Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Cultura
O jogo sujo do poder

Duas montagens de Ricardo III,
a peça em que Shakespeare mostrou
a política em seu estado mais vil


Carlos Graieb

 
Fotos divulgação
Marco Ricca no papel do monarca inglês: um toque ameaçador A interpretação de Celso Frateschi para Ricardo III: vilão caviloso


NESTA REPORTAGEM
Quadro: O rei da discórdia

EXCLUSIVO ON-LINE
Outras imagens
Entrevista com Marco Ricca
Entrevista com Celso Frateschi
Vídeo de Ricardo III, Teatro Faap: 56K | 100K | 200K

Ricardo III é uma das peças mais encenadas de William Shakespeare (1564-1616), e o Brasil faz, neste momento, duas novas contribuições à sua extensa galeria de montagens. Um dos espetáculos em cartaz em São Paulo teve o texto adaptado pelo ator Celso Frateschi, que também interpreta o rei. O outro traz Marco Ricca no papel central, numa adaptação que ficou a cargo do polivalente Jô Soares. O interesse contínuo despertado por Ricardo III se deve, antes de mais nada, ao seu personagem-título. Um dos mais formidáveis vilões da literatura, ele possui um corpo disforme e um intelecto ágil, que emprega a serviço da maldade. O segundo motivo que torna a peça atraente para atores e platéias, sobretudo em momentos de crise, é o seu retrato ácido do jogo do poder. Shakespeare fez da política um de seus temas centrais. Questões como a harmonia do Estado, as virtudes de um governante e os males da guerra civil se insinuam até mesmo em suas comédias. Em Ricardo III, contudo, a política se resume ao seu formato mais vil. Significa apenas violência, mentira e corrupção.

Há uma disputa em torno da figura histórica de Ricardo III. Sociedades de "amigos do rei" afirmam que o nobre sanguinário retratado por Shakespeare pouco tem a ver com a realidade. Ricardo, dizem seus defensores, não foi um horrendo aleijão. Não tinha um braço atrofiado e não veio ao mundo já cheio de dentes, pronto para morder como um cachorro. Ele certamente não cometeu alguns dos crimes que lhe são atribuídos, e há dúvida em relação a outros (veja o quadro). Sua péssima reputação seria fruto de uma campanha patrocinada pela dinastia Tudor, que o derrubou do trono em 1485. Historiadores ligados aos Tudor teriam dado início ao processo de difamação que Shakespeare arrematou com sua peça de 1591. Esse debate não deve acabar nunca. Ricardo não foi um santo, mas a dimensão exata de sua falta de escrúpulos continuará em aberto, porque não há evidências conclusivas a respeito de seus feitos. O que é certo é que o monarca apresentado pela peça Ricardo III foi a primeira grande criação dramática de Shakespeare. O fato de essa criação competir até hoje com a "verdade" histórica é um atestado de sua força.

Ricardo III: reputação duvidosa

O Ricardo aleijado de Shakespeare sugere que suas maldades decorrem do ressentimento: "Eu, que fui construído às pressas por uma natureza descuidada... me dedico a ser o mais canalha dos canalhas". Diante de discursos como esse, Sigmund Freud interpretou o personagem em termos psicanalíticos. "Todos cremos ter razões para culpar o destino por desvantagens inatas; todos queremos reparação por feridas infligidas muito cedo ao nosso amor-próprio", escreveu ele. Ricardo, contudo, não é um pobre-diabo que se arrasta sob o peso da corcunda. Ele vibra com suas intrigas e tem prazer em suas maquinações. Isso faz dele um bufão, um genial mentiroso, e também um sedutor.

O crítico William Hazlitt afirmou certa vez que toda encenação estraga as peças de Shakespeare. As duas montagens brasileiras de Ricardo III são esforços corajosos de fazer justiça ao poeta inglês. Nenhuma delas tenta "modernizá-lo" de maneira boba. As adaptações buscam trazer a peça a dimensões manejáveis (já que, inteira, ela levaria algo em torno de seis horas para ser encenada) e dar clareza a um enredo complicado. Frateschi faz um vilão caviloso, enquanto Ricca lhe dá um toque mais ameaçador. O que falta às duas montagens é ressaltar que, embora Ricardo seja o centro de gravidade absoluto da peça, o mundo em torno dele também se encontra em estágio avançado de decomposição. Não foi à toa que a melhor adaptação cinematográfica de Ricardo III – aquela dirigida por Richard Loncraine em 1995, com Ian McKelen no papel principal – ambientou a história numa corte decadente e de ar totalitário.

Insistir nesse detalhe é importante. Só quando se percebe que o mundo de Ricardo está à beira do apocalipse, e que todos os que o cercam são corrompidos de alguma forma, a peça alcança coerência total. É somente a essa luz, por exemplo, que se torna verossímil a cena extraordinária de conquista em que Ricardo, que matou o sogro e o marido de Lady Anne, consegue convencê-la a se casar com ele, ainda em meio ao luto. É somente a essa luz, também, que se percebe o desafio sempre atual que a peça lança à platéia. Como os críticos não cansam de repetir, o alvo mais constante da sedução de Ricardo é o próprio espectador, a quem ele se dirige repetidas vezes. A pergunta irônica de Shakespeare é: num mundo em que todos vão mergulhando no horror, arrastados pelo vilão ou vítimas de suas próprias ambições, será que você é capaz de resistir?

 
 
 
 
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