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Entrevista: Gilberto
Gil
Eu grito, sim
O compositor, cantor e ministro da Cultura
diz que não gosta de briga, mas que sabe
bater na mesa quando é preciso

Thaís Oyama e Sérgio
Martins
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Ana Araujo

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"Temos de tratar os
desiguais de forma desigual. Queremos que a Lei Rouanet
atenda os que não são historicamente atendidos"
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Não que a política tenha deixado
o músico menos zen, mas Gilberto Gil, o ministro, considera-se
hoje um homem mais pragmático. Afirma ter descoberto, por
exemplo, que a hipocrisia "é uma ferramenta da civilidade"
e diz vir fazendo uso dela com freqüência. À frente
da pasta da Cultura desde o início do governo Lula, já
passou por maus bocados: teve de demitir um amigo de infância
suspeito de malversação de recursos, bateu de frente
com setores do PT que, entre outras coisas, o acusaram de defender
publicamente o governo do ex-presidente e amigo Fernando Henrique
Cardoso, e agora enfrenta críticas a seu projeto de mudança
da Lei Rouanet, que concede abatimentos no imposto de empresas que
patrocinam projetos culturais. Pai de sete filhos e avô cinco
vezes, acaba de completar 62 anos. Há 23 está casado
com Flora Gil, que não só administra sua carreira
de cantor como, segundo conta, "dá palpite em tudo"
política incluída. Por sugestão dela, o ministro
tingiu recentemente os cabelos de acaju. Pouco antes de sair de
férias do ministério para dar início a uma
turnê musical pela Europa, Gil concedeu a seguinte entrevista
a VEJA.
Veja Analisando o seu desempenho
no governo até hoje, qual seria, em sua opinião, o
seu ponto fraco?
Gil Eu não gosto de briga. E, muitas vezes,
no exercício do poder, você tem de ter uma certa volúpia.
Veja Por quê?
Gil A capacidade de brigar, de demandar com veemência
eu diria até com o uso de uma certa violência
simbólica pode ajudar os governantes a acelerar alguns
processos. Mas de vez em quando eu também grito alto, surpreendentemente.
Quando criança, fiz um teste psicológico que apontou
que um dos meus traços básicos era "agressividade
camuflada".
Veja De que forma o senhor
expressa essa agressividade? Fala palavrões, dá murros
na mesa?
Gil Não, minhas bombas não são
assim tão espetaculares. São bombas caseiras, pequenas.
Palavrão não falo, não gosto, só uso
alegoricamente. Mas às vezes bato na mesa. Faço assim:
pá. E aumento o tom de voz.
Veja O senhor disse ter descoberto
que a hipocrisia é uma ferramenta da civilidade. O que quis
dizer com isso?
Gil O exercício da hipocrisia se refere a um
modo de ser civilizado, necessário à convivência
entre as pessoas. Veja o caso das cantoras Marlene e Emilinha, rivais
históricas na década de 50. Não fosse pela
hipocrisia, elas teriam se matado.
Veja O senhor tem feito uso
da hipocrisia?
Gil Toda hora.
Veja O que o senhor achou
das críticas a seu projeto de mudar a Lei Rouanet, que estimula
as empresas privadas a patrocinar iniciativas culturais?
Gil Temos de tratar os desiguais de forma desigual
essa é a lógica que queremos aplicar. Queremos
que a lei seja mais democrática, mais abrangente e que atenda
melhor os que historicamente não são atendidos. Da
forma como está, 87% dos recursos vão apenas para
dois Estados, São Paulo e Rio de Janeiro. E o dinheiro é
usado para financiar somente projetos de pessoas famosas. Ou seja,
manifestações populares e manifestações
culturais de interesse das parcelas mais pobres da população
não têm acesso aos incentivos.
Veja Mas não é
arriscado tomar para o governo a missão de definir o que
é "manifestação cultural de interesse das parcelas
pobres da população"?
Gil Se estivéssemos em um Brasil em que
todos fossem educados e ilustrados, evidentemente não teríamos
mais setores populares diferenciados e a cultura estaria uniformemente
espalhada. Na medida em que você precisa fazer ainda políticas
de discriminação positiva, você faz. É
uma prática que está se disseminando pelo mundo em
vários setores.
Veja O senhor já declarou
que filme ruim também é cultura. Música ruim
também é cultura?
Gil Claro. É uma expressão cultural.
Você tem um grupo, uma comunidade que se expressa com essas
características. Podemos até desautorizá-las,
mas nunca ignorá-las. A cultura é um software aberto.
Veja Quando o senhor deixou
de ser vereador, reclamou de uma sensação de "inadequação"
na política. Disse que ela obrigava as pessoas a "brandir
o chicote" e que o senhor era pautado pela ética da bondade.
Continua se pautando por essa ética?
Gil Cada vez mais.
Veja Mesmo agora, como ministro?
Gil Qualquer coisa que eu tenha de fazer com relação
a pessoas ou grupos, por mais dura e contundente que seja, sempre
passa pelo filtro da minha interioridade. E, na minha interioridade,
eu quero ser bom.
Veja No início de
seu mandato, o senhor disse que o salário de ministro, de
8 000 reais, era pouco. Politicamente, isso foi ruim...
Gil Disse porque tinha um padrão de vida que
implicava gastos acima disso. Foi só isso que eu disse.
Veja O senhor se considera
ingênuo?
Gil Eu sou ingênuo. Flora diz isso.
Veja Além de ser sua
mulher, Flora tem uma participação intensa na sua
vida profissional. Quais os limites que o senhor estabelece para
essa interferência?
Gil Os limites são cada vez mais tênues.
Eu e Flora temos uma vida muito compartilhada. Ela mexe em tudo,
tem acesso a tudo. Flora tem crachá all areas [válido
para todas as áreas].
Veja Serve para o ministério
também?
Gil Sim, Flora me ajuda muito! No caso de Roberto
Pinho [seu compadre e ex-secretário, demitido no início
do ano sob a acusação de tentar se beneficiar de um
contrato do ministério], foi ela quem me disse que eu
tinha de fazer uma reunião entre todos os envolvidos no conflito.
Foi ela quem chamou as pessoas, telefonou para todo mundo. Flora
dá palpite em tudo na minha vida.
Veja Ela continua morando
no Rio?
Gil Agora está vindo mais comigo. Arrumou minha
casa toda aqui em Brasília. Flora é enérgica,
dá piti, dá carão... É uma administradora
muito forte, muito firme.
Veja Isso não o incomoda?
Gil Não! Flora é mandona, mas ganhou
muito da minha dimensão nos últimos anos. Antigamente,
ela não gostava do discurso do mistério, não
se interessava por isso. Hoje, até freqüenta candomblé...
Veja E Preta Gil, sua filha,
tornou-se evangélica...
Gil Pois é, Preta virou evangélica.
Eu apenas disse a ela: "É assim mesmo, filha: uns nascem,
vão crescendo descrentes e, na maturidade, ficam crentes.
Outros, como eu, nascem crentes, crescem crentes e depois vão
ficando descrentes". Ela ficou decepcionada pelo fato de eu me dizer
um descrente.
Veja O senhor se sente um
descrente?
Gil Sinto-me cada vez mais agnóstico. Eu me
afastei do uso da dimensão religiosa. Não peço
mais a Deus que me dê isso ou que me livre daquilo. Antes,
eu tinha uma visão um pouco mais utilitária da religiosidade.
Agora, diminuiu a intensidade da busca. Estou mais próximo
daquilo que a letra de Andar com Fé diz: "Mesmo a
quem não tem fé a fé costuma acompanhar".
Veja No videoclipe Kaya
N'Gan Daya, o senhor faz uma referência ao fato de ter
dificuldades para entrar nos Estados Unidos. Pode contar essa história?
Gil Toda vez que eu entro lá, tenho de receber
uma espécie de perdão do governo. É um procedimento
regular que a imigração americana adota em relação
a quem já sofreu processo por porte de drogas. No meu caso,
fui preso com maconha em 1976. Foi há muito tempo, mas não
sai dos registros deles, fica lá para sempre. O fato de eu
ser ministro não muda nada. Agora mesmo, quando fui fazer
o show da ONU, tive de ficar numa salinha especial onde eles processam
o perdão. É um perdão a cada entrada.
Veja Qual a posição
do senhor sobre drogas hoje?
Gil Eu não fumo mais maconha. Perdi o hábito.
Mas sou favorável à liberação das drogas.
Tenho a convicção de que elas deveriam ser tratadas
como os fármacos. Liberadas, mas submetidas às mesmas
regras de controle e vigilância que os medicamentos.
Veja Com quem o senhor já
falou sobre isso?
Gil Com muita gente. Oficiosamente, com o ministro
Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, e com o senador
Aloizio Mercadante.
Veja O que o ministro achou?
Gil Ele acha que o horizonte da liberação
é o que se põe à nossa frente. Já o
senador Mercadante disse que vê outros mecanismos, anteriores
à liberação, que poderiam ser acionados. Com
o presidente Lula ainda não falei sobre o assunto.
Veja Qual sua avaliação
do governo Lula?
Gil Acho que ele acertou muito na questão da
macroeconomia e tem feito um esforço razoável, que
ainda não tem respostas muito fortes, na questão da
microeconomia. Também creio que o governo tem dificuldades
na gestão interna, na comunicação entre os
ministérios. Esse relacionamento está aquém
do necessário, principalmente entre os ministérios
e as instâncias às quais eles têm de se reportar:
Casa Civil, Ministério do Planejamento e na Fazenda. Em geral,
os fluxos com essas três instâncias são difíceis.
Veja O que o levou a declarar,
tempos atrás, que o ex-presidente Fernando Henrique era melhor
do que o presidente Lula?
Gil Essa declaração foi tomada
fora do contexto. Eu dei uma série de exemplos de problemas
que o Lula está enfrentando e que o Fernando Henrique não
enfrentou. E disse que, por causa disso, seria difícil o
governo Lula superar o anterior em popularidade. Os jornalistas
daqui distorceram tudo. Me lembro que estava na Espanha quando soube
e fiquei muito zangado. Dizia ao telefone: "Aqueles imbecis! Por
que eles não são honestos comigo?" Pronto, vocês
não queriam um exemplo de agressividade minha? Aí
está.
Veja O senhor já se
desentendeu com algum ministro?
Gil Tive um momento com o ministro Luiz Fernando Furlan.
Discutimos sobre transgênicos. Eu sou pela posição
da vigilância constante e da submissão constante à
apreciação da sociedade de tudo o que diga respeito
a transgênicos, porque é uma coisa nova, uma coisa
complicada.
Veja O senhor continua fazendo
macrobiótica?
Gil Hoje em dia, meus hábitos alimentares são
muito abertos. Uma vez, quando Fernando Henrique era presidente,
fui a um almoço na casa dele e levei uma marmita, com meus
bolinhos de arroz integral. Naquela ocasião, tive um diálogo
muito interessante com dona Ruth. Ela ponderava que o ser humano
é onívoro, que devemos comer de tudo. Disse que o
presidente, por exemplo, adorava tripas. Acho que foi um diálogo
crítico em relação à minha maneira de
comer. Mas aquele era um momento de rigidez dietética. Agora,
estou mais variado.
Veja É verdade que,
quando sua filha Preta posou nua, o senhor disse a ela que deveria
ter feito regime antes?
Gil Eu sou um vigilante do peso constante. Em relação
a mim e aos outros. Quando a Preta posou nua, eu disse que ela estava
gordinha porque sempre preferi a estética da magreza. Então,
preferia que ela estivesse mais magra. Depois, achava desnecessário
ela usar elementos, assim, extracurriculares para promover a carreira
dela como cantora.
Veja O senhor já disse
que não acreditava na posse em um casamento. Continua pensando
assim?
Gil Já vai para 23 anos que Flora e eu estamos
juntos. Fomos encontrando modos de atenuar nossa possessividade
em relação um ao outro, com uma visão mais
generosa de que cada um de nós pertence ao mundo e,
ao mesmo tempo, com uma visão mais rigorosa de que nós
pertencemos um ao outro. Usamos os nossos critérios. Eu sou
ciumento, Flora é ciumenta. Mas fomos nos livrando das oportunidades
de exercer o ciúme. Deixei de causar ciúmes a ela,
ela deixou de causar ciúmes a mim, naquilo que eventualmente
motivava ciúmes desde a questão sexual até
a questão afetiva. Fomos tentando intumescer a irracionalidade
do ciúme com uma certa racionalidade dos nossos hábitos.
Mas a posse não é uma coisa sob controle, ela continua
em aberto. O que você tem de fazer são escolhas: se
eu fizer tal coisa, aborreço a Flora. Faço ou não
faço? Meço a relação custo-benefício
e escolho. E ela idem.
Veja O senhor acha que as
pessoas conseguem diferenciar o ministro do músico Gilberto
Gil?
Gil Acho que não há necessidade de fazer
essa distinção. As pessoas sabem que eu sou o Gilberto
Gil cantor, compositor e que estou ministro. Como dizem os americanos,
sou uma pessoa só, mas com dois chapéus.
Veja É fácil
trocar de chapéu?
Gil Fácil! É tirar o terno, pegar a
guitarra, subir no palco e cantar.
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