Prodígio bósnio
Ele não falava inglês.
Hoje, é autor de sucesso nos EUA
Rodrigo Amaral, de Londres
SA Schloff
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| Hemon: compará-lo a Nabokov
já é exagero |
Aleksandar Hemon estava de passagem pelos Estados Unidos,
em 1992, quando estourou a guerra civil na Bósnia,
seu país natal. Acompanhando pela TV o desenrolar
do conflito, cuja selvageria chocou o mundo inteiro, ele
achou que era prudente não retornar a Sarajevo, onde
havia nascido e vivido até então. Essa seria
apenas mais uma triste história sobre refugiados
não tivesse Hemon realizado uma proeza. Com a coletânea
de contos The Question of Bruno (A Pergunta de Bruno),
ele se tornou um dos mais respeitados e bem-sucedidos escritores
jovens dos Estados Unidos. Detalhe: ao pisar pela primeira
vez em solo americano, Hemon não falava inglês
e mal conseguia pedir um hambúrguer e uma Coca-Cola
no McDonald's. Agora, é comparado ao russo Vladimir
Nabokov e ao polonês Joseph Conrad, outros expatriados
que dominaram a língua de Shakespeare e entraram
para a história da literatura do século XX.
Nos Estados Unidos e na Inglaterra, alguns críticos
chegaram até a dizer que a façanha de Hemon
é maior do que a de Nabokov de família
rica, o russo aprendeu o inglês ainda criança.
O bósnio teve de estudar a língua em condições
desfavoráveis. Sobrevivia à custa de bicos,
como o trabalho num grupo ecológico. "No emprego,
eu tinha de gastar muita lábia para convencer as
pessoas a ajudar o urso panda e outros animais exóticos.
Foi assim que me aperfeiçoei no idioma", lembra ele,
com humor. Hemon também dá risada diante da
comparação com Nabokov. "É claro que
fico orgulhoso, mas acho que é exagero", diz ele.
É inegável, no entanto, que a carreira do
bósnio é promissora. Seus contos tratam do
cotidiano em sua terra natal, antes, durante e depois da
guerra civil. Alguns falam de "trivialidades", como o problema
de chegar incólume ao outro lado de uma rua vigiada
por atiradores. Outros textos dissecam ódios étnicos
ou religiosos que assolam a região há séculos.
Às vezes, o tom é sombrio, como no caso do
conto em que um homem diz a seu sobrinho de 9 anos: "Você
pode parar de viver agora, menino, porque nada vai mudar,
nunca". Finalmente, há contos sobre refugiados, que
foram buscar uma vida mais segura longe das origens. Hemon
consegue abordar esses assuntos difíceis com graça
e até leveza. Devido ao seu talento, o autor tem
tudo para fazer um bom pé-de-meia. Nas revistas literárias,
seus textos estão sendo disputados a tapa. E, na
Inglaterra, uma editora acaba de pagar o equivalente a 430.000
reais pelos direitos de publicação de The
Question of Bruno e de um segundo livro, que ainda nem
foi escrito. É uma cifra de respeito para um autor
iniciante.