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Entrevista:
Silvio de Abreu "A
moral está torta" O autor de
Belíssima fala de sucesso e fracasso nas novelas e revela-se
chocado com a tolerância do público com personagens canalhas
 Marcelo
Marthe
Lailson Santos
 | "Uma
parcela das espectadoras já não valoriza tanto a retidão
de caráter. Para elas, fazer o que for necessário para se realizar
na vida é o certo" | |
O paulistano Silvio de Abreu, de 63 anos, é um noveleiro experiente. Ex-ator
e ex-diretor de pornochanchadas, ele atua como autor de folhetins há trinta
anos. Abreu, como gosta de ressaltar, já viu os dois lados da profissão:
colheu sucessos como A Próxima Vítima, mas também
fracassos como As Filhas da Mãe. Com a atual Belíssima,
ele está de volta ao topo. A três semanas de seu desfecho,
a novela das 8 da Rede Globo ostenta a média de 59 pontos no ibope e é
sintonizada por sete em cada dez espectadores no país. Como todo autor
de um folhetim bem-sucedido, Abreu conseguiu entrar em sintonia com as preocupações
e os interesses de uma ampla fatia da sociedade brasileira. Ele se confessa chocado,
porém, com a descoberta de que o público mudou seu modo de encarar
os desvios de conduta dos personagens. A seguir, trechos da entrevista que ele
concedeu pouco antes de trocar seu apartamento em São Paulo por um refúgio
no litoral modo que encontrou para lidar com sua ansiedade na reta final
da novela. Veja
Belíssima realizou algo raro em telenovelas: chegou ao sucesso com personagens
que são bastante ambíguos. O senhor mesmo já havia tentado
isso outras vezes e fracassou. Por que deu certo desta vez? Abreu
Considero que incluir a ambigüidade moral numa trama é um grande avanço.
Personagens desse tipo são ricos e fazem o público pensar. Ao analisar
as causas dessa aceitação, contudo, confesso que fiquei chocado.
Como sempre acontece na Globo, realizamos uma pesquisa com espectadoras para ver
como o público estava absorvendo a trama e constatamos que uma parcela
considerável delas já não valoriza tanto a retidão
de caráter. Para elas, fazer o que for necessário para se realizar
na vida é o certo. Esse encontro com o público me fez pensar que
a moral do país está em frangalhos. Veja
Será que está? Abreu As pessoas
se mostraram muito mais interessadas nos personagens negativos que nos moralmente
corretos. Isso para mim foi uma completa surpresa. Na minha novela anterior, As
Filhas da Mãe, há coisa de cinco anos, o comportamento dos grupos
de pesquisa era diferente. Os personagens bons eram os mais queridos. Nessa última
pesquisa, eles foram considerados enfadonhos por boa parte das espectadoras. Elas
se incomodavam com o fato de a protagonista Júlia ficar sofrendo em vez
de se virar e resolver sua vida de forma pragmática. Outro exemplo são
as opiniões sobre Alberto, o personagem que não mediu esforços
para tirar de seu caminho o Cemil, um bom moço, e roubar sua pretendente,
Mônica. Alberto fez uma falcatrua para desmanchar o romance do rival. Em
qualquer outra novela, isso faria o público automaticamente ficar do lado
do mocinho. Mas as donas-de-casa não viram nada de errado na conduta do
Alberto. Pelo contrário: ponderaram que, se ele fez aquilo para conquistar
um mulherão, tudo bem. O fato de o André ter dado um golpe do baú
na Júlia também foi visto com naturalidade. As espectadoras achavam
que, se ele precisava de dinheiro, não havia mal em ficar com ela. Colocamos
então que o canalha a estava roubando e as espectadoras retrucaram: deixa
disso, daqui a pouco eles vão ficar bem. O fato de André ser bonito
era suficiente para ganhar o prêmio máximo numa novela, que é
ficar com a mocinha. Na mesma pesquisa, colhemos indícios claros de que
essa maior tolerância com os desvios de conduta tem tudo a ver com os escândalos
recentes da política. Veja
O que o fez chegar a essa conclusão? Abreu
Numa parte da pesquisa, as espectadoras apontaram com qual personagem se identificavam,
e a maioria simpatizava com a Júlia, é claro. Mas havia colocações
do tipo: "Quero ser a Júlia porque aí eu pago mensalão para
todo mundo e ninguém me passa a perna". Olhe que absurdo: a esperteza desonesta
foi vista como um valor. O simples fato de o presidente Lula dizer que não
sabia de nada e não viu as mazelas trazidas à tona pelas CPIs e
pela imprensa basta as pessoas fingem que acreditam porque acham mais conveniente
que fique tudo como está. Eu me vi na obrigação de fazer
alusões a essa inversão de valores em Belíssima. Quando
a Bia Falcão reapareceu e disse com a maior cara-de-pau que sumiu porque
estava de férias numa fazenda, ficou óbvio para todo mundo que ela
estava mentindo. Mas, como Bia se impõe pela autoridade, os personagens
engoliram a desfaçatez. Veja
A audiência das novelas está mais exigente? Abreu
Não. Sinto dizer que, se as novelas ficaram mais elaboradas,
foi pela evolução natural dos autores. Hoje, o problema em relação
ao público é o contrário. O nível intelectual do brasileiro
de maneira geral está abaixo do que era na década de 60 ou 70, porque
as escolas são piores e o estudo já não é valorizado
como antigamente. Houve um dia, não custa lembrar, em que cursar a universidade
era um objetivo de vida. O valor não é mais fazer alguma coisa que
seja dignificante. As pessoas querem é subir na vida, ganhar dinheiro,
e dane-se o resto. Veja
Como essa queda no nível cultural afeta seu trabalho? Abreu
Não dá para aprofundar nenhum tema, porque o público
não consegue acompanhar. Isso não pode ser uma desculpa para os
autores baixarem o nível, é claro. Nosso desafio é ser simples
na forma, mas nem por isso vazios. Se eu tratasse de maneira sisuda alguns assuntos
que estou abordando em Belíssima a corrupção
no dia-a-dia, por exemplo , o povo não se interessaria. Foi preciso,
primeiro, arrebatar o público com uma personagem como Bia Falcão,
para a partir dela tratar dessa questão. Posso dar outro exemplo: minha
tentativa de inovar a linguagem das novelas das 7 com As Filhas da Mãe,
que tinha uma narrativa mais fragmentária. Eu achava aquilo uma novidade
extraordinária, que seria uma beleza no ibope. Mas houve rejeição
do público das classes D e E. Não que eles não gostassem
da novela eles simplesmente não a entendiam.
Veja Belíssima tem casais que são
movidos mais pela libido que pelo amor. O romance, no velho sentido folhetinesco,
está com os dias contados? Abreu O problema é
que ele virou um item antiquado. Os relacionamentos hoje são mais superficiais,
as pessoas casam e descasam com facilidade. Nos grupos de discussão, constata-se
que as espectadoras ainda têm uma expectativa romântica, mas não
mais aquela visão de antigamente de que a mocinha tem de esperar o mocinho
e, quando ele chegar, todos os problemas se resolverão e eles serão
felizes para sempre. Salvo se for uma novela de época, será difícil
o público engolir uma trama que insista nisso hoje em dia.
Veja No caso dos gays, o humor do espectador
também mudou? Abreu Sem dúvida. Nesse campo,
a influência das novelas é enorme. E olhe que fui até agredido
por causa desse negócio nos tempos de A Próxima Vítima,
quando mostrei o primeiro casal gay escancarado numa novela das 8. Eu estava
num cinema quando, de repente, um senhor atrás de mim anunciou em voz alta:
"Silvio de Abreu, grande autor brasileiro". Eu virei para trás, pensando
que ia ser cumprimentado, quando ele emendou: "Você destrói a família
brasileira ao defender o homossexualismo. Essa gente toda tem de acabar no inferno".
Acredito que prestei um serviço ao retratar os homossexuais com respeitabilidade.
Mas a chave da aceitação deles foi a forma como introduzi o tema.
Durante boa parte da novela, omiti o fato de que Jeferson e Sandrinho eram gays.
Mostrei que eles eram bons amigos, bons filhos e estudantes dedicados tudo
o que o público acha bonito nas pessoas. Só lá pelo capítulo
100 eu exibi esse outro lado. Foi como se dissesse: olhe só, gente, esqueci
de contar um detalhe sobre os mocinhos. O noveleiro é, antes de tudo, um
manipulador de emoções. Veja
E o que explica seu revés, tempos depois, com as lésbicas
de Torre de Babel? Abreu Cometi o equívoco de achar
que, como já havia mostrado um casal homossexual com sucesso, todo mundo
ia aceitá-las de cara. As duas surgiram como casal logo no início,
e isso gerou uma série de protestos. Foi um ruído excessivo que
não ocorreria se eu tivesse ido mais devagar.
Veja Há muita rivalidade entre os
autores da Globo? Abreu Não rivalidade no sentido
de que um quer matar o outro. Eu, por exemplo, sou muito amigo do Gilberto Braga.
Tem outros com os quais não me dou. Competição sempre existe,
porque todo mundo quer que sua trama faça mais sucesso. Isso é estimulante.
Veja É
difícil lidar com o ego dos atores? Abreu Eu acho
muito engraçado. No início da novela, o ator é sempre humilde.
Mas basta começar a se destacar que ele se enche de si e passa a achar
que é dono do pedaço. Aí eu tenho de dizer: abaixe essa bola,
meu filho, porque na hora em que acabar a novela tudo volta ao normal. Mas, graças
a Deus, não tenho problemas com atores. Quando faço novela, minha
maior dificuldade é dizer não, pois a maioria briga para trabalhar
comigo. Não sou o tipo de autor que se fecha numa torre de marfim. Gosto
de estar perto, saber se o personagem está de acordo com a expectativa
deles. Claro, é preciso tomar certos cuidados. Os atores vêem a obra
pela perspectiva de seus personagens, enquanto eu tenho de ter uma visão
de conjunto. Se não tivessem ego, eles não seriam atores. Isso é
até qualidade. Veja
Nos últimos anos, o merchandising social entrou para o repertório
das novelas. Por que Belíssima dispensa esse expediente? Abreu
Não que eu me recuse a fazer, mas o merchandising social não
faz meu estilo. E também não pensei em nenhuma boa causa que fosse
pertinente. Botar o Jamanta para estudar? Não combina com minha trama.
Se o merchandising social não ficar forçado na história,
tudo bem. Agora, se o autor fizer uma campanha só para dizer "olha como
estou preocupado com a população", fica chato.
Veja O ator Lima Duarte reclamou numa entrevista
de fazer merchandising de comida de gato. A crítica o surpreendeu? Abreu
É claro. Ele não foi obrigado a fazer merchandising
como, aliás, nenhum ator da novela. É bom ficar claro que o merchandising
é uma coisa paralela o ator ganha por fora para fazer propaganda.
Não tenho nada contra isso, até porque escrevo novelas que se passam
numa sociedade de consumo. Se eu puder colocar na boca de um personagem "eu quero
uma Coca-Cola", em vez de refrigerante, prefiro. Se o Lima Duarte ficou irritado
porque encheram sua paciência com a propaganda da comida de gato, problema
dele. Veja Por
que há tão pouca renovação na elite dos noveleiros? Abreu
Muita gente acha que nós veteranos exercemos um monopólio.
Mas a verdade é que está difícil encontrar quem saiba fazer
novela. É claro que há gente de categoria na nova geração.
Mas é um trabalho muito específico. O noveleiro é mais que
um escritor, é quase um produtor que tem de resolver toda sorte de problemas
que ocorrem quando uma novela está no ar. É esse profissional completo
que está em falta. Veja
Seu colega Aguinaldo Silva já comentou que não há
pressão maior do que escrever uma novela das 8. O senhor concorda? Abreu
A pressão, de fato, é enorme. Nessa novela não
estou sofrendo com isso, felizmente, porque tive a sorte de Belíssima
fazer sucesso desde o início. Mas, se os índices não
fossem bons, a situação seria diferente. A novela das 8 é
o esteio da programação da Globo, e não dá para dizer
que não assusta manter esse Boeing no ar. Agora, se o autor for pensar
nisso, está frito. Não adianta ficar de chororô tem
de sentar ao computador e dar o melhor de si. Mesmo com todo o esforço,
porém, às vezes a gente não atinge o sucesso. E, quando isso
ocorre, é uma tragédia. Para alguém de fora, pode parecer
fácil arriscar porque uma trama não está fazendo sucesso.
Mas no olho do furacão não é tão simples. Evidentemente,
ninguém é louco de fazer uma novela ruim porque gosta do fracasso.
Veja Como
é conviver com o fracasso? Abreu É horrível
carregar uma novela que o público não está acompanhando.
Quando falta estímulo, eu emboto não sei por onde ir. A primeira
novela que fiz na Globo, Pecado Rasgado, deu errado e foi um inferno
cheguei a pensar em nunca mais escrever novelas. A pior experiência do mundo
é acordar de manhã e ter diante de si dezenas de páginas
para preencher, mas com a certeza de que o público não estará
nem aí. Novela tem uma coisa muito engraçada: quando funciona, o
autor pode fazer o que quiser que o público gosta. Mesmo que a história
não tenha pé nem cabeça, que vá para um lado ou para
outro ao bel-prazer do autor. Veja
É o caso dos mistérios cada vez mais mirabolantes
de Belíssima? Abreu Não, Belíssima
tem uma trama firme e segura. Pode anotar: eu sei exatamente o que estou fazendo.
Estou jogando suspeitas para cá e para lá, mas isso só mostra
que sei para onde levar a história. A história é tão
simples, as pessoas é que ficam complicando. No final, todo mundo vai dizer:
"Ah, era só isso?". |