Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A Copa na TV – entreatos

Um olhar sobre os anúncios que têm os jogos como tema e os jogadores como protagonistas

Técnico da seleção brasileira não tem paz, como se sabe. Sorte de Carlos Alberto Parreira, que é associado da Golden Cross. "Com a Golden Cross a meu lado fica mais fácil", diz ele, a feição revelando o milagre de conservar-se sereno como monge budista no ambiente conflitado do futebol. O banco Santander exibe um time de clientes de deixar a concorrência aplastrada – Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Robinho, Cafu... Os mais incrédulos dirão que isso é insuficiente para provar a excelência dos serviços bancários prestados. Hão de convir, no entanto, que, se houver entre os bancos um campeonato de times formados pelos respectivos clientes, o Santander é favorito absoluto. Entre as telefônicas, o jogo é duro: Ronaldinho é Oi, Robinho é Vivo. A Vivo conta igualmente com Parreira, e ultimamente, numa espetacular ofensiva, somou a seu elenco os técnicos Vanderlei Luxemburgo e Emerson Leão. Sobra uma dúvida, velha como o futebol: técnico ganha jogo?

Muitos jogos da Copa têm se arrastado previsíveis e sonolentos, mas no intervalo... Ah!, no intervalo a bola rola animada como em decisão de campeonato. Não deve haver evento, no mundo, que congregue os anúncios em torno de um só tema como o Mundial de futebol. Até o astronauta brasileiro – alguém se lembra dele?... Aquele que depois de um passeio pelo espaço deu um chute na carreira militar para ficar mais disponível às oportunidades –, até o astronauta brasileiro aparece, num comercial da Aracruz, ensaiando uma embaixadinha, tão pífia quanto suas funções a bordo da Soyuz. Entre os jogadores, Ronaldinho Gaúcho é o mais sobrecarregado. Defende as cores do Santander, do desodorante Rexona, da Kibon, da Pepsi-Cola, do Gatorade, da Nike e do Oi. Os produtos e marcas a vender são mais que o dobro dos clubes cuja camisa envergou – Grêmio, Paris Saint-Germain e Barcelona.

O campeonato dos comerciais tem momentos intrigantes. O festejado anúncio do guaraná Antarctica em que Maradona aparece com a camisa amarela, cantando o hino com os jogadores brasileiros, rendeu mais um momento de glória a seu criador, Duda Mendonça. Foi seu maior triunfo, depois das contas secretas que tanto lhe abalaram o prestígio. Mas, bem analisado, o que diz o anúncio? Maradona, depois da cena inicial, em que, ao lado de Ronaldo e de Kaká, entoa "e o sol da liberdade em raios fúlgidos", acorda e... "Caramba", diz. "Que pesadelo!" Ele atribui o sonho mau ao fato de estar bebendo muito guaraná Antarctica. Não há como fugir à conclusão de que o guaraná Antarctica dá pesadelos.

No anúncio do desodorante Rexona, uma mão misteriosa surrupia o desodorante de Ronaldinho na hora em que, banho tomado, ele se preparava para usá-lo. Impõe-se aí uma primeira surpresa: por que diabos alguém roubaria um desodorante? O fato é que roubou, e sumiu com o produto com a desenvoltura com que o Ronaldinho dos gramados some com a bola. A segunda surpresa é o empenho feroz, alucinado mesmo, com que o craque corre atrás do desodorante, a ponto de, não encontrando o seu, perseguir um caminhão de distribuição do produto até o armazém em que é estocado. Que proeza mais insólita! Que exemplo de dedicação a um singelo tubo de desodorante!

Não se devem interpretar os anúncios literalmente, dirão. Busquemos então outros ângulos. A Coca-Cola exibe o slogan "Todos e tudo loucos pelo Brasil". Aqui o que se põe em xeque é a sinceridade do anunciante. Na Argentina, a Coca-Cola certamente dirá que tudo e todos são loucos pela Argentina, na Itália, que são loucos pela Itália. Pérfida Coca-Cola! Hipócrita como mulher de múltiplos amores. O McDonald's, que, como a Coca-Cola, tem origem nos EUA e vocação global, foi buscar um hit de 1958 (A Taça do Mundo É Nossa) para proclamar seu entusiasmo pelas conquistas futebolísticas. Considerando que no país de origem da famosa fabricante de hambúrgueres se gosta mesmo é de beisebol, fica-se a duvidar de sua paixão pelo futebol. Considerando sua vocação global, recebe-se com reservas seu endosso à afirmação de que "com brasileiro não há quem possa".

A Skol apresenta-se com duas peças de estrutura semelhante. Numa delas, num jogo entre Brasil e Argentina, as traves deslocam-se continuamente, por magias que só a cerveja que desce redondo é capaz de operar, de forma a evitar que entrem no meio delas os chutes dos argentinos e para fazer com que, ao contrário, os brasileiros acertem sempre o alvo. Na outra, os argentinos, por força de outra mágica, precipitam-se, em carrinhos desastrosos, para fora do gramado – um direto em direção aos vestiários, outro em direção aos repórteres atrás do gol... Nos dois anúncios, os brasileiros ganham não graças a sua superioridade no jogo, mas porque ludibriam os adversários. Como observou o colunista Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo, os anúncios da Skol são um monumento à malandragem brasileira. Eles constituem uma oportuna homenagem ao país do mensalão. Já sob o critério da observância das regras, descem quadrado, quadrado.

 
 
 
 
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