Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Tecnologia
A última travessura

Adolescentes usam toque de celular numa
freqüência que muitos adultos não escutam


Leoleli Camargo

 

Há muito as escolas decretaram que telefone celular só entra em sala de aula desligado e, de preferência, guardado bem no fundo da mochila. É compreensível. Não faz sentido que a lição seja interrompida pela versão digitalizada do último sucesso de Britney Spears – ou por coisa ainda pior. Agora, um grupo de adolescentes ingleses descobriu uma maneira engenhosa de burlar essa norma. Eles criaram um toque de celular, semelhante a um apito, que a maioria dos adultos não consegue ouvir. Com isso, podem receber avisos de mensagens armazenadas no celular, ou até mesmo chamadas, sem que a professora se dê conta da infração cometida bem à sua frente. O segredo está na freqüência sonora em que o toque é executado: 17 quilohertz, o que resulta num som extremamente agudo. A ciência ensina que a perda gradativa da audição decorrente da idade, ou presbiacusia, começa com a menor percepção dos tons mais altos do espectro sonoro. O toque criado pelos garotos ingleses encontra-se justamente numa faixa do espectro que não é percebida pela maioria das pessoas com mais de 29 anos (veja o quadro). "Em geral, não se percebe essa perda ao longo da vida porque poucos sons que ouvimos no dia-a-dia são emitidos em freqüências tão altas", explica o otorrinolaringologista Ricardo Bento, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O novo toque de celular já chegou aos adolescentes americanos – via internet, evidentemente – e deve se disseminar ainda mais. O nome do inventor da travessura ainda é um mistério, mas sabe-se que ele se baseou num aparelho chamado Mosquito, lançado no ano passado por uma empresa de sistemas de segurança inglesa, a Compound. Por ironia, o Mosquito é um dispositivo para afugentar adolescentes que ficam perambulando em frente a lojas, fazendo balbúrdia e atrapalhando o movimento de clientes. O aparelho emite um apito agudo de 17 quilohertz de freqüência, incômodo para quem tem menos de 18 anos – e inaudível para quem tem mais de 30. Depois de poucos minutos, o ruído se torna tão irritante que a garotada vai aprontar em outra freguesia.

O engenheiro Howard Stapleton, sócio da Compound e criador do Mosquito, não tem idéia de como sua invenção virou toque de celular. "É provável que algum jovem mais criativo tenha usado um computador doméstico para pirateá-lo", disse ele a VEJA. Segundo Stapleton, o som usado nos celulares não é o mesmo do aparelho, mas é bastante parecido. Aproveitando as atenções voltadas para sua empresa, Stapleton lançou um toque de celular igualzinho ao do Mosquito, que se encontra à venda no site da Compound. Mesmo que não fature muito com a venda do toque, a empresa já está no lucro: acaba de assinar contrato com uma companhia americana para produzir e distribuir o repelente de adolescentes em escala planetária. Tudo com a ajuda da garotada disposta a enganar a professora.

 

 
 
 
 
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