Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Novela no Pelourinho

Um promotor quer obrigar Sinhá Moça a mudar
o seu enfoque da história da escravidão


Marcelo Marthe

 

Fotos divulgação
Sinhá Moça: a escravidão de novo na mira, como nos tempos da censura

No último dia 9, o Ministério Público da Bahia promoveu uma audiência pública com estudiosos e representantes do movimento negro. O objetivo era reunir evidências contra a novela das 6 da Rede Globo, Sinhá Moça. A refilmagem do sucesso de 1986 do noveleiro Benedito Ruy Barbosa, que trata da luta abolicionista no século XIX, é alvo de um inquérito civil da instituição. A acusação: racismo. No entender do promotor Almiro de Sena Soares Filho, Sinhá Moça transmite "uma idéia de inferiorização da raça" ao apresentar cenas de "extrema humilhação física e moral de homens, mulheres e crianças negras" – como se os escravos de verdade não tivessem sido submetidos a maus-tratos. O promotor assistiu à novela poucas vezes. Mas o que viu nessas espiadelas mexeu com seus brios. "Como cidadão negro, agrediu-me ver a escravidão reduzida a pano de fundo de um romance com uma heroína branca", diz. Sua meta é obrigar a Globo a fazer "correções" na trama.

Em sua cruzada contra o açucarado folhetim das 6, o promotor Soares Filho decidiu interpelar a Globo e o autor Benedito Ruy Barbosa para averiguar se houve "assessoria técnica" na criação de Sinhá Moça (que é, vale lembrar, uma obra de ficção). Ele também decidiu escalar dois historiadores para fazer uma perícia na novela, identificando suas "distorções". O problema é que não existe consenso entre os acadêmicos a respeito de inúmeros aspectos da escravidão e do movimento abolicionista. O Ministério Público baiano reclama, por exemplo, que os escravos de Sinhá Moça são mostrados como figuras passivas, que deveram sua liberdade à atuação de idealistas brancos. Ora, para o historiador Manolo Florentino, um dos grandes especialistas no tema da escravidão, esse ponto de vista não tem nada de irreal. "Se os negros tivessem agido como deseja esse pessoal, a escravidão não teria durado quatro séculos", diz ele. Outro motivo de irritação é que a novela apresenta um quilombo como "mero agrupamento de negros" – quando na verdade eles teriam sido "sociedades complexas". De fato, eram tão complexos que 10% da população do famoso quilombo dos Palmares vivia submetida a um cativeiro brutal, exatamente como fora dali. Será que esse tipo de informação teria lugar numa novela reformulada pela promotoria baiana?

 

Foguinho, em Cobras & Lagartos: o personagem pode ser a próxima vítima do MP baiano

Sinhá Moça ostenta uma média de ibope robusta, de 34 pontos. Chegou aos 40 na semana passada, no embalo da estréia do Brasil na Copa. Justamente por ser popular, merece que sua visão da história seja discutida. A tentativa de modificá-la por meio de um processo legal, no entanto, é de uma infelicidade ímpar. Trata-se de uma daquelas asneiras de inspiração politicamente correta que acabam se avizinhando do autoritarismo. Aliás, a última vez em que a escravidão mobilizou a censura foi durante a ditadura militar. O alvo da ocasião foi a novela Escrava Isaura. "O regime considerava o assunto incômodo. Obrigou o autor Gilberto Braga a utilizar toda espécie de eufemismo no lugar da palavra 'escravo'.", lembra o especialista em história das telenovelas Mauro Alencar. E a Globo que se prepare, porque o MP baiano já tem outro alvo em mira: Foguinho, personagem do ator Lázaro Ramos na novela das 7, Cobras & Lagartos. Em vez de festejar um raro folhetim com protagonista negro, o promotor se diz indignado com as situações de "humilhação" vividas pelo malandro.

 
 
 
 
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