Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Cinema
Um Poseidon que
não naufraga

A refilmagem de Wolfgang Petersen para o
clássico do desastre não brilha, mas diverte


Isabela Boscov

EXCLUSIVO ON-LINE
Imagens do filme

DA INTERNET
Trailer 1
Trailer 2

Na década de 70, o cinema assistiu ao nascimento de uma nova realeza, encabeçada por Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e Brian De Palma. E, no entanto, foi ao inexpressivo Ronald Neame, o diretor de O Destino do Poseidon, que coube bolar uma das cenas mais célebres do período: aquela em que a veterana e rechonchuda Shelley Winters prende o nariz e mergulha, de calçolas, no abismo em que se transformou um navio de cruzeiro, a fim de salvar a vida de seus companheiros. Poseidon (Estados Unidos, 2006), a refilmagem que estréia nesta sexta-feira no país, infelizmente teve de se virar sem Shelley, que morreu em janeiro deste ano, e não contabiliza nenhuma cena destinada a se tornar antológica. Mas, nos limites do que o cinema-catástrofe se propõe, é um entretenimento muito mais bem costurado do que, por exemplo, Mar em Fúria, dirigido pelo mesmo Wolfgang Petersen.

Como no filme de 1972, um imenso navio de lazer emborca por causa de uma onda gigante, vinda do nada. A maioria dos que sobrevivem a essa primeira tragédia permanece no salão de baile – que, segundo o equivocado capitão, é capaz de resistir à pressão da água pelo tempo necessário para a chegada de algum socorro. Um pequeno grupo decide galgar um andar atrás do outro, rumo ao casco e a uma saída, antes que a embarcação afunde. Ao contrário do original, rodado em tempos lentos, o novo Poseidon não perde mais do que cinco ou dez minutos apresentando os personagens e seus dramas (até porque aqui não há ninguém que valha a pena conhecer). O negócio de Petersen é virar o navio logo, para jogar no labirinto escuro que o Poseidon se tornou sua gangue de aventureiros – formada inicialmente por Kurt Russell, Richard Dreyfuss, Josh Lucas, Kevin Dillon, a argentina Mía Maestro e alguns outros atores menos ilustres, e fadada, claro, a diminuir a cada obstáculo transposto.

É improvável que Petersen, de 65 anos, venha a igualar o feito que o tornou conhecido fora da Alemanha – o magnífico O Barco – Inferno no Mar, no qual a tripulação de um submarino nazista tentava sobreviver às avarias de sua embarcação e à guerra de personalidades imposta pela tensão. Mas, se desde então ele nunca mais conseguiu atingir o mesmo nível de dramaticidade, ao menos preservou a perícia para trabalhar com dois elementos que, mesmo separados um do outro, a maioria dos diretores considera indomáveis: a água e os espaços confinados. Poseidon é uma bela demonstração dessa sua visão arquitetônica do perigo. Onde outros cineastas menos qualificados optariam por enquadramentos fechados e cortes rápidos, para ocultar defeitos, ele amplia prazerosamente o quadro e se demora na construção das cenas: não há mesmo nada a esconder no seu cenário ou na maneira como ele coreografa a ação. Pode parecer pouco, mas Petersen faz a platéia entender o trajeto dos personagens dentro do navio – e não há nenhuma outra aventura recente feita nesse espírito B da qual se possa dizer o mesmo.

À exceção da enjoada Emmy Rossum, de O Fantasma da Ópera, o elenco responde bem à artesania velha-guarda de Petersen – ou, talvez, ao seu sadismo, já que o diretor é conhecido por não poupar seus atores dos incômodos de filmagens molhadas e geladas. "O desconforto é o segredo: instintivamente, os atores reagem a ele em grupo. Se um recua de uma tomada mais arriscada, todos os outros hesitam. Se alguém sai na frente, todos correm atrás para imitá-lo, mais ou menos como se esperaria de pessoas que não se conhecem e estivessem enfrentando juntas uma situação desesperadora", disse Petersen a VEJA. Essa "direção de resultados" faz bem a Poseidon: nada de presunção, pretensão ou supostos estudos de personagens, e muita aventura e algum suspense, é o que ele tem a oferecer.

 
 
 
 
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