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Livros Tirania
doméstica O relato de uma escritora que
testemunhou por dentro o atraso moral do Afeganistão 
Jerônimo Teixeira
Desmond Boylan/Reuters  |
| Mulher afegã com a tradicional burca: mesmo livres
do Talibã, elas ainda vivem sob a opressão familiar |
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Jornalista experimentada
na cobertura de conflitos no Kosovo e na Chechênia, a norueguesa Asne Seierstad
acompanhava a queda do regime fundamentalista do Talibã, em novembro de
2001, quando conheceu em Cabul o livreiro Shah Mohammed Rais. Educado, gentil,
fluente em inglês, Rais era um herói cultural do Afeganistão.
Dos invasores soviéticos aos obscurantistas do Talibã, sua livraria
resistiu a sucessivos regimes de censura. Ele foi preso algumas vezes e teve seu
estoque confiscado e queimado outras tantas. Asne supôs que Rais seria um
ótimo personagem para um livro-reportagem sobre o país. Com a bênção
do livreiro, a jornalista viveu quatro meses em sua casa. Foi quando descobriu
que Rais, um liberal militante na livraria, era um tiranete em seu lar, subjugando
a vontade de irmãs, filhos e esposas (assim mesmo, no plural: ele tem duas
mulheres). Rais reclamou da maneira como sua intimidade foi devassada em O
Livreiro de Cabul (tradução de Greke Skevic; Record; 320
páginas; 45,90 reais). Ameaçou processar Asne e até prometeu
escrever um livro com sua versão da história. Chegou a declarar
que O Livreiro de Cabul era uma ofensa não somente à sua
honra, mas uma difamação de seu país como um todo. No entanto,
Rais ofereceu poucas contestações ao fatos apresentados por Asne.
O que parece ter incomodado os brios do livreiro foi o modo cru como a sociedade
afegã foi retratada, em todo seu atraso moral.
Com mais de meio milhão de exemplares vendidos só na Escandinávia,
O Livreiro de Cabul é a obra de não-ficção
mais vendida da história da Noruega. No rastro dos protestos de Rais (cujo
nome no livro foi trocado, na vã tentativa de proteger sua privacidade,
para Sultan Khan), alguns jornais noruegueses criticaram Asne pelo suposto "etnocentrismo"
com que a jornalista teria retratado a cultura afegã. "Não sou uma
relativista cultural. A dor de uma mulher que apanha do marido não é
menor só porque a cultura local aprova esse ato", disse a autora a VEJA.
Embora a vigilância da polícia moral talibã já não
vigore, as mulheres ainda são prisioneiras da opressão familiar.
Saem pouco à rua, e muitas só o fazem ocultas sob a burca. Uma jovem
honrada não deve jamais dirigir a palavra a um homem que não seja
seu parente. É a família que decide com quem as mulheres vão
se casar. Asne tomou certas liberdades
romanescas em O Livreiro de Cabul, imaginando as esperanças e frustrações
de seus personagens. É uma pena que ela não tenha relatado com igual
minúcia os próprios sentimentos enquanto morou no apartamento de
Rais. Foram meses duros para a jornalista, que conviveu com as limitações
de infra-estrutura de um país devastado por décadas de guerra civil.
Água corrente e eletricidade só estavam disponíveis poucas
horas por dia, e não havia rádio nem televisão no apartamento.
"Eu me acostumei até com a falta de banho. Mas a imobilidade era o mais
exasperante", diz Asne. "As mulheres passam o dia inteiro sentadas no chão,
sem nada para fazer."
| PRISÃO PARTICULAR
David Levenson/Getty Images  |
| Asne Seierstad: a dor da mulher que apanha do marido
é a mesma em qualquer cultura |
"Como mulher ocidental, eu era vista como uma espécie de criatura
bissexuada. Não era obrigada a seguir os severos códigos de vestimenta
das mulheres afegãs. Mesmo assim, quase sempre vestia a burca, simplesmente
para ser deixada em paz. (...) Com o tempo, comecei a odiá-la. A burca
aperta e dá dor de cabeça. Enxerga-se mal através da rede
bordada. É abafada e faz suar. É preciso tomar cuidado o tempo todo
onde pisar, porque não podemos ver nossos pés. Era um alívio
tirá-la ao chegar em casa."
Trecho
de O Livreiro de Cabul | | |