Guerra das estrelas
A reprodução de músicas
pela rede vira uma febre
mundial e opõe artistas, gravadoras e internautas
Elen Peterson e Roberta
Paduan
André Duarte
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Ivete Sangalo: troca de músicas
pela rede só mediante o pagamento de direitos
autorais
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Música é o motivo da briga mais quente do
momento na internet. Gravadoras, artistas e internautas
se digladiam em torno de dois achados que tornaram a vida
dos navegantes da rede mais prazerosa, mas incomodam os
tubarões da indústria fonográfica
um negócio que movimenta 38 bilhões de dólares
por ano e é muito cioso de que novas tecnologias
possam ameaçar a venda de discos. Um desses incômodos,
já bem conhecidos dos internautas, é o MP3,
um tipo de arquivo desenvolvido para armazenar e reproduzir
músicas com qualidade digital. Por ser muito compactos,
os arquivos MP3 mostram-se ideais para trafegar com rapidez
pela internet. O segundo problema atende pelo nome de Napster.
É um programa que permite às pessoas compartilhar
na rede todos os seus arquivos MP3. Napster e MP3 combinaram-se
como a pólvora e a faísca, tornando a troca
de arquivos musicais uma febre global. Conspirando contra
a alegria geral, as gravadoras dispararam processos na Justiça
americana para pôr um paradeiro na festa.
A briga também divide em dois grupos os roqueiros,
cantores e artistas em geral. Acompanhando o movimento das
gravadoras, estrelas como Madonna e os integrantes da banda
de rock Metallica entraram na Justiça contra a reprodução
gratuita de músicas na internet. Alegam que são
vítimas de uma pirataria desenfreada. Os advogados
do Metallica processaram o Napster, com a justificativa
de que pelo menos 300.000 internautas
copiaram ilegalmente canções do grupo, sem
lhe pagar direitos autorais. O Metallica alega prejuízos
de 10 milhões de dólares, em virtude das trocas
on-line, mas até agora não conseguiu convencer
a Justiça a fechar o site, como queria. No caso de
Madonna, a história é mais curiosa. Uma de
suas composições caiu na rede e foi espalhada
pelo mundo todo: é uma faixa inédita de seu
novo disco, que será lançado em setembro.
Ao lado dessa turma anti-MP3, porém, existe outra,
que defende a liberdade de reprodução de músicas
na internet. Ela inclui nomes como Courtney Love e Offspring.
Divulgação Marcos Penteado/TV
Cultura
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Lobão, que é
a favor do MP3: pirataria on-line é pequena
e será resolvida
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O Napster funciona como um clube virtual de música.
Para fazer parte dele, o internauta deve primeiro instalar
um programinha a alma do serviço que
vai encarregar-se de fazer uma lista de todos os arquivos
MP3 existentes em seu computador. No momento em que o novo
usuário se conecta ao site, o programa mostra aos
outros membros da comunidade os arquivos que ele tem, e
vice-versa. É só escolher um e copiar. O resultado
é uma imensa discoteca de cerca de 1,4 milhão
de faixas musicais, compartilhadas por uma patota estimada
em 10 milhões de pessoas. O sucesso estrondoso colocou
o site entre os mais acessados no mundo inteiro nas últimas
semanas. E também na alça de mira de gravadoras
e artistas que se sentiram lesados.
De acordo com o instituto americano Jupiter Communications,
a distribuição de música pela rede
alcançará 147 milhões de dólares
nos Estados Unidos em 2003, o que representará cerca
de 6% do total movimentado pela indústria. É
um número pequeno, que na aparência não
justificaria tamanha algazarra. O problema é que
dois anos atrás o movimento era zero. Um estudo divulgado
há duas semanas revela que 13 milhões de americanos
já copiaram músicas pela internet. Desse total,
menos de 2 milhões pagaram alguma coisa pelo uso
dos direitos autorais sobre as obras. Ou seja, o potencial
de expansão e de confusão nesse mercado é
enorme.
No Brasil, os números são ainda menores,
mas a questão já esquentou os ânimos.
Nos últimos seis meses, a Associação
Protetora dos Direitos Intelectuais Fonográficos
(Apdif) tirou do ar 827 sites brasileiros que ofereciam
música em MP3 ilegalmente. A entidade estima que
haja atualmente outros 13.000
endereços virtuais desse tipo no país. "Lutaremos
para fechar todos eles", afirma Carlos de Andrade, diretor-geral
da Associação Brasileira de Produtores de
Discos (ABPD), instituição que representa
as maiores gravadoras do país.
Aqui também os artistas estão divididos.
"Sou contra a troca e o comércio de músicas
pela rede até que haja uma regulamentação
que assegure a parte em dinheiro que nos cabe", diz a cantora
Ivete Sangalo. "A pirataria on-line é incipiente
e pode ser resolvida com ajuda da própria tecnologia",
discorda o cantor e compositor Lobão, que fez da
internet o carro-chefe para promover seu último álbum,
A Vida É Doce, que já caminha para
100.000 cópias vendidas
em seis meses. Embora figure no ranking dos artistas mais
pirateados do país com CDs e fitas cassete, o sertanejo
Chitãozinho, da dupla Chitãozinho & Xororó,
também se posiciona a favor dos sites de música.
"O MP3 vai reestruturar o mercado fonográfico", acredita.
"Ninguém mais será obrigado a pagar pelas
faixas que não quer ouvir. É chegar em casa,
abrir o computador e montar o próprio disco."
A polêmica acesa em torno do MP3 e do Napster é
um exemplo de que, muitas vezes, a tecnologia avança
tão rápido que entra em choque com as regras
usuais da economia, questiona o direito de propriedade e
coloca a legislação numa sinuca. No passado
recente, a indústria fonográfica entrou em
polvorosa com a popularização dos gravadores
de CD. Em alguns países, resolveram o problema entrando
em acordo com os fabricantes dos discos virgens, que repassaram
um porcentual sobre as vendas. No caso do MP3, a BMG e a
Warner fizeram um acordo com o site MP3.com e receberam
uma bolada de 20 milhões de dólares cada uma
em troca da permissão para que músicas de
seus catálogos fossem reproduzidas. No caso do Napster,
ainda não surgiu uma proposta que acomode os interesses.
Mas o tamanho da confusão mostra que as partes já
estão ficando maduras para chegar a um acordo, sem
que seja necessário colocar um cadeado na rede.
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