Edição 1 654 -21/6/2000

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Itália

Duplo perdão

Ali Agca, que atirou no papa, recebe indulto

 

AP
A visita do papa, em 1983: segredos bem guardados


Mehmet Ali Agca, o turco que tentou matar o papa João Paulo II em 1981, deixou a cadeia na terça-feira passada, indultado pelo governo italiano. Extraditado sob escolta, ele foi novamente trancafiado logo que desembarcou em Istambul, pois está condenado por assassinato na Turquia. Será o momento para o terrorista esclarecer os mistérios do atentado? Nos dezenove anos que esteve em prisões italianas, ele nunca deu explicações claras sobre seus motivos ou sobre quem o ajudou a atirar no pontífice diante de 40 000 pessoas na Praça de São Pedro. O anúncio feito pelo Vaticano, no mês passado, de que o atentado fora previsto no Terceiro Segredo de Fátima não ajudou a explicar por que ele tentou matar João Paulo II.

Agca foi preso em flagrante e condenado a prisão perpétua em 1986. Ainda no leito do hospital, o papa perdoou seu agressor. Dois anos depois, visitou-o em sua cela e o perdoou novamente. Nos últimos meses, o Vaticano vinha fazendo discreta pressão para que fosse indultado. "O fato de o atentado estar conectado ao Terceiro Segredo de Fátima ajudou a libertá-lo", diz sua advogada, Marina Magistrelli. "Afinal, significa que Agca é parte de desígnios maiores." Magistrelli é responsável por vários dos rumores sobre a existência de uma conspiração internacional para matar o papa. Foi ela quem primeiro falou que a KGB, a polícia secreta soviética, poderia ter encomendado o crime para se livrar de um papa polonês e anticomunista. A Justiça italiana suspeitava de que Agca estivesse a soldo da Bulgária, cujo serviço secreto costumava fazer o trabalho sujo da KGB – mas nunca encontrou provas dessa ligação.

As melhores pistas talvez estejam na vida obscura de Ali Agca. Nos anos 70, ele entrou para uma organização de terroristas neofascistas cujo objetivo era limpar a Turquia da influência esquerdista. O grupo tinha estreitas ligações com políticos, a cúpula da polícia e do serviço secreto turcos. Agca foi preso em 1979 pelo assassinato do editor de um jornal liberal e condenado à morte, sentença mais tarde reduzida para dez anos. Não se sabe como, sumiu da cadeia antes do julgamento. Sobre a morte do jornalista, ele mantém o mesmo silêncio tumular que guarda a respeito do atentado ao papa.

 
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