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Brasil
Nem Lula dá bola para eles
Dirigentes do PT retomam idéias
desastrosas para a economia e
recebem o desdém do presidente

Giuliano Guandalini
Fotos Jefferson Bernardes/Preview.com
e Adriano Machado/AE
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| Na campanha de 2002, Lula pregou a racionalidade
administrativa; agora, Berzoini e Garcia (de óculos)
propõem o retrocesso |
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Na campanha presidencial de 2002,
o então candidato Lula e o PT deram uma guinada em direção
à racionalidade administrativa. Na Carta ao Povo Brasileiro,
partido e candidato aderiram à estabilidade da moeda e à
sanidade das contas, dando-lhes o status de conquistas da sociedade
brasileira. O gesto reduziu a apreensão que havia sobre a
orientação econômica do PT, ajudando Lula a
eleger-se. Na semana passada, o partido começou a produzir
um programa de governo com o qual espera se apresentar aos eleitores
na campanha de 2006. O documento, ainda em fase de debates, só
será divulgado oficialmente em julho. Mas, pelo que já
se soube das diretrizes escritas a quatro mãos pelo
presidente do PT, Ricardo Berzoini, e pelo coordenador do programa,
Marco Aurélio Garcia , trata-se de um retrocesso. Volta-se
ao século passado, do qual Berzoini e Garcia nunca conseguiram
escapar. É um desserviço a Lula como presidente e
como candidato.
A dupla Berzoini e Garcia entrou
no túnel do tempo. Do passado, seu ponto de vista do mundo,
eles mandam sua receita: nada de redução de gastos,
nada de autonomia do Banco Central, nada de cortes de impostos e
toda a força ao comércio com a África e a América
do Sul. Uma receita carregada de ideologia e ingenuidade. "É
equivocada a tese do rombo explosivo da Previdência", afirma
Berzoini. Garcia, o amigo do boliviano Evo Morales, faz eco ao colega:
"Corte de custeio significa diminuição dos gastos
sociais". Felizmente, ninguém os levou a sério
nem o presidente. É fácil entender a razão.
Lula fez questão de se mostrar distante da turminha trevosa.
Sobre a Previdência, disse o presidente: "A sociedade vai
ter de compreender que a Previdência, de tempos em tempos,
tem de passar por uma reforma. Hoje temos metade das pessoas trabalhando
e metade recebendo aposentadoria. As pessoas estão vivendo
mais. Nenhum sistema de previdência no mundo suporta que as
pessoas vivam mais tempo recebendo aposentadoria do que o tempo
em que contribuíram". Os especialistas em finanças
públicas são unânimes em avaliar como insustentável
a situação da Previdência. Os gastos com benefícios
dobraram nos últimos dez anos e atingiram 146 bilhões
de reais em 2005. As contas, que eram equilibradas, entraram no
negativo no ano passado, o déficit ficou em 38 bilhões
de reais, quatro vezes o orçamento do Bolsa Família.
A tendência é piorar.
Berzoini enxerga a questão
de outra maneira. Ele acredita que, conforme os juros caírem
e a economia crescer, o déficit naturalmente diminuirá.
Essa confusão de causas com conseqüências é
um velho truque petista que, imaginava-se, nunca mais viria a ser
tentado dada sua primariedade. No mundo mágico de Berzoini,
a redução por decreto dos juros levaria à queda
da dívida e dos gastos públicos. No planeta Terra
as coisas não funcionam assim. É justamente a diminuição
dos gastos e da dívida que permite baixar juros e, assim,
produzir maior progresso, mais empregos e bem-estar sem inflação.
Foi esse o caminho que Irlanda
e Espanha, para citar dois exemplos, trilharam para ingressar no
time das economias modernas e prósperas. Só com o
controle dos gastos será possível reduzir a carga
tributária, estimulando investimentos. "Corte de impostos
é a receita clássica dos liberais", disse Garcia.
Seja de quem for a receita, ela é mais do que adequada ao
Brasil, país em que as pessoas trabalham quatro meses por
ano atenção: quatro meses por ano! para
pagar impostos aos governos. Só então, paga sua alforria
aos mandarins como Garcia, elas começam a suar o rosto para
comprar comida, educar os filhos, garantir a segurança de
suas casas, fazer frente às despesas de transporte e moradia.
Enquanto isso, o dinheiro entregue ao Estado estará, em boa
parte, se esvaindo pelos ralos da corrupção e do desperdício.
A dupla de formuladores da política
econômica do PT investe também contra o tradicional
moinho de vento que zune nos ouvidos da esquerda: o Banco Central.
"Não se pode trabalhar com a idéia de autonomia total,
porque seria retirar o Banco Central do controle democrático
da sociedade. O BC deve estar submetido ao crivo do Executivo e
do Legislativo", disse Berzoini. A miopia nesse caso é ainda
mais grave do que não enxergar o déficit da Previdência.
Em todos os países viáveis, o Banco Central goza de
autonomia formal ou legal. Quanto mais distante das pressões
do Executivo e do Legislativo, melhor os bancos centrais podem exercer
sua função precípua: defender o poder de compra
da moeda que está no bolso dos cidadãos. Em outras
palavras, impedir que a inflação devore as economias
das pessoas. Lula ainda não anunciou oficialmente sua candidatura,
mas já se beneficia eleitoralmente da política econômica
responsável que segurou o poder de compra do real, o efeito
mais sentido pelas camadas mais pobres da população.
É o que mostram as pesquisas de intenção de
voto. Quem diria, Berzoini e Garcia trabalham contra Lula!
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