Edição 1 654 -21/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Ana MAria Machado, a campeã da literatura infantil
Katia Zero é best-seller com seus guias de Nova York
O sucesso do bósnio que escreve em inglês
A Obra que inspirou o Zorro
As melhores comédias de todos os tempos
O alter ego de Garth Brooks
Jackeline Petkovic, a líder das manhãs
Carlos Lombardi às voltas com o sindicato das aeromoças
Monique Evans e o trash da madrugada
Colunas
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Prodígio bósnio

Ele não falava inglês.
Hoje, é autor de sucesso nos EUA

Rodrigo Amaral, de Londres


SA Schloff
Hemon: compará-lo a Nabokov já é exagero


Aleksandar Hemon estava de passagem pelos Estados Unidos, em 1992, quando estourou a guerra civil na Bósnia, seu país natal. Acompanhando pela TV o desenrolar do conflito, cuja selvageria chocou o mundo inteiro, ele achou que era prudente não retornar a Sarajevo, onde havia nascido e vivido até então. Essa seria apenas mais uma triste história sobre refugiados não tivesse Hemon realizado uma proeza. Com a coletânea de contos The Question of Bruno (A Pergunta de Bruno), ele se tornou um dos mais respeitados e bem-sucedidos escritores jovens dos Estados Unidos. Detalhe: ao pisar pela primeira vez em solo americano, Hemon não falava inglês e mal conseguia pedir um hambúrguer e uma Coca-Cola no McDonald's. Agora, é comparado ao russo Vladimir Nabokov e ao polonês Joseph Conrad, outros expatriados que dominaram a língua de Shakespeare e entraram para a história da literatura do século XX.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra, alguns críticos chegaram até a dizer que a façanha de Hemon é maior do que a de Nabokov – de família rica, o russo aprendeu o inglês ainda criança. O bósnio teve de estudar a língua em condições desfavoráveis. Sobrevivia à custa de bicos, como o trabalho num grupo ecológico. "No emprego, eu tinha de gastar muita lábia para convencer as pessoas a ajudar o urso panda e outros animais exóticos. Foi assim que me aperfeiçoei no idioma", lembra ele, com humor. Hemon também dá risada diante da comparação com Nabokov. "É claro que fico orgulhoso, mas acho que é exagero", diz ele.

É inegável, no entanto, que a carreira do bósnio é promissora. Seus contos tratam do cotidiano em sua terra natal, antes, durante e depois da guerra civil. Alguns falam de "trivialidades", como o problema de chegar incólume ao outro lado de uma rua vigiada por atiradores. Outros textos dissecam ódios étnicos ou religiosos que assolam a região há séculos. Às vezes, o tom é sombrio, como no caso do conto em que um homem diz a seu sobrinho de 9 anos: "Você pode parar de viver agora, menino, porque nada vai mudar, nunca". Finalmente, há contos sobre refugiados, que foram buscar uma vida mais segura longe das origens. Hemon consegue abordar esses assuntos difíceis com graça e até leveza. Devido ao seu talento, o autor tem tudo para fazer um bom pé-de-meia. Nas revistas literárias, seus textos estão sendo disputados a tapa. E, na Inglaterra, uma editora acaba de pagar o equivalente a 430.000 reais pelos direitos de publicação de The Question of Bruno e de um segundo livro, que ainda nem foi escrito. É uma cifra de respeito para um autor iniciante.