|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo A
Copa na TV entreatos Um olhar sobre os
anúncios que têm os jogos como tema e os jogadores como protagonistas
Técnico da seleção brasileira
não tem paz, como se sabe. Sorte de Carlos Alberto Parreira, que é
associado da Golden Cross. "Com a Golden Cross a meu lado fica mais fácil",
diz ele, a feição revelando o milagre de conservar-se sereno como
monge budista no ambiente conflitado do futebol. O banco Santander exibe um time
de clientes de deixar a concorrência aplastrada Ronaldo, Ronaldinho,
Kaká, Robinho, Cafu... Os mais incrédulos dirão que isso
é insuficiente para provar a excelência dos serviços bancários
prestados. Hão de convir, no entanto, que, se houver entre os bancos um
campeonato de times formados pelos respectivos clientes, o Santander é
favorito absoluto. Entre as telefônicas, o jogo é duro: Ronaldinho
é Oi, Robinho é Vivo. A Vivo conta igualmente com Parreira, e ultimamente,
numa espetacular ofensiva, somou a seu elenco os técnicos Vanderlei Luxemburgo
e Emerson Leão. Sobra uma dúvida, velha como o futebol: técnico
ganha jogo? Muitos jogos da Copa têm se arrastado
previsíveis e sonolentos, mas no intervalo... Ah!, no intervalo a bola
rola animada como em decisão de campeonato. Não deve haver evento,
no mundo, que congregue os anúncios em torno de um só tema como
o Mundial de futebol. Até o astronauta brasileiro alguém
se lembra dele?... Aquele que depois de um passeio pelo espaço deu um chute
na carreira militar para ficar mais disponível às oportunidades
, até o astronauta brasileiro aparece, num comercial da Aracruz,
ensaiando uma embaixadinha, tão pífia quanto suas funções
a bordo da Soyuz. Entre os jogadores, Ronaldinho Gaúcho é
o mais sobrecarregado. Defende as cores do Santander, do desodorante Rexona, da
Kibon, da Pepsi-Cola, do Gatorade, da Nike e do Oi. Os produtos e marcas a vender
são mais que o dobro dos clubes cuja camisa envergou Grêmio,
Paris Saint-Germain e Barcelona. O campeonato dos
comerciais tem momentos intrigantes. O festejado anúncio do guaraná
Antarctica em que Maradona aparece com a camisa amarela, cantando o hino com os
jogadores brasileiros, rendeu mais um momento de glória a seu criador,
Duda Mendonça. Foi seu maior triunfo, depois das contas secretas que tanto
lhe abalaram o prestígio. Mas, bem analisado, o que diz o anúncio?
Maradona, depois da cena inicial, em que, ao lado de Ronaldo e de Kaká,
entoa "e o sol da liberdade em raios fúlgidos", acorda e... "Caramba",
diz. "Que pesadelo!" Ele atribui o sonho mau ao fato de estar bebendo muito guaraná
Antarctica. Não há como fugir à conclusão de que o
guaraná Antarctica dá pesadelos.
No anúncio do desodorante Rexona, uma mão misteriosa surrupia o
desodorante de Ronaldinho na hora em que, banho tomado, ele se preparava para
usá-lo. Impõe-se aí uma primeira surpresa: por que diabos
alguém roubaria um desodorante? O fato é que roubou, e sumiu com
o produto com a desenvoltura com que o Ronaldinho dos gramados some com a bola.
A segunda surpresa é o empenho feroz, alucinado mesmo, com que o craque
corre atrás do desodorante, a ponto de, não encontrando o seu, perseguir
um caminhão de distribuição do produto até o armazém
em que é estocado. Que proeza mais insólita! Que exemplo de dedicação
a um singelo tubo de desodorante! Não se
devem interpretar os anúncios literalmente, dirão. Busquemos então
outros ângulos. A Coca-Cola exibe o slogan "Todos e tudo loucos pelo Brasil".
Aqui o que se põe em xeque é a sinceridade do anunciante. Na Argentina,
a Coca-Cola certamente dirá que tudo e todos são loucos pela Argentina,
na Itália, que são loucos pela Itália. Pérfida Coca-Cola!
Hipócrita como mulher de múltiplos amores. O McDonald's, que, como
a Coca-Cola, tem origem nos EUA e vocação global, foi buscar um
hit de 1958 (A Taça do Mundo É Nossa) para proclamar seu
entusiasmo pelas conquistas futebolísticas. Considerando que no país
de origem da famosa fabricante de hambúrgueres se gosta mesmo é
de beisebol, fica-se a duvidar de sua paixão pelo futebol. Considerando
sua vocação global, recebe-se com reservas seu endosso à
afirmação de que "com brasileiro não há quem possa".
A Skol apresenta-se com duas peças de estrutura
semelhante. Numa delas, num jogo entre Brasil e Argentina, as traves deslocam-se
continuamente, por magias que só a cerveja que desce redondo é capaz
de operar, de forma a evitar que entrem no meio delas os chutes dos argentinos
e para fazer com que, ao contrário, os brasileiros acertem sempre o alvo.
Na outra, os argentinos, por força de outra mágica, precipitam-se,
em carrinhos desastrosos, para fora do gramado um direto em direção
aos vestiários, outro em direção aos repórteres atrás
do gol... Nos dois anúncios, os brasileiros ganham não graças
a sua superioridade no jogo, mas porque ludibriam os adversários. Como
observou o colunista Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo, os anúncios
da Skol são um monumento à malandragem brasileira. Eles constituem
uma oportuna homenagem ao país do mensalão. Já sob o critério
da observância das regras, descem quadrado, quadrado. |