Rir para esquecer
Lista das 100 melhores comédias
americanas
comprova que crise faz bem para o humor
Isabela Boscov
Criado em 1965, o American Film Institute (AFI) era uma
instituição que cuidava apenas de assuntos
elevados, como a preservação da memória
cinematográfica dos Estados Unidos. Pois o AFI achou
um jeito de ir aonde o povo está: usando como pretexto
o centenário do cinema, passou a elaborar uma série
de listas de "100 Mais". A primeira, em 1998, trazia os
100 maiores filmes do século um sucesso absoluto,
já que foi esquadrinhada por praticamente toda a
imprensa mundial. No ano passado, divulgou-se uma seleção
de astros. Na terça-feira, chegou a vez dos 100 filmes
mais engraçados da história. Como nas outras
ocasiões, um enorme contingente de artistas, críticos
e historiadores votou com base em 500 títulos propostos
pelo AFI. O primeiro lugar, previsivelmente, foi para Quanto
Mais Quente Melhor, uma atuação antológica
de Marilyn Monroe.
A década que aparece com mais freqüência
na compilação do AFI é a de 80, com
22 títulos. É fácil explicar: ela marca
a popularização do gênero "besteirol".
Os anos 30 e 40 respondem por um terço da lista.
Explica-se: nessas décadas, reinaram os irmãos
Marx, Katharine Hepburn e Cary Grant, entre outros atores
geniais. Os diretores que bolavam essas comédias
também eram grandes. Contam-se entre eles Howard
Hawks, Preston Sturges, George Cukor e o alemão Ernst
Lubitsch, autor do clássico Ninotchka, no
qual a taciturna Greta Garbo foi vista rindo pela primeira
vez nas telas.
O filé mignon da comédia americana surgiu
numa época difícil, em que os Estados Unidos
atravessavam a Depressão. Mal saiu dela, o país
se engajou nos combates sangrentos da II Guerra. Para quem
acha que a especialidade de Hollywood é fugir da
realidade pela tangente da fantasia, está aí
um bom argumento. Mas a principal lição que
se pode tirar da lista diz mais respeito à humanidade
do que especificamente aos americanos: como se suspeitava,
não há mesmo melhor combustível para
o humor do que a crise.
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