O Exército consegue conter o crime?

 
Antonio Milena
Tanques contra bandidos: durante a Eco 92, o Exército garantiu a paz no Rio de Janeiro

Toda vez que a criminalidade ganha as manchetes alguém sai em defesa da idéia de botar as Forças Armadas na rua para caçar bandido. Agora é a vez do senador Antonio Carlos Magalhães. Segundo ele, episódios como o seqüestro do ônibus no Rio não aconteceriam se os soldados do Exército estivessem patrulhando as cidades. À primeira vista, a idéia parece atraente. Durante a Eco 92 as tropas tomaram o Rio de Janeiro e o índice de criminalidade despencou. O Exército, a Marinha e a Aeronáutica dispõem de um contingente de 313.000 homens equipados e treinados. Se fossem colocados nas ruas seria possível dobrar o efetivo policial em São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Recife, algumas das cidades mais violentas do país. Tende-se a acreditar que com os tanques nas esquinas as cidades viveriam dias de calmaria. Na prática, isso não funciona.

Militares estão para policiais assim como médicos para veterinários. As funções parecem similares, mas na essência são coisas absolutamente distintas. Os militares são preparados para invadir ou defender territórios e eliminar inimigos. O objetivo da polícia é outro: defender a sociedade, conter tumultos e reprimir os bandidos. Não constam do currículo de um oficial do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica técnicas para investigação de crimes. Essa não é a praia deles. "Treinar militares para o policiamento levaria tempo e dinheiro", diz Geraldo Cavagnari, especialista em assuntos militares.

O que se diz também é que as tropas nas ruas aumentariam a sensação de segurança e recuperariam o sentido de autoridade, intimidando os bandidos. Ocorre que a falta de policiais não é uma das causas cruciais da criminalidade no país. Brasília é uma das cidades mais policiadas do mundo e enfrenta números elevados de assaltos e homicídios. É aconselhável que o Brasil observe com cautela os exemplos de países que já experimentaram a idéia. No México e na Colômbia o índice de crimes continuou aumentando mesmo com o Exército nas ruas.

No Brasil, os militares ficam assombrados quando lembram os resultados da única experiência dessa natureza da qual já participaram, entre 1994 e 1995 nos morros cariocas. Segundo pesquisas feitas na ocasião, a sensação de segurança aumentou, mas os benefícios foram passageiros, enquanto o efeito colateral da investida contra o crime foi desastroso nos quartéis. Dezenas de soldados foram cooptados pelo tráfico. Quando as tropas estavam de plantão, os traficantes suspendiam os negócios. No momento em que saíram de cena, o tráfico recomeçou a todo o vapor. "As Forças Armadas não conseguem combater as causas do problema", diz o ministro do Exército, Gleuber Vieira. "Depois que vão embora, o problema reaparece."