Edição 1 654 -21/6/2000

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Os monstros eram de verdade

Gregos e romanos podem ter criado
seres mitológicos com base em fósseis

Daniel Hessel Teich

 
R.L. Andrews/Courtesy American Museum of Natural History
R.L. Andrews/Courtesy American Museum of Natural History
O grifo mitológico e a ossada fóssil de um Protoceratops: origens no Deserto de Gobi

Durante décadas, estudiosos de arte grega se intrigaram com um desenho pintado em um vaso coríntio de 2.500 anos, atualmente exposto no Museu de Belas Artes de Boston. Nele, o herói Hércules combate um monstro do mar que ameaça a cidade de Tróia. O que os pesquisadores se perguntavam era como o autor da pintura pode ter feito uma aberração tão tosca, de estilo estranho, que enfeava as linhas elegantes das demais figuras, mesmo porque até os monstros gregos têm lá sua beleza. A resposta pode ser totalmente inesperada: ao retratar a criatura esquisita, o artista poderia estar sendo extremamente fiel a sua fonte de inspiração, o crânio de um animal pré-histórico. Essa interpretação revolucionária é de um estudo realizado pela pesquisadora americana Adrienne Mayor, publicada no livro The First Fossil Hunters (Os Primeiros Caçadores de Fósseis), lançado no mês passado nos Estados Unidos. Ela comparou referências clássicas de monstros (em pinturas, mosaicos e textos) com achados paleontológicos em torno do Mar Mediterrâneo. As coincidências são notáveis.

A pista para chegar ao animal retratado no vaso coríntio estava em narrativas mitológicas milenares. Em um trecho da Ilíada, a poderosa epopéia escrita por Homero há 3.000 anos, Hércules salva Hesíone de ser sacrificada a um estranho monstro que assustava a cidade de Tróia. O extraordinário ser brotado da terra junto à costa, logo depois de uma enchente. "O artista deve ter visto ou ouvido falar de um crânio pré-histórico na região descrita por Homero e associou-o ao monstro vencido por Hércules", entende Adrienne Mayor. Bastou vasculhar as peças recolhidas por paleontólogos especializados em fósseis mediterrâneos para encontrar a peça que se encaixava com precisão na teoria: o crânio de uma girafa gigante. O animal, cuja cabeça chegava a medir mais de 60 centímetros, extinguiu-se há 10.000 anos e seus restos fossilizados são abundantes.

Um caminho similar foi percorrido para chegar à origem fóssil do grifo, quimera que guardava as minas de ouro nos confins da Ásia. Esse animal fabuloso, com cabeça de ave de rapina e corpo de leão, fazia ninhos no solo e cuidava da prole de monstrinhos com o empenho de um passarinho. Apesar da descrição detalhada, não há relato na Antiguidade de alguém que tenha de fato visto o bicho vivo. Usando as ferramentas da moderna paleontologia, a pesquisadora americana ligou o ser mitológico aos restos de um tipo de dinossauro, o Protoceratops, comuns no Deserto de Gobi. Localizada na atual Mongólia, a região situa-se exatamente no local que a cultura greco-romana considerava os confins da Ásia. Muitos desses animais extintos há 65 milhões de anos morreram em posições pouco usuais, surpreendidos e soterrados por tempestades de areia. O solo arenoso do deserto faz com que os fósseis venham à tona com relativa facilidade, ao mesmo tempo que oferece imagens de grande impacto. "Como os modernos paleontólogos, os povos antigos devem ter observado os ossos e tentado adivinhar a que tipo de animal poderiam ter pertencido", escreve Mayor. "É natural que tenham remontado o quebra-cabeça usando como referência animais que conheciam. Daí a mistura de leão e águia."

Sabe-se desde o século XIX que ossos fossilizados faziam parte da vida na Antiguidade – e também que cada povo tenta interpretar as descobertas segundo as próprias crenças. O fundador da moderna paleontologia, o francês Georges Cuvier, ao escrever no início do século XIX sobre a evidência de animais extintos, imaginou tratar-se de espécies afogadas pelo dilúvio bíblico. Setenta anos depois, na escavação das ruínas de Tróia, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann identificou em meio a jóias fabulosas as vértebras de animais gigantes extintos havia mais de 8 milhões de anos. "O local onde hoje está o Mar Mediterrâneo foi um grande corredor migratório de mamíferos gigantes há 15 milhões de anos", explica a professora de antropologia biológica da Universidade de Bristol, Kate Robson Brown. "De tempos em tempos a atividade vulcânica, os terremotos e as colisões das placas tectônicas acabam expondo os fósseis." É natural que os povos que habitaram essa região na Antiguidade topassem com os vestígios dessas criaturas. Em sua pesquisa, Adrienne Mayor encontrou evidências de que durante dez séculos, a partir do V a.C., a civilização greco-romana empenhou-se numa verdadeira corrida por sinais pré-históricos. Eram considerados provas materiais das batalhas dos gigantes e heróis clássicos. Ricaços conservavam os achados como preciosidades, junto com ouro e jóias. O poderoso Adriano, que reinou no século II, venerava ossos que julgava serem do gigante Ajax e os guardou num mausoléu especialmente construído na Ásia Menor. O imperador Augusto, por sua vez, ergueu um museu para expor sua coleção de fósseis na Ilha de Capri.