|
|
Brasil Os
vôos da reeleição
Com sua campanha reeleitoral de vento em popa, Lula viaja tanto quanto
em ano não eleitoral. O abuso são as "inaugurações-fantasma"
 Otávio
Cabral
Ricardo
Stuckert/PR
 | | Lula
em mais um evento de campanha: inauguração de obra no Rio cujo terreno
ainda nem foi comprado |
O presidente Lula esteve em São Gonçalo, no interior do Rio de Janeiro,
na semana passada, para lançar a pedra fundamental de um novo pólo
petroquímico. Diante de 4.000 pessoas, Lula disse que a obra será
"o maior pólo de inteligência da América Latina". O que a
platéia não ficou sabendo é que a Petrobras ainda nem sequer
comprou o terreno onde o complexo deverá ser erguido. Desse modo, pode-se
dizer que Lula inaugurou uma intenção de obra. Nos últimos
tempos, particularmente nos primeiros cinco meses deste ano, o presidente tem
se empenhado em aparecer em inaugurações. Recentemente, esteve no
Recife para inaugurar uma ala nova do aeroporto da cidade. Tempos depois, voltou
à cidade para inaugurar uma outra ala do mesmo aeroporto. Há três
semanas, Lula esteve em Manaus para lançar a primeira solda de um gasoduto
que ainda não começou a ser construído. O senador Arthur
Virgílio, líder do PSDB, aproveitou para pespegar-lhe um chiste:
"Presidente, tenha dó! Não seja tão ridículo! Não
lhe fica bem! Que história é essa de primeira solda?". As inaugurações
de Lula têm uma razão só: sua campanha reeleitoral, que anda
de vento em popa. A oposição
tem o hábito de acusar Lula de fazer campanha com dinheiro público
por causa do excesso de viagens pelo país mas, nesse caso, a acusação
não tem fundamento. Lula nem mesmo aumentou o número de viagens
que faz pelo país. Nos primeiros cinco meses do ano passado, quando a campanha
reeleitoral estava longe, o presidente passou 46 dias fora de Brasília.
Agora, nos primeiros cinco meses deste ano, com a campanha reeleitoral a pleno
vapor, Lula ficou 47 dias ausente da capital federal apenas um dia
a mais que em 2005. O que realmente mudou de lá para cá não
foi a quantidade de viagens, mas o motivo delas: inaugurar, inaugurar e inaugurar.
No ano passado, nos seus 46 dias longe de Brasília, Lula participou de
29 inaugurações. Agora, foram 52 entre as quais estão
a primeira solda, a intenção de obra e as alas do aeroporto. Em
comparação com seu antecessor, Lula deposita uma confiança
imensa em inaugurações para ganhar votos. O ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso, nos primeiros cinco meses de 1998, quando concorreu à
reeleição, também deixou Brasília durante 47 dias
, mas fez apenas quinze inaugurações (veja
quadro). Alexandre
Gondim/DP
 | | Outdoor
do governo: neste ano, os gastos com publicidade foram turbinados para driblar
a lei eleitoral |
Com sua
ciranda de inaugurações, Lula está aproveitando uma brecha
na legislação eleitoral nada se diz sobre o comportamento
que um presidente-candidato deve ter antes de sua candidatura ser oficializada.
Por isso, Lula faz questão de dizer que nem sabe se será candidato,
disparou a fazer inaugurações e abriu o cofre para os gastos publicitários
foram 190 milhões de reais só nos primeiros cinco meses deste
ano. No próximo dia 24, quando o PT realizar sua convenção
para oficializar a candidatura de Lula, começarão as limitações
que não são poucas. Lula não poderá mais visitar
obras do governo, nem participar de inaugurações, nem falar em rede
nacional de rádio e TV. Se quiser participar de um comício ou qualquer
outro evento eleitoral, terá de deslocar-se a bordo do AeroLula, por questões
de segurança, mas seu partido será obrigado a reembolsar os cofres
públicos pelo gasto. Também não poderá usar seu gabinete
no Palácio do Planalto para reuniões eleitorais que devem
ficar restritas à sua residência oficial, o Alvorada. Todas essas
limitações foram copiadas da lei eleitoral dos Estados Unidos, uma
democracia na qual o direito à reeleição existe desde seu
nascimento, com a Constituição, em 1787.
"A legislação é boa, não precisa
de reparos. Como toda lei, sua aplicação depende da sensibilidade
do juiz. No caso brasileiro, o que dificulta é que não temos tradição
enraizada de reeleição", afirma o advogado Fernando Neves, ex-ministro
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De fato, ao se inspirar na lei americana,
o legislador brasileiro chegou a ser mais rigoroso em alguns aspectos o
gasto com publicidade, por exemplo. Nos Estados Unidos, as propagandas de utilidade
pública são permitidas no período eleitoral. Aqui não.
Se o governo quiser lançar uma campanha de vacinação pública
ou anunciar um novo número de telefone para a população tirar
dúvidas sobre aposentadoria, terá antes de consultar o TSE. A experiência
brasileira ensina, no entanto, que o rigor da legislação eleitoral
nem sempre ou quase nunca resulta em bom comportamento por parte
dos candidatos. O que resolve é uma fiscalização rígida,
acompanhada da aplicação de punições aos infratores,
coisa que não tem sido feita nas eleições brasileiras. O
atual presidente do TSE, o ministro Marco Aurélio Mello, já anunciou
que pretende interromper essa tradição de leniência. Fiquemos
de olho. Dida
Sampaio/AE
 | | FHC,
em campanha em 1998: menos ênfase em inaugurações |
Na semana passada, o tribunal determinou que o presidente Lula explique se o gasto
de publicidade do governo neste ano está dentro ou fora dos limites da
lei eleitoral. A notificação foi feita pelo ministro Carlos Ayres
Brito, baseada em um pedido apresentado por PFL e PSDB. Pela legislação
em vigor, o governo só pode gastar em publicidade um volume igual ao montante
do ano anterior ou igual à média dos três últimos anos
o que for maior. No caso do governo de Lula, o maior gasto foi realizado
em 2005, quando bateu em 245 milhões de reais. Como o governo despendeu
190 milhões de reais até agora, poderá dizer ao tribunal
eleitoral que seus gastos publicitários estão perfeitamente dentro
da lei. Eis uma malandragem. O governo turbinou os gastos no início deste
ano, aumentando a velocidade das despesas, exatamente para contornar a proibição
legal. Os políticos, no entanto, só criticam a reeleição
e as restrições legais quando estão na oposição.
Uma vez no governo, acham a reeleição uma maravilha. Instinto de
sobrevivência. Em 1998, nada menos que 70% dos governadores que concorreram
à reeleição tiveram sucesso nas urnas. Incumbente não
perde eleição. Alguém tem de ganhar dele ouviu, Geraldo
Alckmin?
Fotos
Celso Junior/AE e Lailson Santos
 |  |  |
|