Edição 1961 . 21 de junho de 2006

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Entrevista: Silvio de Abreu
"A moral está torta"

O autor de Belíssima fala de sucesso
e fracasso nas novelas – e revela-se
chocado com a tolerância do público
com personagens canalhas


Marcelo Marthe

 

Lailson Santos

"Uma parcela das espectadoras já não valoriza tanto a retidão de caráter. Para elas, fazer o que for necessário para se realizar na vida é o certo"

O paulistano Silvio de Abreu, de 63 anos, é um noveleiro experiente. Ex-ator e ex-diretor de pornochanchadas, ele atua como autor de folhetins há trinta anos. Abreu, como gosta de ressaltar, já viu os dois lados da profissão: colheu sucessos como A Próxima Vítima, mas também fracassos como As Filhas da Mãe. Com a atual Belíssima, ele está de volta ao topo. A três semanas de seu desfecho, a novela das 8 da Rede Globo ostenta a média de 59 pontos no ibope e é sintonizada por sete em cada dez espectadores no país. Como todo autor de um folhetim bem-sucedido, Abreu conseguiu entrar em sintonia com as preocupações e os interesses de uma ampla fatia da sociedade brasileira. Ele se confessa chocado, porém, com a descoberta de que o público mudou seu modo de encarar os desvios de conduta dos personagens. A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu pouco antes de trocar seu apartamento em São Paulo por um refúgio no litoral – modo que encontrou para lidar com sua ansiedade na reta final da novela.  

Veja – Belíssima realizou algo raro em telenovelas: chegou ao sucesso com personagens que são bastante ambíguos. O senhor mesmo já havia tentado isso outras vezes e fracassou. Por que deu certo desta vez?
Abreu – Considero que incluir a ambigüidade moral numa trama é um grande avanço. Personagens desse tipo são ricos e fazem o público pensar. Ao analisar as causas dessa aceitação, contudo, confesso que fiquei chocado. Como sempre acontece na Globo, realizamos uma pesquisa com espectadoras para ver como o público estava absorvendo a trama e constatamos que uma parcela considerável delas já não valoriza tanto a retidão de caráter. Para elas, fazer o que for necessário para se realizar na vida é o certo. Esse encontro com o público me fez pensar que a moral do país está em frangalhos.

Veja – Será que está?
Abreu – As pessoas se mostraram muito mais interessadas nos personagens negativos que nos moralmente corretos. Isso para mim foi uma completa surpresa. Na minha novela anterior, As Filhas da Mãe, há coisa de cinco anos, o comportamento dos grupos de pesquisa era diferente. Os personagens bons eram os mais queridos. Nessa última pesquisa, eles foram considerados enfadonhos por boa parte das espectadoras. Elas se incomodavam com o fato de a protagonista Júlia ficar sofrendo em vez de se virar e resolver sua vida de forma pragmática. Outro exemplo são as opiniões sobre Alberto, o personagem que não mediu esforços para tirar de seu caminho o Cemil, um bom moço, e roubar sua pretendente, Mônica. Alberto fez uma falcatrua para desmanchar o romance do rival. Em qualquer outra novela, isso faria o público automaticamente ficar do lado do mocinho. Mas as donas-de-casa não viram nada de errado na conduta do Alberto. Pelo contrário: ponderaram que, se ele fez aquilo para conquistar um mulherão, tudo bem. O fato de o André ter dado um golpe do baú na Júlia também foi visto com naturalidade. As espectadoras achavam que, se ele precisava de dinheiro, não havia mal em ficar com ela. Colocamos então que o canalha a estava roubando e as espectadoras retrucaram: deixa disso, daqui a pouco eles vão ficar bem. O fato de André ser bonito era suficiente para ganhar o prêmio máximo numa novela, que é ficar com a mocinha. Na mesma pesquisa, colhemos indícios claros de que essa maior tolerância com os desvios de conduta tem tudo a ver com os escândalos recentes da política.

Veja – O que o fez chegar a essa conclusão?
Abreu – Numa parte da pesquisa, as espectadoras apontaram com qual personagem se identificavam, e a maioria simpatizava com a Júlia, é claro. Mas havia colocações do tipo: "Quero ser a Júlia porque aí eu pago mensalão para todo mundo e ninguém me passa a perna". Olhe que absurdo: a esperteza desonesta foi vista como um valor. O simples fato de o presidente Lula dizer que não sabia de nada e não viu as mazelas trazidas à tona pelas CPIs e pela imprensa basta – as pessoas fingem que acreditam porque acham mais conveniente que fique tudo como está. Eu me vi na obrigação de fazer alusões a essa inversão de valores em Belíssima. Quando a Bia Falcão reapareceu e disse com a maior cara-de-pau que sumiu porque estava de férias numa fazenda, ficou óbvio para todo mundo que ela estava mentindo. Mas, como Bia se impõe pela autoridade, os personagens engoliram a desfaçatez.  

Veja – A audiência das novelas está mais exigente?
Abreu – Não. Sinto dizer que, se as novelas ficaram mais elaboradas, foi pela evolução natural dos autores. Hoje, o problema em relação ao público é o contrário. O nível intelectual do brasileiro de maneira geral está abaixo do que era na década de 60 ou 70, porque as escolas são piores e o estudo já não é valorizado como antigamente. Houve um dia, não custa lembrar, em que cursar a universidade era um objetivo de vida. O valor não é mais fazer alguma coisa que seja dignificante. As pessoas querem é subir na vida, ganhar dinheiro, e dane-se o resto.

Veja – Como essa queda no nível cultural afeta seu trabalho?
Abreu – Não dá para aprofundar nenhum tema, porque o público não consegue acompanhar. Isso não pode ser uma desculpa para os autores baixarem o nível, é claro. Nosso desafio é ser simples na forma, mas nem por isso vazios. Se eu tratasse de maneira sisuda alguns assuntos que estou abordando em Belíssima – a corrupção no dia-a-dia, por exemplo –, o povo não se interessaria. Foi preciso, primeiro, arrebatar o público com uma personagem como Bia Falcão, para a partir dela tratar dessa questão. Posso dar outro exemplo: minha tentativa de inovar a linguagem das novelas das 7 com As Filhas da Mãe, que tinha uma narrativa mais fragmentária. Eu achava aquilo uma novidade extraordinária, que seria uma beleza no ibope. Mas houve rejeição do público das classes D e E. Não que eles não gostassem da novela – eles simplesmente não a entendiam.

Veja – Belíssima tem casais que são movidos mais pela libido que pelo amor. O romance, no velho sentido folhetinesco, está com os dias contados?
Abreu – O problema é que ele virou um item antiquado. Os relacionamentos hoje são mais superficiais, as pessoas casam e descasam com facilidade. Nos grupos de discussão, constata-se que as espectadoras ainda têm uma expectativa romântica, mas não mais aquela visão de antigamente de que a mocinha tem de esperar o mocinho e, quando ele chegar, todos os problemas se resolverão e eles serão felizes para sempre. Salvo se for uma novela de época, será difícil o público engolir uma trama que insista nisso hoje em dia.  

Veja – No caso dos gays, o humor do espectador também mudou?
Abreu – Sem dúvida. Nesse campo, a influência das novelas é enorme. E olhe que fui até agredido por causa desse negócio nos tempos de A Próxima Vítima, quando mostrei o primeiro casal gay escancarado numa novela das 8. Eu estava num cinema quando, de repente, um senhor atrás de mim anunciou em voz alta: "Silvio de Abreu, grande autor brasileiro". Eu virei para trás, pensando que ia ser cumprimentado, quando ele emendou: "Você destrói a família brasileira ao defender o homossexualismo. Essa gente toda tem de acabar no inferno". Acredito que prestei um serviço ao retratar os homossexuais com respeitabilidade. Mas a chave da aceitação deles foi a forma como introduzi o tema. Durante boa parte da novela, omiti o fato de que Jeferson e Sandrinho eram gays. Mostrei que eles eram bons amigos, bons filhos e estudantes dedicados – tudo o que o público acha bonito nas pessoas. Só lá pelo capítulo 100 eu exibi esse outro lado. Foi como se dissesse: olhe só, gente, esqueci de contar um detalhe sobre os mocinhos. O noveleiro é, antes de tudo, um manipulador de emoções.  

Veja – E o que explica seu revés, tempos depois, com as lésbicas de Torre de Babel?
Abreu – Cometi o equívoco de achar que, como já havia mostrado um casal homossexual com sucesso, todo mundo ia aceitá-las de cara. As duas surgiram como casal logo no início, e isso gerou uma série de protestos. Foi um ruído excessivo que não ocorreria se eu tivesse ido mais devagar.  

Veja – Há muita rivalidade entre os autores da Globo?
Abreu – Não rivalidade no sentido de que um quer matar o outro. Eu, por exemplo, sou muito amigo do Gilberto Braga. Tem outros com os quais não me dou. Competição sempre existe, porque todo mundo quer que sua trama faça mais sucesso. Isso é estimulante.  

Veja – É difícil lidar com o ego dos atores?
Abreu – Eu acho muito engraçado. No início da novela, o ator é sempre humilde. Mas basta começar a se destacar que ele se enche de si e passa a achar que é dono do pedaço. Aí eu tenho de dizer: abaixe essa bola, meu filho, porque na hora em que acabar a novela tudo volta ao normal. Mas, graças a Deus, não tenho problemas com atores. Quando faço novela, minha maior dificuldade é dizer não, pois a maioria briga para trabalhar comigo. Não sou o tipo de autor que se fecha numa torre de marfim. Gosto de estar perto, saber se o personagem está de acordo com a expectativa deles. Claro, é preciso tomar certos cuidados. Os atores vêem a obra pela perspectiva de seus personagens, enquanto eu tenho de ter uma visão de conjunto. Se não tivessem ego, eles não seriam atores. Isso é até qualidade.  

Veja – Nos últimos anos, o merchandising social entrou para o repertório das novelas. Por que Belíssima dispensa esse expediente?
Abreu – Não que eu me recuse a fazer, mas o merchandising social não faz meu estilo. E também não pensei em nenhuma boa causa que fosse pertinente. Botar o Jamanta para estudar? Não combina com minha trama. Se o merchandising social não ficar forçado na história, tudo bem. Agora, se o autor fizer uma campanha só para dizer "olha como estou preocupado com a população", fica chato.  

Veja – O ator Lima Duarte reclamou numa entrevista de fazer merchandising de comida de gato. A crítica o surpreendeu?
Abreu – É claro. Ele não foi obrigado a fazer merchandising – como, aliás, nenhum ator da novela. É bom ficar claro que o merchandising é uma coisa paralela – o ator ganha por fora para fazer propaganda. Não tenho nada contra isso, até porque escrevo novelas que se passam numa sociedade de consumo. Se eu puder colocar na boca de um personagem "eu quero uma Coca-Cola", em vez de refrigerante, prefiro. Se o Lima Duarte ficou irritado porque encheram sua paciência com a propaganda da comida de gato, problema dele.  

Veja – Por que há tão pouca renovação na elite dos noveleiros?
Abreu – Muita gente acha que nós veteranos exercemos um monopólio. Mas a verdade é que está difícil encontrar quem saiba fazer novela. É claro que há gente de categoria na nova geração. Mas é um trabalho muito específico. O noveleiro é mais que um escritor, é quase um produtor que tem de resolver toda sorte de problemas que ocorrem quando uma novela está no ar. É esse profissional completo que está em falta.

Veja – Seu colega Aguinaldo Silva já comentou que não há pressão maior do que escrever uma novela das 8. O senhor concorda?
Abreu – A pressão, de fato, é enorme. Nessa novela não estou sofrendo com isso, felizmente, porque tive a sorte de Belíssima fazer sucesso desde o início. Mas, se os índices não fossem bons, a situação seria diferente. A novela das 8 é o esteio da programação da Globo, e não dá para dizer que não assusta manter esse Boeing no ar. Agora, se o autor for pensar nisso, está frito. Não adianta ficar de chororô – tem de sentar ao computador e dar o melhor de si. Mesmo com todo o esforço, porém, às vezes a gente não atinge o sucesso. E, quando isso ocorre, é uma tragédia. Para alguém de fora, pode parecer fácil arriscar porque uma trama não está fazendo sucesso. Mas no olho do furacão não é tão simples. Evidentemente, ninguém é louco de fazer uma novela ruim porque gosta do fracasso.  

Veja – Como é conviver com o fracasso?
Abreu – É horrível carregar uma novela que o público não está acompanhando. Quando falta estímulo, eu emboto – não sei por onde ir. A primeira novela que fiz na Globo, Pecado Rasgado, deu errado e foi um inferno – cheguei a pensar em nunca mais escrever novelas. A pior experiência do mundo é acordar de manhã e ter diante de si dezenas de páginas para preencher, mas com a certeza de que o público não estará nem aí. Novela tem uma coisa muito engraçada: quando funciona, o autor pode fazer o que quiser que o público gosta. Mesmo que a história não tenha pé nem cabeça, que vá para um lado ou para outro ao bel-prazer do autor.  

Veja – É o caso dos mistérios cada vez mais mirabolantes de Belíssima?
Abreu – Não, Belíssima tem uma trama firme e segura. Pode anotar: eu sei exatamente o que estou fazendo. Estou jogando suspeitas para cá e para lá, mas isso só mostra que sei para onde levar a história. A história é tão simples, as pessoas é que ficam complicando. No final, todo mundo vai dizer: "Ah, era só isso?".

 
 
 
 
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