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Cultura O
jogo sujo do poder Duas montagens
de Ricardo III, a peça em que Shakespeare mostrou a política
em seu estado mais vil  Carlos
Graieb Fotos
divulgação
 |  | | Marco
Ricca no papel do monarca inglês: um toque ameaçador | A
interpretação de Celso Frateschi para Ricardo III: vilão
caviloso |
Ricardo
III é uma das peças mais encenadas de William Shakespeare (1564-1616),
e o Brasil faz, neste momento, duas novas contribuições à
sua extensa galeria de montagens. Um dos espetáculos em cartaz em São
Paulo teve o texto adaptado pelo ator Celso Frateschi, que também interpreta
o rei. O outro traz Marco Ricca no papel central, numa adaptação
que ficou a cargo do polivalente Jô Soares. O interesse contínuo
despertado por Ricardo III se deve, antes de mais nada, ao seu personagem-título.
Um dos mais formidáveis vilões da literatura, ele possui um corpo
disforme e um intelecto ágil, que emprega a serviço da maldade.
O segundo motivo que torna a peça atraente para atores e platéias,
sobretudo em momentos de crise, é o seu retrato ácido do jogo do
poder. Shakespeare fez da política um de seus temas centrais. Questões
como a harmonia do Estado, as virtudes de um governante e os males da guerra civil
se insinuam até mesmo em suas comédias. Em Ricardo III, contudo,
a política se resume ao seu formato mais vil. Significa apenas violência,
mentira e corrupção.
Há uma disputa em torno da figura histórica de Ricardo III. Sociedades
de "amigos do rei" afirmam que o nobre sanguinário retratado por Shakespeare
pouco tem a ver com a realidade. Ricardo, dizem seus defensores, não foi
um horrendo aleijão. Não tinha um braço atrofiado e não
veio ao mundo já cheio de dentes, pronto para morder como um cachorro.
Ele certamente não cometeu alguns dos crimes que lhe são atribuídos,
e há dúvida em relação a outros (veja
o quadro). Sua péssima reputação seria fruto
de uma campanha patrocinada pela dinastia Tudor, que o derrubou do trono em 1485.
Historiadores ligados aos Tudor teriam dado início ao processo de difamação
que Shakespeare arrematou com sua peça de 1591. Esse debate não
deve acabar nunca. Ricardo não foi um santo, mas a dimensão exata
de sua falta de escrúpulos continuará em aberto, porque não
há evidências conclusivas a respeito de seus feitos. O que é
certo é que o monarca apresentado pela peça Ricardo III foi
a primeira grande criação dramática de Shakespeare. O fato
de essa criação competir até hoje com a "verdade" histórica
é um atestado de sua força.
 | | Ricardo
III: reputação duvidosa |
O
Ricardo aleijado de Shakespeare sugere que suas maldades decorrem do ressentimento:
"Eu, que fui construído às pressas por uma natureza descuidada...
me dedico a ser o mais canalha dos canalhas". Diante de discursos como esse, Sigmund
Freud interpretou o personagem em termos psicanalíticos. "Todos cremos
ter razões para culpar o destino por desvantagens inatas; todos queremos
reparação por feridas infligidas muito cedo ao nosso amor-próprio",
escreveu ele. Ricardo, contudo, não é um pobre-diabo que se arrasta
sob o peso da corcunda. Ele vibra com suas intrigas e tem prazer em suas maquinações.
Isso faz dele um bufão, um genial mentiroso, e também um sedutor.
O crítico William Hazlitt afirmou
certa vez que toda encenação estraga as peças de Shakespeare.
As duas montagens brasileiras de Ricardo III são esforços
corajosos de fazer justiça ao poeta inglês. Nenhuma delas tenta "modernizá-lo"
de maneira boba. As adaptações buscam trazer a peça a dimensões
manejáveis (já que, inteira, ela levaria algo em torno de seis horas
para ser encenada) e dar clareza a um enredo complicado. Frateschi faz um vilão
caviloso, enquanto Ricca lhe dá um toque mais ameaçador. O que falta
às duas montagens é ressaltar que, embora Ricardo seja o centro
de gravidade absoluto da peça, o mundo em torno dele também se encontra
em estágio avançado de decomposição. Não foi
à toa que a melhor adaptação cinematográfica de Ricardo
III aquela dirigida por Richard Loncraine em 1995, com Ian McKelen
no papel principal ambientou a história numa corte decadente e de
ar totalitário. Insistir nesse
detalhe é importante. Só quando se percebe que o mundo de Ricardo
está à beira do apocalipse, e que todos os que o cercam são
corrompidos de alguma forma, a peça alcança coerência total.
É somente a essa luz, por exemplo, que se torna verossímil a cena
extraordinária de conquista em que Ricardo, que matou o sogro e o marido
de Lady Anne, consegue convencê-la a se casar com ele, ainda em meio ao
luto. É somente a essa luz, também, que se percebe o desafio sempre
atual que a peça lança à platéia. Como os críticos
não cansam de repetir, o alvo mais constante da sedução de
Ricardo é o próprio espectador, a quem ele se dirige repetidas vezes.
A pergunta irônica de Shakespeare é: num mundo em que todos vão
mergulhando no horror, arrastados pelo vilão ou vítimas de suas
próprias ambições, será que você é
capaz de resistir? |