Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Copa
Os pastores dos campos

Eles não fazem parte da comissão
técnica, mas também instruem seus
jogadores. É o time do Evangelho


André Fontenelle, de Berlim

 
André Fontenelle
Lemy Martins
Alex Dias Ribeiro (à esq. e na foto à dir. , nos tempos de piloto) e Anselmo Reichardt: a fé de Davi que vence o gigante Golias

Às vésperas de cada partida do Brasil na Copa, dois batistas entram discretamente na concentração e se reúnem com um grupo de jogadores. Nessas reuniões sempre é discutido um trecho da Bíblia e como ele se aplica à vida dos craques e à disputa pelo título mundial. O time de evangélicos no elenco de Parreira é grande. Inclui Kaká, Zé Roberto, Lúcio, Cris, Gilberto, Luisão e Mineiro. Todos costumam participar dos encontros religiosos nos hotéis em que se hospedam na Alemanha.

Os evangélicos são o pastor paranaense Anselmo Reichardt, de 47 anos, e o mineiro Alex Dias Ribeiro, de 57, ambos ex-esportistas. Reichardt foi ponta-direita do Atlético Paranaense nos anos 80 e Dias Ribeiro, piloto de Fórmula 1 na década de 70. Os dois são pioneiros dos Atletas de Cristo, entidade criada há duas décadas com o objetivo de "promover por todos os meios a proclamação do Evangelho através do esporte". Já nos tempos de piloto, Dias Ribeiro disputava grandes prêmios com a inscrição "Cristo salva", em inglês ou português, no capacete ou no carro de corrida.

A relação entre os evangélicos e a seleção é antiga. Nos anos 80, o goleiro João Leite, do Atlético Mineiro, tornou-se um dos primeiros a usar o futebol para divulgar sua fé. Na seleção tetracampeã de 1994, o evangélico mais notório era o lateral Jorginho, hoje presidente dos Atletas de Cristo. No início do ano, quando era técnico do América do Rio de Janeiro, Jorginho trocou o símbolo do clube – um capeta, vade retro! – por uma águia. "O diabo é o maior perdedor da história", explicou. O América não ganha o campeonato carioca desde 1960. Neste ano, exorcizado o demônio, chegou às semifinais pela primeira vez em duas décadas. Na seleção brasileira, o contato entre os pastores e os jogadores surgiu por intermédio do zagueiro Lúcio, cujo empresário conhecia Reichardt.

 

Patrik Stollarz/AFP
Zé Roberto e a religião: "alimentar a carne e o espírito"

As reuniões não ocorrem apenas na véspera dos jogos. Pelo menos quatro foram realizadas no hotel de Königstein onde a seleção permaneceu até sexta-feira. Toma-se o cuidado de não atrapalhar a programação do time. "Só nos encontramos em horas livres, pela manhã, com autorização do professor Parreira", conta Reichardt. O técnico da seleção já declarou que a religiosidade de parte dos jogadores não interfere em seu trabalho. Por isso, autorizou os encontros. Em cada um deles estuda-se um trecho diferente das Escrituras. Recentemente, por exemplo, tratou-se do primeiro livro de Samuel, que narra a luta entre Davi e Golias. "Golias foi para a batalha confiando somente em si, enquanto Davi estava bem treinado, mas também confiava em Deus", afirma Reichardt. Na recém-lançada versão da Bíblia dos Atletas de Cristo, Davi diz a Golias: "Você vem contra mim com espada, lança e dardo. Mas eu vou contra você em nome do Senhor Todo-Poderoso". A lição desse confronto, segundo Reichardt, se aplica a situações como a vivida na estréia da seleção contra a Croácia – embora, a rigor, o Brasil esteja nesta Copa mais para Golias do que para Davi.

Coincidência ou não, os evangélicos Kaká, Lúcio e Zé Roberto destacaram-se na vitória por 1 a 0. "A palavra e a vida de Jesus nos ensinam a ajudar uns aos outros nos momentos difíceis", acredita Zé Roberto, que joga na Alemanha e assinou uma autobiografia, Traumpass ins Leben (algo como Passe de Craque para a Vida), sobre a importância da fé para sua carreira. "Assim como o ser humano precisa alimentar a carne, para ser forte também se deve alimentar o espírito", prega.

Com reportagem de Letícia Sorg

 
 
 
 
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