Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Brasil
A última dos tucanos

Amigo de toda a cúpula do
PSDB, Tom Cavalcante prova
que a unanimidade no partido
é uma piada


Juliana Linhares

Roberto Setton


Ele recebe Fernando Henrique Cardoso para jantar, chama Aécio Neves de "Aecinho" e é íntimo de Tasso Jereissati. Mário Covas era seu fã, Geraldo Alckmin já se declarou "apaixonado" por ele e até o ex-prefeito José Serra, que, segundo um amigo, "não acha graça em nada", riu de seus shows mais de uma vez. Em tempos de diáspora tucana, o comediante Tom Cavalcante é uma das raras unanimidades no PSDB. Aos próceres do partido, agradam o seu humor mimético e, claro, seu tucanismo empedernido. "Sou PSDB desde criancinha", afirma. O jantar que ofereceu no mês passado ao ex-presidente Fernando Henrique, por exemplo, teve no cardápio (além de caviar, lagostins, camarões, trufas e champanhe francês) uma imitação do presidente Lula que levou a ex-primeira-dama Ruth Cardoso às gargalhadas e declarações entusiasmadas do anfitrião em favor do candidato à Presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin (por sua vez, uma unanimidade bem menos espontânea, por assim dizer, na cúpula peessedebista).

Nascido em Fortaleza, Tom entrou para o ninho tucano pelas mãos do atual presidente do PSDB, o senador Tasso Jereissati, também cearense. Ele estava com 24 anos e era locutor de rádio quando, em 1986, foi chamado para animar os comícios do então candidato ao governo do Ceará. "Ele imitava a mim e aos meus adversários no palanque. As pessoas se rasgavam de rir", conta o senador. Presente em um desses comícios, o ex-governador de São Paulo Mário Covas, morto em 2001, gostou do estilo do comediante e o contratou para acompanhá-lo em viagens pelo Brasil, durante sua campanha para a Presidência em 1989. "O Tom imitava a voz gutural do Mário e a maneira de ele embolar as palavras", diz o vereador Tião Farias. "O Mário se divertia e, reservadamente, me perguntou várias vezes se falava mesmo daquele jeito." De Aécio Neves, com quem joga futebol sempre que vai a Minas, Tom se aproximou por intermédio do cantor Fagner (que se tornou amigo do governador mineiro há vinte anos). Assim, quando deu por si, o humorista havia percorrido o circuito tucano completo, cujos quartéis-generais se encontram precisamente nos estados do Ceará, São Paulo e Minas Gerais. "Já rodei o Brasil inteiro fazendo comícios do PSDB", diz.

Filho de um comerciante e de uma dona-de-casa, o comediante cursou até o ensino médio. Antes de surgir na Rede Globo, como o bêbado João Canabrava, da Escolinha do Professor Raimundo, tentou ser jogador de futebol e trabalhou como apresentador de eventos. Hoje, é um dos maiores salários da Rede Record – estima-se que seus ganhos mensais cheguem a 500.000 reais. O sucesso na carreira, bem como a convivência com o mundo dos políticos e empresários, refinou-lhe os hábitos. Em pouco tempo, Tom cumpriu todo o roteiro dos talentos tardiamente abençoados pela fortuna: fez curso de vinhos, tornou-se um apreciador de charutos e, claro, começou a freqüentar leilões de gado (recentemente, em um evento em São Paulo apinhado de estrelas da Globo, arrematou quatro bezerras da raça simental por 336.000 reais). Também tentou aprender inglês e espanhol e passou a assinar três jornais para informar-se sobre política. Nesse sentido, seus esforços não foram propriamente um sucesso. As línguas, ele desistiu de estudar, e, quanto a seu tirocínio político – bem, não há nada de autonomia aí, segundo seus amigos. "Tom diz e pensa o que diz e pensa o Tasso Jereissati. O senador é o seu guru", afirma um deles. Foi estimulado pelo guru Jereissati que, no início do governo Lula, o comediante ligou para o telefone celular de diversos parlamentares, fazendo-se passar pelo presidente da República, supostamente furioso com a inépcia com que vinha sendo defendido por sua base aliada. "Tom berrava e dizia palavrões horrorosos aos deputados", diverte-se o senador. Caíram no trote, segundo o tucano, os senadores Tião Viana (AC) e Aloizio Mercadante (SP). Pode-se dizer que tanto o episódio quanto o comportamento de seus protagonistas são de gosto duvidoso. Mas, quando se considera a situação do candidato do PSDB à Presidência (29 pontos porcentuais atrás de Lula, segundo a última pesquisa de intenção de voto feita pelo Ibope) – além do fato de que, desde o início da pré-campanha, seus integrantes não param de brigar entre si e alimentar desconfianças mútuas –, é fácil concluir que os tucanos andam mesmo precisando é de bom humor.

 

O TOM DA CAMPANHA

A longa folha de serviços prestados ao PSDB começou com a participação em comícios para eleger Tasso Jereissati governador do Ceará. De lá para cá, Tom percorreu o circuito tucano. Em Minas, tornou-se amigo de Aécio; em São Paulo, aproximou-se de Covas, FHC e, agora, Alckmin

 
Fotos arquivo pessoal
MÁRIO COVAS
Com o ex-governador e sua mulher,
Lila Covas
AÉCIO NEVES
Tom chama o governador de Minas
de "Aecinho"

FHC
Com o ex-presidente (de costas,
Tasso Jereissati)
AGORA, ALCKMIN
O ex-governador e Lu Alckmin,
ao lado de Tom e a mulher, Patrícia

 
 
 
 
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