Teve uma administração profissional
e competente, melhor do que jamais teve a escola de primeiro grau
do Brasil. As cartilhas eram primorosas. Os professores, decentemente
remunerados e corretamente preparados para o que iam fazer. Apesar
disso, fracassou. Não por sua culpa, mas por uma razão
muito simples: teve apenas o mesmo destino dos que tentam uma missão
estruturalmente impossível. Como o Mobral, fracassaram no
mundo inteiro programas que tentaram fazer coisas semelhantes. Tentar
de novo é mais uma vez ignorar a lição da história.
O problema que hoje demanda mais atenção
é o ensino básico. E, como é tudo muito ruim,
torna-se relativamente fácil conseguir progressos consideráveis.
A primeira decisão crítica é definir a população
a ser atendida. Os que estão na escola ou os jovens que estão
de fora? A opção de atender os de fora dá a
impressão de responder mais de perto aos anseios de justiça
e eqüidade. Todavia, tirante o Nordeste rural, quase todos
os brasileiros de 7 a 14 anos ou estão na escola ou já
passaram por ela. Portanto, escolher como alvo os que não
estão mais na escola é escolher uma população
que, por conta de reprovações sucessivas e um crescente
sentimento de frustração, decidiu abandoná-la.
Julgamos que o Brasil deve ter a coragem de
optar pelo mais urgente e mais fácil. Urge melhorar a escola
para que os seus alunos nem a abandonem prematuramente nem se formem
sabendo pouco mais que assinar o nome.
Ilustração Alê Setti
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Achamos, portanto, que a grande prioridade nacional é melhorar
a escola básica. O importante aqui é evitar os erros
do passado. Deus nos livre e guarde das "campanhas", dos "programas
de emergência" e de outras soluções à
margem da máquina escolar. Quem vai continuar a educar nossa
juventude é a escola que aí está, com seus
professores e sua administração. A todo custo, precisamos
agir sobre essa escola empobrecida, burocratizada e desmotivada.
Tudo o que não focalizar a ação da máquina
em seu cotidiano passará longe do problema. Educação
se dá na sala de aula, com os professores existentes, com
os poucos livros que lá chegam e com o quadro que já
foi negro e virou cinza. Consertar essa situação não
é impossível. Países mais pobres que o Brasil
conseguem oferecer uma educação decente.
O que é preciso fazer para que melhore
o cotidiano da sala de aula? De tudo o que dissemos, três
pontos merecem ser repetidos.
a. Mais vale melhorar a escola do que tentar
em vão remendar a situação dos que foram vítimas
dela e de lá saíram.
b. O problema da educação está
no sistema escolar. Falharão tentativas de melhorá-la
com programas externos e conjunturais, descolados da máquina.
c. A educação se dá na
sala de aula. Só se justifica fazer o que demonstravelmente
melhore esse momento vivido entre o professor e seus alunos.
O texto acima não foi dirigido a algum
ministro da Educação recente, mas ao ministro Carlos
Chiarelli. Aqui encurtado, para caber na página, foi escrito
por mim e por João Batista Araújo e Oliveira e publicado
no Jornal do Brasil, em 1990, com o mesmo título.
Portanto, é um texto distante de quaisquer emoções
e circunstâncias do momento presente. Para os autores, já
era claro que alfabetizar (adultos ou crianças) seria apenas
um primeiro passo para a educação. Se os outros passos
não forem dados, seja com crianças, seja com adultos,
nada se obtém de relevante como demonstram incontáveis
pesquisas. Com relação aos adultos, o problema maior
não é o analfabetismo, mas uma educação
interrompida antes de dar frutos. Ler e escrever são meras
técnicas, pré-condições para abrir as
portas do conhecimento.
Claudio de Moura Castro
é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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