Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Saúde
A aids perde velocidade

Pela primeira vez, em 25 anos de história
da doença, o ritmo da epidemia caiu


Giuliana Bergamo

NESTA REPORTAGEM
Quadro: O mapa da epidemia

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Dia: Aids

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Aids, mais perto da cura (10/7/1996)
Dormindo com o inimigo (28/10/1998)

A aids faz 25 anos em 2006. Sua cura está longe de ser descoberta e o vírus HIV, causador da doença, permanece uma ameaça em todos os continentes. Há, no entanto, uma notícia que propicia certo otimismo: pela primeira vez foi registrada uma queda na velocidade de propagação do HIV. Entre 2001 e 2005, meio milhão de pessoas em todo o mundo deixaram de ser infectadas – o que representa uma queda de mais de 17% no ritmo da epidemia. Até na África, que sempre abrigou os piores cenários da doença, alguns países mostram uma redução na porcentagem de portadores do vírus. Isso só foi possível graças à intensificação dos programas de prevenção e educação dos portadores, aliada à universalização dos tratamentos mais efetivos. A diminuição global da porcentagem de infectados poderia ser maior não fossem países como Índia, China e Rússia, que hoje passam por uma situação semelhante à dos primórdios da epidemia na África. "A aids não é mais um problema da ciência ou da medicina", diz o sanitarista Mario Scheffer, da ONG Pela Vidda. "A epidemia só não está controlada por problemas políticos, econômicos e sociais." Descontado o exagero da afirmação, a verdade é que atualmente estão disponíveis remédios e conhecimento eficazes o bastante para transformar a aids em uma doença crônica e, assim, mantê-la sob controle. A grande dificuldade é levar esse arsenal a todas as pessoas que precisam dele.

O último relatório da Unaids, o programa das Nações Unidas para a aids, destaca as conquistas de países localizados na África Subsaariana, que abriga o pior foco da epidemia. Lá, programas de educação e prevenção resultaram na mudança de comportamento sexual, como a redução do número de parceiros, e no uso mais difundido de preservativos. Em alguns desses países, o uso de camisinhas já chega a 70% da população masculina. Resultado: países como Quênia e Zimbábue conseguiram estabilizar ou diminuir a porcentagem de infectados. "As conquistas são animadoras, mas ainda precisamos combater o preconceito, a discriminação e difundir a prevenção e o tratamento", disse a VEJA Karen Stanecki, consultora da Unaids em Genebra.


Ray Stubblebine/Reuters
O americano Magic Johnson: quinze anos de convivência com o HIV


O primeiro remédio anti-HIV, o AZT, surgiu em 1986. Na época, o medicamento era usado isoladamente, perdia a eficácia de forma muito rápida e, por isso, os pacientes viviam apenas cerca de um ano com a doença. Só em meados da década passada, com a criação do coquetel anti-HIV, que dispõe de pelo menos três substâncias diferentes para combater o vírus em suas diversas fases, os médicos atingiram a meta de recuperar a capacidade do sistema imunológico e prolongar a vida do paciente por tempo indeterminado. Um bom exemplo do sucesso desse tipo de tratamento é o caso do jogador de basquete americano Magic Johnson. Quando se descobriu que ele era soropositivo, em 1991, muitos pensaram que seria o fim não só da carreira mas da vida do jogador. Cinco anos mais tarde, Johnson começou a tomar o coquetel anti-HIV e até hoje não manifestou a doença. No Brasil, desde 1996, quando os remédios passaram a ser distribuídos gratuitamente a toda a população doente, conseguiu-se reduzir em um terço o número de mortes pela doença. Outro exemplo do sucesso da distribuição desses remédios é Uganda. Lá, onde a epidemia se mantém estável, a quantidade de pessoas infectadas (portadores de HIV e doentes de aids) que recebem os remédios saltou de 6% para 56% em apenas dois anos.

Nos próximos anos, novas substâncias devem chegar ao mercado para incrementar esse arsenal (veja quadro). Apesar dos avanços, a distribuição de medicamentos ainda é insuficiente. Em 2000, a Unaids tinha como meta atender 3 milhões de pessoas em cinco anos. Hoje, apenas 1,3 milhão de pacientes são atendidos. Mesmo assim, para se ter uma idéia do impacto da oferta de remédios anti-HIV sobre as taxas de mortalidade pela doença, basta dizer que, graças a essa distribuição, foi possível salvar 300.000 vidas no ano passado.

Até hoje o HIV já infectou mais de 65 milhões de pessoas e matou 25 milhões delas. Mesmo com estatísticas assustadoras, autoridades de vários países ignoram a ameaça e preferem esconder a doença. Com isso, a aids se espalha em determinadas regiões sem encontrar nenhuma barreira. Na Rússia, o número de novos casos quase quadruplicou desde o ano 2000. Na China, em meados dos anos 90, enquanto praticamente o mundo todo já fazia testes anti-HIV bastante eficazes em bancos de sangue, milhares de pessoas foram infectadas durante coletas ilegais. Em algumas vilas rurais, quase 80% da população se infectou dessa forma. Mesmo assim, só recentemente o governo chinês reconheceu a gravidade da situação – e as ações continuam ineficientes. Para se ter uma idéia de quão rudimentares são elas, as informações oficiais da China contabilizam apenas 650.000 portadores do HIV, quando, de acordo com organizações internacionais, o número de infectados naquele país ultrapassa 1 milhão. É principalmente por causa de condições como essa que a aids não está domada em definitivo.

 

 
 
 
 
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