Edição 1 654 -21/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
A vitamina B12 no diagnóstico do câncer
Bares de craques da bola naufragam
Os vulcões podem ser comuns no sistema solar
Tragédia que inspirou Moby-Dick vira best-seller
O sucesso do skate de dedo
O que os jovens esperam das empresas e elas deles
A reprodução de músicas pela rede
O conversível da Audi chega ao Brasil
Fósseis podem ter inspirado seres mitológicos
Os brasileiros invadem a Broadway
Guga agora enfrenta o desafio da grama
Tom Cruise, o dono de Hollywood

Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Bonito, milionário e agora produtor de primeira linha.
Nunca houve um astro como o de Missão Impossível

Isabela Boscov


Veja também
Como Tom Cruise foi abrindo seu caminho na terra do cinema

Nenhum artista é tão poderoso quanto Tom Cruise. Aos 37 anos, e mais bonito do que nunca, ele é de longe o astro de maior magnitude da indústria cinematográfica americana, um portento que fatura 35 bilhões de dólares anualmente só nos Estados Unidos. Cruise é uma máquina de fazer dinheiro, o único ator que pode se gabar de ter estrelado consecutivamente cinco filmes que ultrapassaram os 100 milhões de dólares de bilheteria. Não só os estúdios enriquecem com sua popularidade. Em uma única fita, o primeiro Missão Impossível, ele engrossou sua conta bancária com 70 milhões de dólares. Além de ser o ídolo mais popular do cinema atual (no segmento feminino, principalmente), é um produtor competente, que nada fica a dever aos profissionais mais experientes. Prova disso é que ele acaba de repetir a dose. Missão: Impossível – 2 somou até o final de semana passado inacreditáveis 158 milhões de dólares em apenas dezenove dias de exibição em território americano. O filme estréia nesta quinta-feira em 270 cinemas brasileiros, mais de 15% do circuito do país.

Quando se mede Cruise com os astros do passado, surge uma diferença fundamental. Sua presença magnética nas telas tem sua contrapartida no mundo do show business, em que também impera. No auge da carreira, por exemplo, o ator Cary Grant, um dos ícones da década de 40, saiu-se com a seguinte frase: "Todo homem quer ser Cary Grant. Inclusive eu". A blague mostrava a sua perplexidade em constatar como era difícil escapar da imagem cristalizada nas telas: a do sujeito elegante, charmoso e bem-humorado que parecia imune aos dramas cotidianos. Descontado o fato de que Grant era elegante, charmoso e bem-humorado também fora dos filmes, a velha Hollywood não permitia aos artistas que dessem guinadas em suas carreiras. Se um ator desse certo como vilão, jamais seria mocinho. Se uma atriz encarnasse a contento personagens sofredoras, nunca poderia interpretar uma mulher fatal. As exceções, é claro, só confirmam a regra. Os estúdios, dos quais os artistas eram meros funcionários, encampavam até a vida pessoal de seus contratados. A Warner, por exemplo, fez de tudo para esconder que a estrelíssima Joan Crawford sofria de perturbações psíquicas. Desconfia-se que o estúdio a pressionou a adotar quatro crianças, a fim de lhe emprestar uma moldura familiar. Madura e solteira, Joan vinha sendo alvo de comentários maldosos, o que prejudicava os negócios. Quanto à maneira que a atriz tratava seus filhos adotivos... Bem, isso ao menos rendeu outra fita, Mamãezinha Querida.


Dean Sewel/AP

VIDA EM FAMÍLIA

Cruise mantém um relacionamento estreito com a mãe, Mary, e não desgruda das crianças Isabella e Connor, que ele e Nicole adotaram


Mais de meio século depois dos percalços vividos por Cary Grant, Joan Crawford e companhia, a balança de poder em Hollywood inverteu-se definitivamente. Apesar de os estúdios ainda disporem de muitas cartas na manga, os grandes atores hoje têm bem mais poder. Jack Nicholson, Julia Roberts, Mel Gibson e Al Pacino, entre outros integrantes desse seleto clube, alteram roteiros, exigem montanhas de dinheiro a título de cachê e contam com gordas participações nas bilheterias. Mesmo entre esses poderosos, Cruise se destaca. Os dados relativos a ele impressionam. Segundo a revista especializada Hollywood Reporter, a média de bilheteria do primeiro fim de semana dos filmes de Tom Cruise é de 32 milhões de dólares, mais de três vezes a média do cinema americano como um todo. A mesma publicação fez uma pesquisa entre os maiores executivos da indústria cinematográfica, para estabelecer um ranking dos 400 artistas mais "bancáveis" de Hollywood, aqueles que representam menos risco e mais oportunidade. Numa escala de zero a 100 pontos, Cruise foi o único a conseguir a graduação máxima. Em sua cola estavam Harrison Ford (99 pontos), Mel Gibson (98) e Tom Hanks (97). Dono de um cacife monumental, Cruise pode se dar ao luxo de passar longas temporadas se dedicando a produções menos comerciais. É o caso de Magnólia, que lhe valeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, e De Olhos Bem Fechados, pelo qual passou dois anos à mercê do diretor Stanley Kubrick. Segundo especialistas, ele deixou de embolsar 60 milhões de dólares por causa de sua veleidade kubrickiana. É compreensível que Cruise abra mão do vil metal. Em que pese todo seu poder, falta-lhe ser reconhecido como um bom ator. Tanto que jamais ganhou uma estatueta da Academia. Hoje, ele é tido pelos críticos como um artista limitado que, vez por outra, surpreende. O ideal seria ser considerado um ótimo intérprete que, aqui e ali, dá suas escorregadelas. Como Marlon Brando e Robert De Niro. Essa talvez seja a única meta que Cruise ainda não tenha cumprido em sua carreira planejadíssima. Desde cedo, o ator entendeu que sorte está longe de ser tudo para quem deseja escalar o Olimpo hollywoodiano.

Arroz de saquinho – Quando se observa atentamente a trajetória de Cruise, percebe-se que ela é composta de estratégia e obstinação. Vinte anos atrás, o garoto Thomas Cruise Mapother IV, nascido em 3 de julho de 1962, na pequena cidade de Syracuse, no Estado de Nova York, parecia fadado ao fracasso. Com 1,72 metro de altura, ele estava bem abaixo do padrão de estatura que o cinema americano costuma prestigiar. Tinha também bochechas rechonchudas e um nariz proeminente. Além disso, sofria para decorar seus textos: ainda em criança, foi diagnosticado como disléxico, uma condição que faz o paciente trocar as letras do que lê ou escreve. Sua intensidade ao interpretar era também desmesurada. Por causa dela, não conseguia papéis nem em comerciais de salgadinhos. Pronunciava "Cheesitos" como se estivesse numa cena de dramalhão. Mas não desistia das incessantes rodadas de testes, motivo pelo qual aos 18 anos saíra de casa e se mudara para Nova York.

Cruise se impôs um prazo de dez anos para fazer a carreira decolar. Para custear as refeições, economizava na condução. Vivia, segundo descreveu, "como um selvagem", à base de cachorros-quentes e arroz de saquinho. No seu primeiro papel num filme, Toque de Recolher, de 1981, os colegas de elenco, entre eles Sean Penn e Timothy Hutton, achavam graça de sua seriedade. Esta, na verdade, encobria a insegurança. Quando o diretor ofereceu a ele um personagem mais importante do que o previsto, Cruise recusou, achando que lhe faltava experiência. Mas voltou atrás porque os produtores deixaram claro que, se não aceitasse a promoção, poderia tomar o caminho da rua. Desde então, Cruise nunca mais titubeou diante de um desafio. Pelo contrário. Procura-os sem parar, até quando sabe de antemão que vai sair perdendo no confronto direto, como nos filmes em que contracenou com os monstros sagrados Paul Newman (A Cor do Dinheiro) e Dustin Hoffman (Rain Man). Servir de escada para artistas desse coturno sempre esteve nos cálculos de Cruise: a humildade lhe rende mais experiência dramática e também dividendos, na forma de prestígio. E prestígio é uma ótima moeda de troca na hora de negociar contratos.

Os grandes diretores, porém, parecem ser a maior obsessão do astro. A impressão é que mantém pregada na porta da geladeira uma lista com todos os nomes mais luminosos do cinema, e a lê todos os dias, para conferir com quantos ainda falta trabalhar. Além de Martin Scorsese e Stanley Kubrick, Cruise já se submeteu à batuta de Francis Ford Coppola, Ridley Scott, Oliver Stone, Sydney Pollack, Neil Jordan, Brian De Palma e do talento emergente Paul Thomas Anderson, de Magnólia, que arrancou dele a melhor interpretação de sua carreira, no papel de um virulento guru de auto-ajuda que ensina os homens a "domar" as mulheres. Para o ano que vem, ele tem agendada a ficção científica Minority Report, sob o comando de Steven Spielberg. A cada trabalho, Cruise oferece provas de sua disposição. Habituou-se a andar de cadeira de rodas antes de filmar Nascido em 4 de Julho, para ter a exata noção das dificuldades que seu personagem enfrentava. Em Missão: Impossível – 2, dispensou os dublês na maioria das cenas perigosas. A seqüência em que ele se pendura numa rocha de 600 metros de altura, preso apenas por um cabo e sem rede de segurança, deixou a equipe toda de cabelos em pé. Até sua mãe foi ao Estado de Utah, onde se passa a seqüência, na tentativa de demovê-lo da idéia. De nada adiantou – e Cruise terminou a façanha sem um arranhão, mas com muita publicidade em torno de suas proezas.

O ator é um produtor exigentíssimo, que arregaça as mangas para se envolver em todos os aspectos do projeto no qual está engajado – até as fotos que serão distribuídas à imprensa ele aprova. No caso de Missão: Impossível – 2, o estúdio Paramount bancou o orçamento inicial de 80 milhões de dólares. Segundo o combinado, todos os custos adicionais – algo em torno de 20 milhões – serão descontados do valor que Cruise e Woo têm a receber sobre a bilheteria da fita. Isso porque Cruise abriu mão do seu cachê habitual de 20 milhões em troca da acachapante fatia de cerca de 30% da renda bruta obtida pelo filme, segundo revelou a revista Premiere. Trocando em miúdos: se a seqüência repetir o sucesso do original, que faturou 465 milhões de dólares em todo o mundo, quase 140 milhões irão direto para o bolso do ator. Mesmo que todos os gastos extras da produção sejam debitados dessa quantia, ainda lhe restam 120 milhões. O dobro do recebido por Jack Nicholson em Batman. Cruise anda tão em alta que, embora tanto o prazo quanto o orçamento de M:I-2 tenham estourado feio, o estúdio não deu nem um pio. Segundo Sherry Lansing, presidente da Paramount, a explicação é simples: "Queremos que haja um Missão Impossível 3." Desde que Charles Chaplin e Mary Pickford fundaram seu próprio estúdio, a United Artists, em 1919, nenhum outro ator foi capaz de tomar as rédeas de sua carreira de forma tão absoluta.

No final dos anos 20 e início dos 30, os estúdios de Hollywood dominavam a produção, a distribuição e a exibição dos filmes, já que também eram donos das cadeias de cinema. Nesse panorama de poder ultraconcentrado, os atores, mesmo os mais idolatrados, eram vistos como parte do patrimônio. Trabalhavam sob contratos que duravam anos a fio e recebiam salários. Quanto mais popular o astro, maior seu rendimento e maiores as regalias que ganhava, é claro. Como já se disse no início, o estúdio controlava a vida do ator, cunhando sua imagem por meio dos departamentos internos de publicidade, decidindo que fitas ele faria e, ocasionalmente, emprestando-o a outros estúdios. Era o chamado "star system", literalmente, sistema de estrelas, que perdurou intocado até o final da década de 40.

Os resultados mais vistosos do star system se deram ao final da II Guerra. Para se ter uma idéia, em 1946 dois terços da população americana foram ao cinema pelo menos uma vez por semana. Mas, nos anos seguintes, esse quadro caminhou rapidamente para a deterioração. A televisão começou a roubar público, os movimentos sindicais foram ganhando força e minando o poder dos magnatas do cinema e, mais importante, o governo americano iniciou uma série de ações antitruste que obrigaram os estúdios a se desfazer de seu braço exibidor. Eles já não tinham, portanto, mais cacife para manter o star system. Em 1948, por fim, um decreto proibiu os contratos de longuíssimo prazo e os atores de serem identificados com um estúdio em particular. Nessa nova ordem, os artistas tiveram de aprender a negociar seus cachês e também a cuidar da própria vida e imagem, tarefa em que alguns se saem muito mal até hoje. Um ótimo exemplo de sucesso nessa área é James Stewart: na época, ele fez um acordo com o estúdio Universal segundo o qual não receberia cachê, e sim 50% do lucro dos filmes que estrelasse. Stewart introduz também a figura do astro apoiado por um agente, figura que adquiriria enorme importância em Hollywood.

A ascensão de Tom Cruise, nos anos 80, coincide com um momento-chave: aquele em que o superagente Mike Ovitz, então presidente da CAA (Creative Artists Agency), passou a dar as cartas em favor dos atores. Se de fato eram os artistas que levavam o público aos cinemas, então eles mereciam ser infinitamente mais bem remunerados. Com nomes estelares em sua carteira (Warren Beatty, Glenn Close, Sean Connery, Kevin Costner, Robert De Niro, Madonna, Paul Newman, Al Pacino, entre outros), Ovitz não teve dificuldade em mudar as regras de Hollywood. Logo, todos os outros estavam seguindo a mesma política. Iniciava-se assim a era dos megacachês (hoje na faixa de 20 a 25 milhões de dólares, para nomes como Cruise, Harrison Ford, Jim Carrey, Tom Hanks e Mel Gibson) e da proliferação das produtoras fundadas por atores, que se associam aos estúdios para fazer seus filmes. Cliente da CAA, o novato Cruise era atendido por Paula Wagner, responsável também pela carreira de Demi Moore e Oliver Stone. Alguns de seus filmes mais bem-sucedidos dessa época são resultado de uma tática muito peculiar que a CAA passou a empregar em Hollywood: a do "pacote". Na prática, trata-se de oferecer a um estúdio um projeto que já inclui os principais atores e o diretor. Ou o estúdio leva tudo ou fica sem nada. Rain Man, ganhador do Oscar de melhor filme, nasceu dessa política. Desde meados dos anos 90, Paula deixou de ser agente de Cruise para se tornar sua sócia na produtora Cruise/Wagner, que, com a Paramount, produziu os dois Missão Impossível.

A obstinação de Cruise, dizem seus amigos, foi forjada pelas dificuldades que se viu obrigado a enfrentar ainda na infância. Quando ele tinha 11 anos, seus pais se divorciaram de forma dramática. Cruise se recusa a comentar os motivos que teriam levado à separação, mas foram graves o suficiente para que sua mãe, Mary Lee, planejasse uma fuga no meio da noite, levando as três filhas e o único filho homem. Sob o comando materno, as crianças passaram a levar uma vida apertada. Mary Lee equilibrava três empregos ao mesmo tempo. O pai nunca pagou um centavo de pensão alimentícia aos filhos. Cruise o viu duas vezes depois daquela fuga noturna. A segunda foi em 1984, no hospital em que ele estava morrendo de câncer.

"Não sou gay" – Mais do que qualquer outro astro, Cruise preserva sua intimidade. O divórcio da atriz Mimi Rogers, com quem foi casado de 1987 a 1990, não rendeu mais do que uns poucos comentários ácidos por parte da ex-mulher. "Quando se casa com alguém tão famoso, deixa-se de ser um indivíduo", disse Mimi. Nos últimos anos, ele segue à risca a política de processar todos os que avancem o sinal vermelho – ou seja, que levantem dúvidas sobre sua orientação sexual e a legitimidade de seu casamento. "Afirmar que sou gay é atacar meu relacionamento com Nicole e me chamar de mentiroso. Querem dizer algo de mim? Então provem!", desafia. Outro assunto que costuma dar pano para manga é o fato de os filhos de Cruise e Nicole serem adotados. Nicole diz que essa é uma decisão espiritual e que a menina Isabella, de 7 anos, e o garoto Connor, de 5, estavam "destinados" a ela e ao marido. O casal chegou a abrir um processo contra a revista alemã Bunte por ter afirmado que Cruise era infértil. Mas desistiu quando dois executivos da empresa morreram num acidente aéreo. "Não quero processar viúvas e órfãos", declarou Cruise.

Evidentemente, as manchetes são bem-vindas quando o mostram na pele de herói. Em 1996, ele ganhou as páginas dos jornais por ter socorrido a brasileira Heloísa Vinhas, atropelada por um motorista fujão em Los Angeles. Cruise, que passava em seu Porsche e viu a confusão, parou para ajudar a moça, acompanhou-a até o hospital e, ao saber que ela não tinha seguro, pagou a conta de 7 000 dólares. Semanas depois, convidou-a para visitar o set de filmagens de Jerry Maguire, onde a recebeu com um abraço e um beijo. Em outra ocasião, na pré-estréia londrina de Missão Impossível, o astro salvou dois garotos de serem pisoteados pela multidão. De outra feita, quando passeava de barco na costa italiana, acudiu os passageiros de uma lancha em chamas.

Cruise e Nicole. Os dois se conheceram pouco antes das filmagens de Dias de Trovão, apresentados pelo roteirista do filme, Robert Towne. Quando Nicole entrou no restaurante onde o astro e o amigo a esperavam, "dava para ouvir o barulho das pupilas de Cruise se dilatando", relembra Towne. O ator logo se separou de Mimi e, na véspera de Natal de 1990, casou-se com Nicole, cinco anos mais nova e 6 centímetros mais alta (sem saltos, claro). Contrariando as acusações de que vivem uma união de fachada, eles parecem levá-la bastante a sério. Evitam separações prolongadas – algo quase inevitável na profissão que escolheram – e adoram embarcar juntos em aventuras. Compartilham também a mesma religião: a cientologia, aquela seita esquisita que se baseia em misteriosas técnicas de auto-ajuda. "Tom é minha droga. Sou viciada nele", derrete-se Nicole.

Para o público americano, ele é tão especial que os analistas da indústria de cinema falam até em "demanda reprimida" quando Cruise passa uma temporada longe das telas. Por isso, ele diz, as cifras astronômicas que recebe por seus trabalhos são justas. "Eu valho o que ganho", afirmou recentemente à revista Vanity Fair. Ele diz ficar chocado quando alguém sugere que o cachê é o que o atrai na profissão. "Nunca trabalhei por dinheiro. Nunca", jura. O estopim do comentário foi o discurso que o inglês Michael Caine fez neste ano, ao receber o Oscar que Cruise também disputava. "Sinta-se feliz por não ter levado o prêmio, Tom. Você não tem idéia do quão pouco ganha um coadjuvante", brincou Caine. Cruise achou a piada engraçada, mas depois se perguntou se é isso mesmo que as pessoas pensam. A resposta é que ele não deveria preocupar-se tanto. Afinal, 23 filmes e 3 bilhões de dólares arrecadados em bilheteria ao redor do mundo (sem contar o novo Missão Impossível) são uma prova de amor que não deixa dúvida.

 

Eles viraram o jogo contra os estúdios

Astros que marcaram época ao adquirir controle sobre a própria carreira

Mary Pickford
Mary começou ganhando meros 10 dólares por dia, em 1909. Logo, contudo, tornou-se a maior estrela do cinema mudo. Aos 24 anos, passou a ser a primeira milionária de Hollywood, com cachê de 350 000 dólares por filme. Em 1919 fundou seu próprio estúdio, a United Artists, com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks e o diretor D.W. Griffith

Clark Gable
Ex-trabalhador braçal, Gable gastou 300 dólares para virar um "ator": tomou aulas de oratória e reformou os dentes. Deu certo. Em 1932, já era um dos galãs da Metro, para a qual fez ...E o Vento Levou. Em 1955, cansou-se da tirania dos estúdios e decidiu trabalhar sozinho, tornando-se o free lancer de cachê mais alto em Hollywood

Liz Taylor
Liz era uma máquina de fazer e ganhar dinheiro. Aos 19 anos, recebia 5 000 dólares semanais para estrelar o drama Um Lugar ao Sol. Em 1963, tornou-se a primeira atriz da história a ganhar 1 milhão por um filme, o épico Cleópatra. Foi um fracasso que, somado aos dois outros naufrágios consecutivos, pôs fim aos seus dias de queridinha dos produtores

James Stewart
Stewart tinha imagem de bom-moço, mas era um sujeito astuto. Quando os estúdios perderam o controle sobre os astros, no final dos anos 40, ele e seu agente bolaram um sistema inédito: em vez de cobrar cachê, o astro receberia 50% do lucro do filme. Como Stewart era um sucesso, ficou riquíssimo. E seu agente também, é claro

Jack Nicholson
Nicholson passou boa parte da carreira estrelando produções de segunda linha. Só começou a ser considerado um ator lucrativo em 1975, com Um Estranho no Ninho. Catorze anos depois, já estabelecido como astro, deu seu golpe de mestre: exigiu uma fatia da renda de Batman, em que vivia o vilão Coringa. Saldo da iniciativa: 60 milhões de dólares para Nicholson

 

Uma missão quase cumprida

À época do primeiro Missão Impossível, alguém indagou à produtora Paula Wagner quais os motivos que levariam o espectador a sair de casa para ver um filme baseado num seriado de TV dos anos 60. "É simples: Tom Cruise, Tom Cruise, Tom Cruise e Tom Cruise", enumerou ela. No caso de Missão: Impossível – 2 (Mission: Impossible – 2, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta quinta-feira em circuito nacional, há pelo menos mais uma boa razão para ir ao cinema: o talento do diretor John Woo. Ao que parece, até hoje ninguém teve coragem de contar a esse chinês de 54 anos que a tela do cinema é plana ou que a física tem certas leis irrevogáveis, como a da gravidade. Quando ele está orquestrando suas embasbacantes cenas de ação, a platéia se sente como se estivesse no centro delas, com tudo girando à sua volta. Woo é, por assim dizer, o mais tridimensional dos cineastas. Não à toa, seu estilo vem sendo tão copiado – Matrix é o mais notável exemplo de sua influência no cinema americano. Fiel à sua marca registrada, ele filma Cruise em câmara lenta muito mais do que pede o roteiro. Segundo o diretor, cada ator tem sua velocidade ideal nessa técnica. "Por ter movimentos tão elegantes, Cruise pede a mais baixa delas", diz Woo.

Que ninguém espere, contudo, encontrar em Missão: Impossível – 2 aquele ritmo frenético que Woo imprimiu a A Última Ameaça ou A Outra Face, seus maiores sucessos no Ocidente. A primeira meia hora até engana. Quando Cruise aparece encarapitado num penhasco, seguro à rocha apenas pelas pontas dos dedos, a platéia prende a respiração – e continua sem fôlego durante a perseguição em alta velocidade à mocinha, que lembra os bons momentos dos filmes de James Bond. A partir daí, Missão: Impossível – 2 passa um longo trecho voando em piloto automático, enquanto a platéia, a contragosto, é obrigada a se familiarizar com as minúcias da trama. Considerando que esta pode ser resumida em uma frase (vírus fatal cai nas mãos erradas e pode dizimar a população da Austrália), não era preciso enrolar tanto.

Esse não é o único problema de Missão: Impossível – 2. A atriz Thandie Newton, que vive a ladra de bom coração por quem Cruise se apaixona, é um bocado apática. Já o novato Dougray Scott, que faz o bandido, exagera nos trejeitos vilanescos. Não lembram em nada a luminosa Ingrid Bergman e o sutil Claude Rains de Interlúdio – o filme de Alfred Hitchcock no qual esta aventura se inspira abertamente. Sorte que, ao final, John Woo volta a atacar com força total, em cenas tão audazes que dá vontade de comemorá-las com um "olé!". Com tanta inspiração dando sopa, quem quer ficar se preocupando com vírus mortais?

 

 
Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  Flor exótica
  O jogo do sexo