Os monstros eram de verdade
Gregos e romanos podem ter criado
seres mitológicos com base em fósseis
Daniel Hessel Teich
R.L. Andrews/Courtesy
American Museum of Natural History
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R.L. Andrews/Courtesy
American Museum of Natural History
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| O
grifo mitológico e a ossada fóssil de
um Protoceratops:
origens no Deserto de Gobi |
Durante décadas, estudiosos de arte
grega se intrigaram com um desenho pintado em um vaso coríntio
de 2.500 anos, atualmente exposto
no Museu de Belas Artes de Boston. Nele, o herói
Hércules combate um monstro do mar que ameaça
a cidade de Tróia. O que os pesquisadores se perguntavam
era como o autor da pintura pode ter feito uma aberração
tão tosca, de estilo estranho, que enfeava as linhas
elegantes das demais figuras, mesmo porque até os
monstros gregos têm lá sua beleza. A resposta
pode ser totalmente inesperada: ao retratar a criatura esquisita,
o artista poderia estar sendo extremamente fiel a sua fonte
de inspiração, o crânio de um animal
pré-histórico. Essa interpretação
revolucionária é de um estudo realizado pela
pesquisadora americana Adrienne Mayor, publicada no livro
The First Fossil Hunters (Os Primeiros Caçadores
de Fósseis), lançado no mês passado
nos Estados Unidos. Ela comparou referências
clássicas de monstros (em pinturas, mosaicos e textos)
com achados paleontológicos em torno do Mar Mediterrâneo.
As coincidências são notáveis.
A pista para chegar ao animal retratado no vaso coríntio
estava em narrativas mitológicas milenares. Em um
trecho da Ilíada, a poderosa epopéia
escrita por Homero há 3.000
anos, Hércules salva Hesíone de ser sacrificada
a um estranho monstro que assustava a cidade de Tróia.
O extraordinário ser brotado da terra junto à
costa, logo depois de uma enchente. "O artista deve ter
visto ou ouvido falar de um crânio pré-histórico
na região descrita por Homero e associou-o ao monstro
vencido por Hércules", entende Adrienne Mayor. Bastou
vasculhar as peças recolhidas por paleontólogos
especializados em fósseis mediterrâneos para
encontrar a peça que se encaixava com precisão
na teoria: o crânio de uma girafa gigante. O animal,
cuja cabeça chegava a medir mais de 60 centímetros,
extinguiu-se há 10.000
anos e seus restos fossilizados são abundantes.
Um caminho similar foi percorrido para chegar à
origem fóssil do grifo, quimera que guardava as minas
de ouro nos confins da Ásia. Esse animal fabuloso,
com cabeça de ave de rapina e corpo de leão,
fazia ninhos no solo e cuidava da prole de monstrinhos com
o empenho de um passarinho. Apesar da descrição
detalhada, não há relato na Antiguidade de
alguém que tenha de fato visto o bicho vivo. Usando
as ferramentas da moderna paleontologia, a pesquisadora
americana ligou o ser mitológico aos restos de um
tipo de dinossauro, o Protoceratops, comuns no Deserto
de Gobi. Localizada na atual Mongólia, a região
situa-se exatamente no local que a cultura greco-romana
considerava os confins da Ásia. Muitos desses animais
extintos há 65 milhões de anos morreram em
posições pouco usuais, surpreendidos e soterrados
por tempestades de areia. O solo arenoso do deserto faz
com que os fósseis venham à tona com relativa
facilidade, ao mesmo tempo que oferece imagens de grande
impacto. "Como os modernos paleontólogos, os povos
antigos devem ter observado os ossos e tentado adivinhar
a que tipo de animal poderiam ter pertencido", escreve Mayor.
"É natural que tenham remontado o quebra-cabeça
usando como referência animais que conheciam. Daí
a mistura de leão e águia."
Sabe-se desde o século XIX que ossos fossilizados
faziam parte da vida na Antiguidade e também que
cada povo tenta interpretar as descobertas segundo as próprias
crenças. O fundador da moderna paleontologia, o francês
Georges Cuvier, ao escrever no início do século
XIX sobre a evidência de animais extintos, imaginou
tratar-se de espécies afogadas pelo dilúvio
bíblico. Setenta anos depois, na escavação
das ruínas de Tróia, o arqueólogo alemão
Heinrich Schliemann identificou em meio a jóias fabulosas
as vértebras de animais gigantes extintos havia mais
de 8 milhões de anos. "O local onde hoje está
o Mar Mediterrâneo foi um grande corredor migratório
de mamíferos gigantes há 15 milhões
de anos", explica a professora de antropologia biológica
da Universidade de Bristol, Kate Robson Brown. "De tempos
em tempos a atividade vulcânica, os terremotos e as
colisões das placas tectônicas acabam expondo
os fósseis." É natural que os povos que habitaram
essa região na Antiguidade topassem com os vestígios
dessas criaturas. Em sua pesquisa, Adrienne Mayor encontrou
evidências de que durante dez séculos, a partir
do V a.C., a civilização greco-romana empenhou-se
numa verdadeira corrida por sinais pré-históricos.
Eram considerados provas materiais das batalhas dos gigantes
e heróis clássicos. Ricaços conservavam
os achados como preciosidades, junto com ouro e jóias.
O poderoso Adriano, que reinou no século II, venerava
ossos que julgava serem do gigante Ajax e os guardou num
mausoléu especialmente construído na Ásia
Menor. O imperador Augusto, por sua vez, ergueu um museu
para expor sua coleção de fósseis na
Ilha de Capri.