Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Livros
Tirania doméstica

O relato de uma escritora que testemunhou
por dentro o atraso moral do Afeganistão


Jerônimo Teixeira


Desmond Boylan/Reuters
Mulher afegã com a tradicional burca: mesmo livres do Talibã, elas ainda vivem sob a opressão familiar

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Jornalista experimentada na cobertura de conflitos no Kosovo e na Chechênia, a norueguesa Asne Seierstad acompanhava a queda do regime fundamentalista do Talibã, em novembro de 2001, quando conheceu em Cabul o livreiro Shah Mohammed Rais. Educado, gentil, fluente em inglês, Rais era um herói cultural do Afeganistão. Dos invasores soviéticos aos obscurantistas do Talibã, sua livraria resistiu a sucessivos regimes de censura. Ele foi preso algumas vezes e teve seu estoque confiscado e queimado outras tantas. Asne supôs que Rais seria um ótimo personagem para um livro-reportagem sobre o país. Com a bênção do livreiro, a jornalista viveu quatro meses em sua casa. Foi quando descobriu que Rais, um liberal militante na livraria, era um tiranete em seu lar, subjugando a vontade de irmãs, filhos e esposas (assim mesmo, no plural: ele tem duas mulheres). Rais reclamou da maneira como sua intimidade foi devassada em O Livreiro de Cabul (tradução de Greke Skevic; Record; 320 páginas; 45,90 reais). Ameaçou processar Asne e até prometeu escrever um livro com sua versão da história. Chegou a declarar que O Livreiro de Cabul era uma ofensa não somente à sua honra, mas uma difamação de seu país como um todo. No entanto, Rais ofereceu poucas contestações ao fatos apresentados por Asne. O que parece ter incomodado os brios do livreiro foi o modo cru como a sociedade afegã foi retratada, em todo seu atraso moral.

Com mais de meio milhão de exemplares vendidos só na Escandinávia, O Livreiro de Cabul é a obra de não-ficção mais vendida da história da Noruega. No rastro dos protestos de Rais (cujo nome no livro foi trocado, na vã tentativa de proteger sua privacidade, para Sultan Khan), alguns jornais noruegueses criticaram Asne pelo suposto "etnocentrismo" com que a jornalista teria retratado a cultura afegã. "Não sou uma relativista cultural. A dor de uma mulher que apanha do marido não é menor só porque a cultura local aprova esse ato", disse a autora a VEJA. Embora a vigilância da polícia moral talibã já não vigore, as mulheres ainda são prisioneiras da opressão familiar. Saem pouco à rua, e muitas só o fazem ocultas sob a burca. Uma jovem honrada não deve jamais dirigir a palavra a um homem que não seja seu parente. É a família que decide com quem as mulheres vão se casar.

Asne tomou certas liberdades romanescas em O Livreiro de Cabul, imaginando as esperanças e frustrações de seus personagens. É uma pena que ela não tenha relatado com igual minúcia os próprios sentimentos enquanto morou no apartamento de Rais. Foram meses duros para a jornalista, que conviveu com as limitações de infra-estrutura de um país devastado por décadas de guerra civil. Água corrente e eletricidade só estavam disponíveis poucas horas por dia, e não havia rádio nem televisão no apartamento. "Eu me acostumei até com a falta de banho. Mas a imobilidade era o mais exasperante", diz Asne. "As mulheres passam o dia inteiro sentadas no chão, sem nada para fazer."

 

PRISÃO PARTICULAR


David Levenson/Getty Images
Asne Seierstad: a dor da mulher que apanha do marido é a mesma em qualquer cultura


"Como mulher ocidental, eu era vista como uma espécie de criatura bissexuada. Não era obrigada a seguir os severos códigos de vestimenta das mulheres afegãs. Mesmo assim, quase sempre vestia a burca, simplesmente para ser deixada em paz. (...) Com o tempo, comecei a odiá-la. A burca aperta e dá dor de cabeça. Enxerga-se mal através da rede bordada. É abafada e faz suar. É preciso tomar cuidado o tempo todo onde pisar, porque não podemos ver nossos pés. Era um alívio tirá-la ao chegar em casa."

Trecho de O Livreiro de Cabul

 
 
 
 
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