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Copa Assim
chegamos ao hexa?
Fora de forma, com
a saúde abalada e desmotivado, Ronaldo vive uma semana decisiva
para seu futuro e o da seleção
 André
Fontenelle, de Königstein Odd
Andersen/AFP
 | | O
atacante contra a Croácia: apenas um chute a gol e ironias até do cauteloso Franz
Beckenbauer |
Em seu best-seller de auto-ajuda,
Formando Equipes Vencedoras, o técnico da seleção
brasileira, Carlos Alberto Parreira, afirma: "O ser humano tira forças
que não sabe de onde vêm, que nem sequer sabe que tem, quando se
depara com uma situação-limite". O atacante Ronaldo está
diante dela. Sua posição como titular absoluto do Brasil na Copa
do Mundo ficou ameaçada depois da constrangedora atuação
contra a Croácia, em Berlim, na partida de estréia. Parreira anunciou
que escalaria Ronaldo no jogo seguinte, contra a Austrália, no domingo
18, em Munique. Em várias ocasiões nos últimos dias, no entanto,
o treinador deu a entender com a habitual prudência que o desempenho em
campo seria determinante para seu futuro como camisa 9. "Ronaldo estava realmente
fora de sintonia contra a Croácia", admitiu. "É uma oportunidade
que nós estamos dando para que ele se recupere."
Em entrevista a VEJA um mês antes da Copa do Mundo, Ronaldo se dizia inquieto
exatamente com sua forma. "O que mais me preocupa, visto o ano que eu tive, é
a minha parte física, a minha saúde", disse então. Durante
o campeonato espanhol, ele sofreu quatro lesões. A última da série,
às vésperas do Mundial, levou-o a ficar um mês sem treinar.
Ronaldo já previa uma fase de preparação atribulada: "A gente
vai ter três semanas para treinar muito, ficar bem, para não ter
nenhum problema físico na Copa". Só não poderia prever que
enfrentaria tantos problemas antes disso. A seqüência de más
notícias em torno dele começou logo no primeiro dia da fase de preparação,
no fim de maio, quando os 23 jogadores foram submetidos a exames físicos.
Esses testes revelaram o que era visível a olho nu: peso e taxa de gordura
acima do normal. A comissão técnica mantém os resultados
em sigilo. Uma pessoa próxima ao jogador afirma que, no auge do excesso
de peso, ele chegou aos 92 quilos. Há quem calcule um pouco mais (veja
reportagem). No máximo, ele deveria ter 87 quilos. O ideal
seriam 84. Nas últimas três semanas, a cada sessão de treinamento,
Ronaldo teve de correr de 1 a 2 quilômetros, vestindo um agasalho mesmo
nos dias quentes, para acelerar a perda de peso. As três semanas não
foram suficientes para colocá-lo em forma. O preparador físico da
seleção, Moraci Sant'Anna, recusa-se a prognosticar quando o jogador
estará 100%. "O mais rápido possível", limita-se a dizer.
Marcelo
Regua/AE
 | | Parreira:
decisão difícil nas mãos |
Vieram então as já famosas bolhas que o fizeram jogar apenas
45 minutos do amistoso contra a Nova Zelândia, em Genebra. Quatro dias depois,
uma sinusite tirou Ronaldo do treino. Foi tratada com um antibiótico, um
antiinflamatório e um analgésico. Já nessa ocasião
ele havia se queixado de tontura, mas voltou a treinar no dia seguinte. Na estréia
da seleção na Copa, na terça-feira passada, teve uma atuação
patética. À parte um chute perigoso no começo do segundo
tempo, mal correu atrás da bola. "Ronaldo? Ele chegou a jogar?", ironizou
o ex-craque Franz Beckenbauer, presidente do comitê organizador da Copa,
que estava na tribuna de honra do Estádio Olímpico de Berlim. "Poucos
minutos depois do início da partida, eu me dei conta de que algo estava
faltando", contou Ronaldo em um artigo para o diário espanhol El Mundo.
"Senti-me incomodado no gramado." Seu fiasco só não se refletiu
no placar porque um chute certeiro de Kaká garantiu a vitória do
Brasil por 1 a 0. No dia seguinte
ao da partida, ao pular da cama, Ronaldo sentiu tontura pela segunda vez. Queixou-se
ao médico da seleção, José Luiz Runco. Os dois almoçaram
e, cumpridas seis horas de jejum, seguiram para o hospital Zum Heiligen Geist,
em Frankfurt, onde o atacante foi submetido a uma endoscopia, exame em que uma
microcâmera é introduzida no aparelho gástrico, para detectar
uma eventual gastrite. Também foram feitas tomografias do crânio
e dos seios da face, uma forma de investigar se havia sinusite ou mais
remotamente um tumor cerebral ou aneurisma. Os exames nada acusaram, restando
portanto a hipótese de uma causa emocional. O médico da seleção,
que é ortopedista, se disse incapaz de confirmá-la. Falta de motivação?
Problemas com a namorada? Ciúme de Ronaldinho Gaúcho, alvo da maioria
das atenções? Especulou-se de tudo. Nas entrevistas, Ronaldo não
dá sinais de apatia, mas no penúltimo treino antes do jogo contra
a Austrália, na sexta-feira à tarde, pouco participou dos exercícios
e mal conversou com os companheiros. O técnico Parreira, cujas palestras
sobre motivação se tornaram requisitadas no meio empresarial, reconheceu
nas entrelinhas que o problema da estrela tem a ver com vontade de jogar. "O que
nós queremos é o Ronaldo motivado para o segundo jogo", explicou.
Alex
Livesey/Getty Images
 | | Kaká
comemora o gol que garantiu a vitória na estréia: a seleção tem talentos suficientes
no campo e no banco |
Se
Parreira optar pela solução drástica, e tirar Ronaldo da
equipe, o Brasil ainda assim continuará entre os favoritos para a conquista
do título mundial, apesar de Argentina, Alemanha e Inglaterra terem causado
melhor impressão que o time brasileiro até agora. Afinal, Parreira
dispõe de um elenco excepcional. Não se deve esquecer que, sem um
Ronaldo em forma, o time reúne Ronaldinho Gaúcho, há dois
anos o melhor jogador do mundo, e Kaká, cuja atuação contra
a Croácia o incluiu entre os candidatos a astro da competição.
Na reserva, há craques capazes de substituir os titulares e até
jogar melhor. "As opções já foram todas estudadas. Na hora
em que for necessário, a gente tem de fazer mudanças", diz Parreira.
Nesse caso, entra Robinho (veja quadro).
Embora o técnico se aferre ao time que montou ao longo de três anos
e meio de preparação, os precedentes mostram que nada impede trocas
em plena Copa do Mundo. O próprio Parreira barrou o camisa 10 Raí
no meio da competição, em 1994 e foi tetra. Em seu livro,
ele escreve, referindo-se a uma situação de crise: "É nesse
momento que um líder deverá usar sua experiência, seu bom
senso e sua capacidade de julgar e, principalmente, de tomar decisões".
Espera-se que Parreira saiba colocar suas teorias em prática.
RUIM DE COPA, BOM DE COPA Kimimasa
Mayama/Reuters
 | Paulo
Whitaker/Reuters
 | | Zico
e Zagallo: quatro derrotas para um, quatro vitórias para outro |
Alguns dos maiores craques da história, como o goleiro russo Yashin, o
húngaro Puskas e o holandês Cruijff, jamais ganharam uma Copa do
Mundo. No outro extremo, atletas apenas normais e aplicados, mas com uma estrela
do tamanho do Maracanã, glorificaram-se nos Mundiais. O Brasil tem dois
ótimos exemplos desse contraste. Maior ídolo em todos os tempos
da torcida do Flamengo, com 826 gols na carreira, Zico é um azarado em
matéria de Copa. Como técnico do Japão, ele participa da
quinta. Logo na estréia, perdeu para a Austrália um jogo que parecia
ganho. Zico foi derrotado nas suas três Copas como jogador e também
na de 1998, quando era o coordenador técnico da seleção brasileira
vice-campeã. No avesso da saga de Zico, o currículo de Zagallo é
assombroso. Sem ter sido um ponta-esquerda brilhante ou uma unanimidade como técnico,
ele ganhou quatro Copas, duas em campo e duas no banco (treinador em 1970 e coordenador
em 1994). Na Alemanha, por motivos
diferentes, os dois vivem um momento difícil. Aos 74 anos, visivelmente
abatido, Zagallo recupera-se de uma cirurgia no aparelho gástrico a que
se submeteu um ano atrás. "Fiquei mais magro do que quando era jogador,
mas estou levando uma vida normal", diz ele, que chega a chorar quando fala de
sua saúde ou da seleção. "Não há como justificar
o que aconteceu", afirmou Zico após ser batido pela Austrália. Dependendo
da rodada deste domingo (18), Zico estará diante de uma situação
embaraçosa. Na quinta-feira, enfrenta o Brasil. Se perder, voltará
no dia seguinte para Tóquio. Caso contrário, existe a possibilidade,
condicionada a uma combinação de resultados até lá,
de que tenha pela quinta vez o seu papel no fracasso brasileiro numa Copa do Mundo.
Ninguém merece. | |
PRONTOS PARA ENTRAR Dadogaldieri/AP
 | Albari
Rosa/Gazeta do Povo/AE
 | | Juninho
Pernambucano e Robinho: reservas com status de titular |
O técnico Carlos Alberto Parreira já reconheceu que, se os reservas
da seleção brasileira disputassem a Copa do Mundo, jogariam de igual
para igual com a maioria dos outros 31 competidores. Dentre os doze homens que
compõem o banco de suplentes do Brasil, porém, alguns são
menos reservas que os outros. Durante a fase de preparação, Parreira
citou três deles: Edmílson, Juninho Pernambucano e Robinho. O primeiro
foi cortado por causa de uma lesão no joelho direito. Os outros dois, que
estão entre os atletas mais caros do mundo, aguardam a qualquer momento
a chance de começar jogando. Aliás, deveriam. Juninho é o
craque do Lyon, da França, pelo qual conquistou cinco campeonatos nacionais
consecutivos. Robinho, companheiro de Ronaldo no ataque do Real Madrid, da Espanha,
parece mais próximo de realizar o sonho. Participou de metade do segundo
tempo contra a Croácia e, mesmo sem ter criado lances perigosos, destacou-se
pela movimentação o que não era difícil, reconheça-se,
na comparação com o imobilismo do titular. Robinho é a primeira
opção de Parreira caso ele decida barrar Ronaldo. Juninho terá
mais dificuldade para entrar. Suas características são semelhantes
às de Kaká, hoje intocável.
Os dois reservas mostram-se cautelosos nas declarações, para não
criar animosidade. "Sei que esta será minha única Copa do Mundo.
Estar aqui já é uma vitória", diz Juninho, de 31 anos. "Se
eu puder jogar, será ótimo", afirma Robinho, de 22 anos. Há
mais gente no elenco pronta para conquistar uma vaga no time de cima. O meio-campista
Gilberto Silva conta a seu favor com a experiência: pentacampeão
em 2002, defende o Arsenal, da Inglaterra, vice-campeão europeu. Já
o trunfo do lateral-direito Cicinho, do Real Madrid, é a idade: ele completa
26 anos no próximo sábado e é uma década mais jovem
que o veterano Cafu. "Se eu jogar quinze minutos na Copa, já ficarei feliz",
jura. Todos eles provavelmente terão uma chance durante as próximas
partidas da seleção até a sonhada final de 9 de julho: no
futebol de hoje, em que três substituições são permitidas,
os técnicos valem-se muito mais do banco que no passado. Nos seis jogos
da Copa de 1970, Zagallo fez no total apenas seis alterações (na
época, o limite era de duas por partida). Nos sete de 2002, Luiz Felipe
Scolari fez dezoito. | | |