Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Cinema
Um labirinto de memórias

O importante é jamais esquecer, diz
o surpreendente Charlie Kaufman em Brilho
Eterno
de uma Mente sem Lembranças


Isabela Boscov

 
Divulgação
Joel (Carrey) tenta esconder Clementine (Kate) num desvão de sua mente: romance casado a ficção científica

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Arrasado ao descobrir que sua namorada, Clementine, pagou a um médico para eliminá-lo das suas lembranças, Joel decide fazer o mesmo. Deitado em sua cama e inconsciente enquanto um técnico localiza suas memórias de Clementine e as apaga, Joel, porém, responde mal ao tratamento. Enquanto cada experiência que passou com a namorada ressurge e é brevemente revivida, há alguma parte dele que permanece alerta e se dá conta de que ele não vai se livrar apenas daquilo que lhe causa dor: os bons momentos estão escoando pelo ralo junto com os momentos ruins – e até esses, afinal, ele gostaria de preservar. Em seu desespero, Joel tenta esconder Clementine em partes do seu cérebro que o técnico não mapeou. Ele a leva para as humilhações da adolescência e para as confusões da infância, correndo com Clementine por entre o labirinto daquilo que ele foi antes de conhecê-la, com o técnico sempre em seu encalço. Quanto mais imaterial a namorada se torna, maior sua certeza de que ele está cometendo um erro terrível: com ou sem Clementine ao seu lado, Joel precisa que ela exista. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, tem as marcas de seu roteirista, o Charlie Kaufman de Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Confissões de uma Mente Perigosa – um protagonista perdido no interior de sua própria cabeça, a ausência de delimitações entre o real e o surreal e, principalmente, o descaso pelas regras comumente aceitas sobre as complicações que a platéia é capaz de acompanhar.

Complicações não faltam em Brilho Eterno, mas a clareza com que Kaufman navega entre elas é testemunho da qualidade de sua escrita. Graças a ela, ao seu senso de humor e às ótimas interpretações de Jim Carrey e Kate Winslet, como o derrotista Joel e a impulsiva Clementine, o filme consegue apelar ao mesmo tempo à inteligência e aos sentimentos, e ser simultaneamente ficção científica e romance. Quanto mais Kaufman avança em seu trabalho, porém, mais seus quebra-cabeças deixam de parecer brincadeiras, e mais se constituem em buscas. Na história deslavadamente romântica que é o pretexto de Brilho Eterno, Joel atravessa toda uma vida de memórias para proteger Clementine da erradicação e ser capaz de se lembrar, ao acordar, de que a amou – e que a amaria de novo. No desenrolar lógico do roteiro, porém, o que de mais importante Joel encontra é a si mesmo, nas mais diferentes versões (e nos lugares e situações mais improváveis, graças ao talento do diretor Michel Gondry para traduzir visualmente os cenários criados pelo roteirista nessa viagem pela memória). Ser, portanto, é lembrar.

Não é difícil enxergar em Brilho Eterno uma espécie de manifesto a favor da autodescoberta tortuosa e dolorosa da psicanálise, e contra a felicidade química amplamente acessível das drogas da geração Prozac. Tirar o fio aos sentimentos e anestesiá-los, defende Kaufman, é tirar também da mente algo de sua capacidade de criar. Não por acaso, o roteirista foi buscar o título de seu filme no poema Eloisa to Abelard, do inglês Alexander Pope (1688-1744) – mais especificamente da parte em que Heloísa, lamentando o fim trágico de seu romance com Abelardo, diz que, antes que a alma de um amante recupere sua paz, ela terá de amar, odiar, ressentir-se, arrepender-se e dissimular. Tudo, diz Heloísa, menos esquecer. Joel e Kaufman, com certeza, concordam com ela.

 
 
 
 
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