Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Copa
Assim chegamos
ao hexa?

Fora de forma, com a saúde
abalada e desmotivado, Ronaldo
vive uma semana decisiva para
seu futuro e o da seleção


André Fontenelle, de Königstein

 
Odd Andersen/AFP
O atacante contra a Croácia: apenas um chute a gol e ironias até do cauteloso Franz Beckenbauer

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Especial: Copa 2006

Em seu best-seller de auto-ajuda, Formando Equipes Vencedoras, o técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira, afirma: "O ser humano tira forças que não sabe de onde vêm, que nem sequer sabe que tem, quando se depara com uma situação-limite". O atacante Ronaldo está diante dela. Sua posição como titular absoluto do Brasil na Copa do Mundo ficou ameaçada depois da constrangedora atuação contra a Croácia, em Berlim, na partida de estréia. Parreira anunciou que escalaria Ronaldo no jogo seguinte, contra a Austrália, no domingo 18, em Munique. Em várias ocasiões nos últimos dias, no entanto, o treinador deu a entender com a habitual prudência que o desempenho em campo seria determinante para seu futuro como camisa 9. "Ronaldo estava realmente fora de sintonia contra a Croácia", admitiu. "É uma oportunidade que nós estamos dando para que ele se recupere."

Em entrevista a VEJA um mês antes da Copa do Mundo, Ronaldo se dizia inquieto exatamente com sua forma. "O que mais me preocupa, visto o ano que eu tive, é a minha parte física, a minha saúde", disse então. Durante o campeonato espanhol, ele sofreu quatro lesões. A última da série, às vésperas do Mundial, levou-o a ficar um mês sem treinar. Ronaldo já previa uma fase de preparação atribulada: "A gente vai ter três semanas para treinar muito, ficar bem, para não ter nenhum problema físico na Copa". Só não poderia prever que enfrentaria tantos problemas antes disso. A seqüência de más notícias em torno dele começou logo no primeiro dia da fase de preparação, no fim de maio, quando os 23 jogadores foram submetidos a exames físicos. Esses testes revelaram o que era visível a olho nu: peso e taxa de gordura acima do normal. A comissão técnica mantém os resultados em sigilo. Uma pessoa próxima ao jogador afirma que, no auge do excesso de peso, ele chegou aos 92 quilos. Há quem calcule um pouco mais (veja reportagem). No máximo, ele deveria ter 87 quilos. O ideal seriam 84. Nas últimas três semanas, a cada sessão de treinamento, Ronaldo teve de correr de 1 a 2 quilômetros, vestindo um agasalho mesmo nos dias quentes, para acelerar a perda de peso. As três semanas não foram suficientes para colocá-lo em forma. O preparador físico da seleção, Moraci Sant'Anna, recusa-se a prognosticar quando o jogador estará 100%. "O mais rápido possível", limita-se a dizer.

Marcelo Regua/AE
Parreira: decisão difícil nas mãos


Vieram então as já famosas bolhas que o fizeram jogar apenas 45 minutos do amistoso contra a Nova Zelândia, em Genebra. Quatro dias depois, uma sinusite tirou Ronaldo do treino. Foi tratada com um antibiótico, um antiinflamatório e um analgésico. Já nessa ocasião ele havia se queixado de tontura, mas voltou a treinar no dia seguinte. Na estréia da seleção na Copa, na terça-feira passada, teve uma atuação patética. À parte um chute perigoso no começo do segundo tempo, mal correu atrás da bola. "Ronaldo? Ele chegou a jogar?", ironizou o ex-craque Franz Beckenbauer, presidente do comitê organizador da Copa, que estava na tribuna de honra do Estádio Olímpico de Berlim. "Poucos minutos depois do início da partida, eu me dei conta de que algo estava faltando", contou Ronaldo em um artigo para o diário espanhol El Mundo. "Senti-me incomodado no gramado." Seu fiasco só não se refletiu no placar porque um chute certeiro de Kaká garantiu a vitória do Brasil por 1 a 0.

No dia seguinte ao da partida, ao pular da cama, Ronaldo sentiu tontura pela segunda vez. Queixou-se ao médico da seleção, José Luiz Runco. Os dois almoçaram e, cumpridas seis horas de jejum, seguiram para o hospital Zum Heiligen Geist, em Frankfurt, onde o atacante foi submetido a uma endoscopia, exame em que uma microcâmera é introduzida no aparelho gástrico, para detectar uma eventual gastrite. Também foram feitas tomografias do crânio e dos seios da face, uma forma de investigar se havia sinusite ou – mais remotamente – um tumor cerebral ou aneurisma. Os exames nada acusaram, restando portanto a hipótese de uma causa emocional. O médico da seleção, que é ortopedista, se disse incapaz de confirmá-la. Falta de motivação? Problemas com a namorada? Ciúme de Ronaldinho Gaúcho, alvo da maioria das atenções? Especulou-se de tudo. Nas entrevistas, Ronaldo não dá sinais de apatia, mas no penúltimo treino antes do jogo contra a Austrália, na sexta-feira à tarde, pouco participou dos exercícios e mal conversou com os companheiros. O técnico Parreira, cujas palestras sobre motivação se tornaram requisitadas no meio empresarial, reconheceu nas entrelinhas que o problema da estrela tem a ver com vontade de jogar. "O que nós queremos é o Ronaldo motivado para o segundo jogo", explicou.

 

Alex Livesey/Getty Images
Kaká comemora o gol que garantiu a vitória na estréia: a seleção tem talentos suficientes no campo e no banco

Se Parreira optar pela solução drástica, e tirar Ronaldo da equipe, o Brasil ainda assim continuará entre os favoritos para a conquista do título mundial, apesar de Argentina, Alemanha e Inglaterra terem causado melhor impressão que o time brasileiro até agora. Afinal, Parreira dispõe de um elenco excepcional. Não se deve esquecer que, sem um Ronaldo em forma, o time reúne Ronaldinho Gaúcho, há dois anos o melhor jogador do mundo, e Kaká, cuja atuação contra a Croácia o incluiu entre os candidatos a astro da competição. Na reserva, há craques capazes de substituir os titulares – e até jogar melhor. "As opções já foram todas estudadas. Na hora em que for necessário, a gente tem de fazer mudanças", diz Parreira. Nesse caso, entra Robinho (veja quadro). Embora o técnico se aferre ao time que montou ao longo de três anos e meio de preparação, os precedentes mostram que nada impede trocas em plena Copa do Mundo. O próprio Parreira barrou o camisa 10 Raí no meio da competição, em 1994 – e foi tetra. Em seu livro, ele escreve, referindo-se a uma situação de crise: "É nesse momento que um líder deverá usar sua experiência, seu bom senso e sua capacidade de julgar e, principalmente, de tomar decisões". Espera-se que Parreira saiba colocar suas teorias em prática.

 

RUIM DE COPA, BOM DE COPA

Kimimasa Mayama/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters
Zico e Zagallo: quatro derrotas para um, quatro vitórias para outro

Alguns dos maiores craques da história, como o goleiro russo Yashin, o húngaro Puskas e o holandês Cruijff, jamais ganharam uma Copa do Mundo. No outro extremo, atletas apenas normais e aplicados, mas com uma estrela do tamanho do Maracanã, glorificaram-se nos Mundiais. O Brasil tem dois ótimos exemplos desse contraste. Maior ídolo em todos os tempos da torcida do Flamengo, com 826 gols na carreira, Zico é um azarado em matéria de Copa. Como técnico do Japão, ele participa da quinta. Logo na estréia, perdeu para a Austrália um jogo que parecia ganho. Zico foi derrotado nas suas três Copas como jogador e também na de 1998, quando era o coordenador técnico da seleção brasileira vice-campeã. No avesso da saga de Zico, o currículo de Zagallo é assombroso. Sem ter sido um ponta-esquerda brilhante ou uma unanimidade como técnico, ele ganhou quatro Copas, duas em campo e duas no banco (treinador em 1970 e coordenador em 1994).

Na Alemanha, por motivos diferentes, os dois vivem um momento difícil. Aos 74 anos, visivelmente abatido, Zagallo recupera-se de uma cirurgia no aparelho gástrico a que se submeteu um ano atrás. "Fiquei mais magro do que quando era jogador, mas estou levando uma vida normal", diz ele, que chega a chorar quando fala de sua saúde ou da seleção. "Não há como justificar o que aconteceu", afirmou Zico após ser batido pela Austrália. Dependendo da rodada deste domingo (18), Zico estará diante de uma situação embaraçosa. Na quinta-feira, enfrenta o Brasil. Se perder, voltará no dia seguinte para Tóquio. Caso contrário, existe a possibilidade, condicionada a uma combinação de resultados até lá, de que tenha pela quinta vez o seu papel no fracasso brasileiro numa Copa do Mundo. Ninguém merece.

 

PRONTOS PARA ENTRAR

Dadogaldieri/AP
Albari Rosa/Gazeta do Povo/AE
Juninho Pernambucano e Robinho: reservas com status de titular

O técnico Carlos Alberto Parreira já reconheceu que, se os reservas da seleção brasileira disputassem a Copa do Mundo, jogariam de igual para igual com a maioria dos outros 31 competidores. Dentre os doze homens que compõem o banco de suplentes do Brasil, porém, alguns são menos reservas que os outros. Durante a fase de preparação, Parreira citou três deles: Edmílson, Juninho Pernambucano e Robinho. O primeiro foi cortado por causa de uma lesão no joelho direito. Os outros dois, que estão entre os atletas mais caros do mundo, aguardam a qualquer momento a chance de começar jogando. Aliás, deveriam. Juninho é o craque do Lyon, da França, pelo qual conquistou cinco campeonatos nacionais consecutivos. Robinho, companheiro de Ronaldo no ataque do Real Madrid, da Espanha, parece mais próximo de realizar o sonho. Participou de metade do segundo tempo contra a Croácia e, mesmo sem ter criado lances perigosos, destacou-se pela movimentação – o que não era difícil, reconheça-se, na comparação com o imobilismo do titular. Robinho é a primeira opção de Parreira caso ele decida barrar Ronaldo. Juninho terá mais dificuldade para entrar. Suas características são semelhantes às de Kaká, hoje intocável.

Os dois reservas mostram-se cautelosos nas declarações, para não criar animosidade. "Sei que esta será minha única Copa do Mundo. Estar aqui já é uma vitória", diz Juninho, de 31 anos. "Se eu puder jogar, será ótimo", afirma Robinho, de 22 anos. Há mais gente no elenco pronta para conquistar uma vaga no time de cima. O meio-campista Gilberto Silva conta a seu favor com a experiência: pentacampeão em 2002, defende o Arsenal, da Inglaterra, vice-campeão europeu. Já o trunfo do lateral-direito Cicinho, do Real Madrid, é a idade: ele completa 26 anos no próximo sábado e é uma década mais jovem que o veterano Cafu. "Se eu jogar quinze minutos na Copa, já ficarei feliz", jura. Todos eles provavelmente terão uma chance durante as próximas partidas da seleção até a sonhada final de 9 de julho: no futebol de hoje, em que três substituições são permitidas, os técnicos valem-se muito mais do banco que no passado. Nos seis jogos da Copa de 1970, Zagallo fez no total apenas seis alterações (na época, o limite era de duas por partida). Nos sete de 2002, Luiz Felipe Scolari fez dezoito.

 
 
 
 
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