|
|
Televisão Novela
no Pelourinho Um promotor quer
obrigar Sinhá Moça a mudar o seu enfoque da história
da escravidão  Marcelo
Marthe Fotos
divulgação
 | | Sinhá
Moça: a escravidão de novo na mira, como nos tempos da censura
|
No último dia 9,
o Ministério Público da Bahia promoveu uma audiência pública
com estudiosos e representantes do movimento negro. O objetivo era reunir evidências
contra a novela das 6 da Rede Globo, Sinhá Moça. A refilmagem
do sucesso de 1986 do noveleiro Benedito Ruy Barbosa, que trata da luta abolicionista
no século XIX, é alvo de um inquérito civil da instituição.
A acusação: racismo. No entender do promotor Almiro de Sena Soares
Filho, Sinhá Moça transmite "uma idéia de inferiorização
da raça" ao apresentar cenas de "extrema humilhação física
e moral de homens, mulheres e crianças negras" como se os escravos
de verdade não tivessem sido submetidos a maus-tratos. O promotor assistiu
à novela poucas vezes. Mas o que viu nessas espiadelas mexeu com seus brios.
"Como cidadão negro, agrediu-me ver a escravidão reduzida a pano
de fundo de um romance com uma heroína branca", diz. Sua meta é
obrigar a Globo a fazer "correções" na trama.
Em sua cruzada contra o açucarado folhetim das 6, o promotor Soares Filho
decidiu interpelar a Globo e o autor Benedito Ruy Barbosa para averiguar se houve
"assessoria técnica" na criação de Sinhá Moça
(que é, vale lembrar, uma obra de ficção). Ele também
decidiu escalar dois historiadores para fazer uma perícia na novela, identificando
suas "distorções". O problema é que não existe consenso
entre os acadêmicos a respeito de inúmeros aspectos da escravidão
e do movimento abolicionista. O Ministério Público baiano reclama,
por exemplo, que os escravos de Sinhá Moça são mostrados
como figuras passivas, que deveram sua liberdade à atuação
de idealistas brancos. Ora, para o historiador Manolo Florentino, um dos grandes
especialistas no tema da escravidão, esse ponto de vista não tem
nada de irreal. "Se os negros tivessem agido como deseja esse pessoal, a escravidão
não teria durado quatro séculos", diz ele. Outro motivo de irritação
é que a novela apresenta um quilombo como "mero agrupamento de negros"
quando na verdade eles teriam sido "sociedades complexas". De fato, eram
tão complexos que 10% da população do famoso quilombo dos
Palmares vivia submetida a um cativeiro brutal, exatamente como fora dali. Será
que esse tipo de informação teria lugar numa novela reformulada
pela promotoria baiana?  | | Foguinho,
em Cobras & Lagartos: o personagem pode ser a próxima vítima
do MP baiano |
Sinhá
Moça ostenta uma média de ibope robusta, de 34 pontos. Chegou
aos 40 na semana passada, no embalo da estréia do Brasil na Copa. Justamente
por ser popular, merece que sua visão da história seja discutida.
A tentativa de modificá-la por meio de um processo legal, no entanto, é
de uma infelicidade ímpar. Trata-se de uma daquelas asneiras de inspiração
politicamente correta que acabam se avizinhando do autoritarismo. Aliás,
a última vez em que a escravidão mobilizou a censura foi durante
a ditadura militar. O alvo da ocasião foi a novela Escrava Isaura. "O
regime considerava o assunto incômodo. Obrigou o autor Gilberto Braga a
utilizar toda espécie de eufemismo no lugar da palavra 'escravo'.", lembra
o especialista em história das telenovelas Mauro Alencar. E a Globo que
se prepare, porque o MP baiano já tem outro alvo em mira: Foguinho, personagem
do ator Lázaro Ramos na novela das 7, Cobras & Lagartos. Em
vez de festejar um raro folhetim com protagonista negro, o promotor se diz indignado
com as situações de "humilhação" vividas pelo malandro.
|