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Internacional Armado
e perigoso Para demonstrar força,
Chávez compra até aviões supersônicos e anuncia
que vai cassar a concessão das emissoras de TV da Venezuela
 Ruth
Costas AFP
 | | Chávez
testa um fuzil numa feira militar em Caracas: encomenda de 100 000 AK 103 russos
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A imprensa é uma
das poucas instituições venezuelanas fora do controle direto de
Hugo Chávez mas por pouco tempo. Na semana passada, o coronel-presidente
anunciou que as emissoras de televisão críticas a seu governo não
terão as concessões renovadas. "Não podemos continuar a permitir
que um pequeno grupo de pessoas use um espaço de transmissão que
é do Estado", explicou Chávez. O predicado "é do Estado",
na visão autoritária do coronel, deve ser entendido como uso exclusivo
do presidente da República e seus coligados. Como as concessões
da maioria dos canais vencem no próximo ano, a decisão equivale
a cassar o direito de a oposição aparecer na televisão.
A estratégia de amordaçar a imprensa, adotada por Chávez,
é uma das linhas que demarcam as diferenças políticas entre
Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva. Encurralado no palácio
durante meses pela exposição sistemática dos esquemas de
corrupção dentro de seu governo, Lula em nenhum momento sugeriu
a possibilidade de privar os brasileiros do direito à livre expressão.
É verdade que, em momento desastrado, ele tentou expulsar o correspondente
do jornal The New York Times. Agiu assim por se considerar pessoalmente
injuriado. Na Venezuela, por enquanto, não há censura direta, e
os jornais e as emissoras de TV em teoria podem criticar o presidente. Mas o cerco
está se fechando. Uma reforma recente no Código Penal aumentou as
multas e sanções para os chamados "delitos de opinião"
basicamente, "difamar" ou "injuriar" membros do governo. Uma ofensa ao presidente
da República pode resultar numa condenação a quarenta meses
de prisão. Desde o ano passado, a Lei de Responsabilidade Social no Rádio
e Televisão, apelidada de "lei da mordaça" pela oposição,
instituiu um órgão estatal para fiscalizar a programação
das emissoras. Os critérios de avaliação são tão
subjetivos que na prática permitem ao governo decidir de forma despótica
o que deve ou não ir ao ar. Indranil
Mukherjee/AFP
 | SUKHOI
30 Autonomia: 3000 km Velocidade:
2500 km/h Armamento: 8 toneladas de mísseis e bombas Preço:
34 milhões de dólares Origem: Rússia |
No Brasil, uma situação dessas é impensável. A sociedade
brasileira é mais madura, as instituições são mais
sólidas e o presidente Lula não tem em seu DNA político nem
em sua história o impulso de censor. Em público, Lula mantém
com Chávez relações cordiais às vezes até
cordiais demais , mas nos bastidores funciona como um freio às investidas
do venezuelano na região. Frear o avanço de Chávez sobre
a liberdade de expressão na própria Venezuela é mais complicado.
Não só por causa do controle que ele exerce sobre todas as esferas
do Estado, mas também porque ele está mergulhado numa guerra interna
contra a oposição, cujos porta-vozes são as rádios
e televisões do país. É também para essa guerra que
Chávez está se armando militarmente, apesar de ele insistir em que
seu único objetivo é defender a Venezuela de um ataque americano.
Para piorar, o anúncio de que
as emissoras terão as concessões cassadas foi feito durante uma
exposição militar em que Chávez confirmou a construção
de uma fábrica para produzir fuzis Kalashnikov na Venezuela e a compra
de 24 caças russos Sukhoi 30 avançados jatos de interceptação
e ataque capazes de voar a 2.500 quilômetros por hora e carregar 8 toneladas
de mísseis e bombas inteligentes. "O recado que ele quis passar é
claro: agora que eu estou bem armado, pretendo avançar no pouco espaço
que a oposição ainda tem para respirar na Venezuela", disse a VEJA
o espanhol Marcelino Bisbal, professor da Universidade Andrés Bello, em
Caracas. A ambição militarista é outra diferença entre
os dois presidentes. Lula acredita na diplomacia e na integração
entre os países. Chávez dá palpite nos assuntos internos
dos países vizinhos, financia aventureiros e tenta criar governos-clones
por toda parte, como fez na Bolívia. Desde que começou a modernizar
sua frota militar, ele já gastou mais de 3 bilhões de dólares,
dinheiro que retirou dos lucros obtidos com a venda de petróleo. As compras
incluem aviões cargueiros da Espanha, radares da Ucrânia e 36 blindados
brasileiros, equipados com canhões que podem disparar até 1.000
tiros por minuto. Os quatro primeiros Sukhoi 30 do lote de supersônicos
encomendados pela Venezuela chegarão ao país em dezembro. São
os mais poderosos aviões de combate do continente. Capazes de percorrer
até 3.000 quilômetros sem a necessidade de reabastecer, os aviões
poderiam ser usados para atacar todos os países vizinhos, a região
do Caribe e até Miami, na costa sul dos Estados Unidos, o que aumenta o
risco de instabilidade que o governo Chávez representa para o continente.
Os aviões fazem parte de um acordo de 5,5 bilhões de dólares
negociado com a Rússia, que também prevê a compra de quinze
helicópteros e 100.000 fuzis de assalto AK 103, dos quais 30.000 já
chegaram ao país. "A estratégia de Chavez é fazer ameaças
e fomentar o medo para garantir que poderá continuar a estender seu poder",
afirma Bisbal. "Ao menos a compra dessas armas chama a atenção do
mundo para o avanço galopante do autoritarismo por aqui." |