Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
O novo mobral

"A prioridade nacional é melhorar a escola
básica. O que importa é evitar erros do
passado. Deus nos livre dos 'programas
de emergência'. Tudo
o que não focalizar
a máquina em seu cotidiano passará
longe do problema"

Embora a Unesco seja pouco explícita nessas questões, alfabetização hoje não é mais apenas aprender a ler. De tudo o que sabemos e que já estava escrito antes de ser criado o Mobral, assinar o nome, escrever um bilhete curto e ler textos muito simples não pode nos dias de hoje ser um objetivo da alfabetização. A sociedade moderna exige muito mais. Não obstante, em sua primeira fase o Mobral tentou sobretudo alfabetizar adultos. Estava abarrotado de dinheiro. Teve uma administração profissional e competente, melhor do que jamais teve a escola de primeiro grau do Brasil. As cartilhas eram primorosas. Os professores, decentemente remunerados e corretamente preparados para o que iam fazer. Apesar disso, fracassou. Não por sua culpa, mas por uma razão muito simples: teve apenas o mesmo destino dos que tentam uma missão estruturalmente impossível. Como o Mobral, fracassaram no mundo inteiro programas que tentaram fazer coisas semelhantes. Tentar de novo é mais uma vez ignorar a lição da história.

O problema que hoje demanda mais atenção é o ensino básico. E, como é tudo muito ruim, torna-se relativamente fácil conseguir progressos consideráveis. A primeira decisão crítica é definir a população a ser atendida. Os que estão na escola ou os jovens que estão de fora? A opção de atender os de fora dá a impressão de responder mais de perto aos anseios de justiça e eqüidade. Todavia, tirante o Nordeste rural, quase todos os brasileiros de 7 a 14 anos ou estão na escola ou já passaram por ela. Portanto, escolher como alvo os que não estão mais na escola é escolher uma população que, por conta de reprovações sucessivas e um crescente sentimento de frustração, decidiu abandoná-la.

Julgamos que o Brasil deve ter a coragem de optar pelo mais urgente e mais fácil. Urge melhorar a escola para que os seus alunos nem a abandonem prematuramente nem se formem sabendo pouco mais que assinar o nome.

Ilustração Alê Setti


Achamos, portanto, que a grande prioridade nacional é melhorar a escola básica. O importante aqui é evitar os erros do passado. Deus nos livre e guarde das "campanhas", dos "programas de emergência" e de outras soluções à margem da máquina escolar. Quem vai continuar a educar nossa juventude é a escola que aí está, com seus professores e sua administração. A todo custo, precisamos agir sobre essa escola empobrecida, burocratizada e desmotivada. Tudo o que não focalizar a ação da máquina em seu cotidiano passará longe do problema. Educação se dá na sala de aula, com os professores existentes, com os poucos livros que lá chegam e com o quadro que já foi negro e virou cinza. Consertar essa situação não é impossível. Países mais pobres que o Brasil conseguem oferecer uma educação decente.

O que é preciso fazer para que melhore o cotidiano da sala de aula? De tudo o que dissemos, três pontos merecem ser repetidos.

a. Mais vale melhorar a escola do que tentar em vão remendar a situação dos que foram vítimas dela e de lá saíram.

b. O problema da educação está no sistema escolar. Falharão tentativas de melhorá-la com programas externos e conjunturais, descolados da máquina.

c. A educação se dá na sala de aula. Só se justifica fazer o que demonstravelmente melhore esse momento vivido entre o professor e seus alunos.

O texto acima não foi dirigido a algum ministro da Educação recente, mas ao ministro Carlos Chiarelli. Aqui encurtado, para caber na página, foi escrito por mim e por João Batista Araújo e Oliveira e publicado no Jornal do Brasil, em 1990, com o mesmo título. Portanto, é um texto distante de quaisquer emoções e circunstâncias do momento presente. Para os autores, já era claro que alfabetizar (adultos ou crianças) seria apenas um primeiro passo para a educação. Se os outros passos não forem dados, seja com crianças, seja com adultos, nada se obtém de relevante – como demonstram incontáveis pesquisas. Com relação aos adultos, o problema maior não é o analfabetismo, mas uma educação interrompida antes de dar frutos. Ler e escrever são meras técnicas, pré-condições para abrir as portas do conhecimento.

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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