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Cinema
Um labirinto de memórias
O importante é jamais esquecer, diz
o surpreendente Charlie Kaufman em Brilho
Eterno de uma Mente sem Lembranças

Isabela Boscov
Divulgação
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| Joel (Carrey) tenta esconder Clementine (Kate)
num desvão de sua mente: romance casado a ficção científica
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Arrasado ao descobrir que
sua namorada, Clementine, pagou a um médico para eliminá-lo
das suas lembranças, Joel decide fazer o mesmo. Deitado em
sua cama e inconsciente enquanto um técnico localiza suas
memórias de Clementine e as apaga, Joel, porém, responde
mal ao tratamento. Enquanto cada experiência que passou com
a namorada ressurge e é brevemente revivida, há alguma
parte dele que permanece alerta e se dá conta de que ele
não vai se livrar apenas daquilo que lhe causa dor: os bons
momentos estão escoando pelo ralo junto com os momentos ruins
e até esses, afinal, ele gostaria de preservar. Em
seu desespero, Joel tenta esconder Clementine em partes do seu cérebro
que o técnico não mapeou. Ele a leva para as humilhações
da adolescência e para as confusões da infância,
correndo com Clementine por entre o labirinto daquilo que ele foi
antes de conhecê-la, com o técnico sempre em seu encalço.
Quanto mais imaterial a namorada se torna, maior sua certeza de
que ele está cometendo um erro terrível: com ou sem
Clementine ao seu lado, Joel precisa que ela exista. Brilho
Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine
of the Spotless Mind, Estados Unidos, 2004), que estréia
nesta sexta-feira no país, tem as marcas de seu roteirista,
o Charlie Kaufman de Quero Ser John Malkovich, Adaptação
e Confissões de uma Mente Perigosa um protagonista
perdido no interior de sua própria cabeça, a ausência
de delimitações entre o real e o surreal e, principalmente,
o descaso pelas regras comumente aceitas sobre as complicações
que a platéia é capaz de acompanhar.
Complicações não faltam
em Brilho Eterno, mas a clareza com que Kaufman navega entre
elas é testemunho da qualidade de sua escrita. Graças
a ela, ao seu senso de humor e às ótimas interpretações
de Jim Carrey e Kate Winslet, como o derrotista Joel e a impulsiva
Clementine, o filme consegue apelar ao mesmo tempo à inteligência
e aos sentimentos, e ser simultaneamente ficção científica
e romance. Quanto mais Kaufman avança em seu trabalho, porém,
mais seus quebra-cabeças deixam de parecer brincadeiras,
e mais se constituem em buscas. Na história deslavadamente
romântica que é o pretexto de Brilho Eterno,
Joel atravessa toda uma vida de memórias para proteger Clementine
da erradicação e ser capaz de se lembrar, ao acordar,
de que a amou e que a amaria de novo. No desenrolar lógico
do roteiro, porém, o que de mais importante Joel encontra
é a si mesmo, nas mais diferentes versões (e nos lugares
e situações mais improváveis, graças
ao talento do diretor Michel Gondry para traduzir visualmente os
cenários criados pelo roteirista nessa viagem pela memória).
Ser, portanto, é lembrar.
Não é difícil enxergar
em Brilho Eterno uma espécie de manifesto a favor
da autodescoberta tortuosa e dolorosa da psicanálise, e contra
a felicidade química amplamente acessível das drogas
da geração Prozac. Tirar o fio aos sentimentos e anestesiá-los,
defende Kaufman, é tirar também da mente algo de sua
capacidade de criar. Não por acaso, o roteirista foi buscar
o título de seu filme no poema Eloisa to Abelard,
do inglês Alexander Pope (1688-1744) mais especificamente
da parte em que Heloísa, lamentando o fim trágico
de seu romance com Abelardo, diz que, antes que a alma de um amante
recupere sua paz, ela terá de amar, odiar, ressentir-se,
arrepender-se e dissimular. Tudo, diz Heloísa, menos esquecer.
Joel e Kaufman, com certeza, concordam com ela.
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