Itália
Duplo perdão
Ali Agca, que atirou no papa, recebe indulto
AP
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| A visita do papa, em 1983: segredos
bem guardados |
Mehmet Ali Agca, o turco que tentou matar o papa João
Paulo II em 1981, deixou a cadeia na terça-feira
passada, indultado pelo governo italiano. Extraditado sob
escolta, ele foi novamente trancafiado logo que desembarcou
em Istambul, pois está condenado por assassinato
na Turquia. Será o momento para o terrorista esclarecer
os mistérios do atentado? Nos dezenove anos que esteve
em prisões italianas, ele nunca deu explicações
claras sobre seus motivos ou sobre quem o ajudou a atirar
no pontífice diante de 40 000 pessoas na Praça
de São Pedro. O anúncio feito pelo Vaticano,
no mês passado, de que o atentado fora previsto no
Terceiro Segredo de Fátima não ajudou a explicar
por que ele tentou matar João Paulo II.
Agca foi preso em flagrante e condenado a prisão
perpétua em 1986. Ainda no leito do hospital, o papa
perdoou seu agressor. Dois anos depois, visitou-o em sua
cela e o perdoou novamente. Nos últimos meses, o
Vaticano vinha fazendo discreta pressão para que
fosse indultado. "O fato de o atentado estar conectado ao
Terceiro Segredo de Fátima ajudou a libertá-lo",
diz sua advogada, Marina Magistrelli. "Afinal, significa
que Agca é parte de desígnios maiores." Magistrelli
é responsável por vários dos rumores
sobre a existência de uma conspiração
internacional para matar o papa. Foi ela quem primeiro falou
que a KGB, a polícia secreta soviética, poderia
ter encomendado o crime para se livrar de um papa polonês
e anticomunista. A Justiça italiana suspeitava de
que Agca estivesse a soldo da Bulgária, cujo serviço
secreto costumava fazer o trabalho sujo da KGB mas nunca
encontrou provas dessa ligação.
As melhores pistas talvez estejam na vida obscura de Ali
Agca. Nos anos 70, ele entrou para uma organização
de terroristas neofascistas cujo objetivo era limpar a Turquia
da influência esquerdista. O grupo tinha estreitas
ligações com políticos, a cúpula
da polícia e do serviço secreto turcos. Agca
foi preso em 1979 pelo assassinato do editor de um jornal
liberal e condenado à morte, sentença mais
tarde reduzida para dez anos. Não se sabe como, sumiu
da cadeia antes do julgamento. Sobre a morte do jornalista,
ele mantém o mesmo silêncio tumular que guarda
a respeito do atentado ao papa.
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